Dida Sampaio/AE - 01.01.2007Durante os oito anos do governo Lula, o então vice-presidente da República, José Alencar, assumiu o comando do país em ao menos 130 ocasiões, durante viagens internacionais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2002-2010).
De acordo com dados da assessoria do Planalto, Alencar presidiu o país por mais de 400 dias ao longo dos dois mandatos de Lula. Levantamento feito pelo
R7 com base em dados da Presidência indica que o ano em que ele passou mais tempo no comando do governo foi 2009, quando ficou cerca de 70 dias (não consecutivos) no comando.
Devido aos inúmeros tratamentos a que foi submetido no período, ele chegou a realizar despachos oficiais de dentro do hospital– o que ajudou a fortalecer sua fama de “workaholic” nos corredores.
Segundo médicos e funcionários do hospital Sírio-Libanês, onde se tratava contra o câncer, Alencar costumava ler todos os jornais diariamente e realizava reuniões, durante as internações, com secretários e assessores para manter os trabalhos. Apesar do escritório improvisado, o ex-vice-presidente nunca tratou de assuntos de governo com médicos, para quem Alencar era um trabalhador dedicado, porém, muito discreto.
Decisões
Como presidente em exercício, Alencar teve de tomar algumas decisões importantes – e às vezes polêmicas – à frente do governo. Logo no início do primeiro mandato de Lula, foi ele quem assinou uma MP (medida provisória) autorizando o plantio da soja transgênica no Brasil, em setembro de 2003.
Comemorada por empresários do setor agrícola, a decisão foi vista com desconfiança por parte da população e chegou a gerar um protesto do Greenpeace em frente ao Palácio do Planalto. Na época, o próprio Alencar reclamou, em tom bem humorado, de a decisão ter “sobrado” para ele.
- Um pobre coitado de um presidente em exercício, lá de Minas Gerais, tem que assinar essa medida provisória.
Outra resolução importante assinada por Alencar no governo foi a nomeação, em outubro de 2009, de José Dias Toffoli, então advogado-geral da União, como ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), conforme orientação de Lula. A indicação do novo ministro foi tema de
intensa discussão na mídia, já que, a Corte é a instância máxima da Justiça no país.
Em outro momento, Alencar chamou a atenção ao não assinar o decreto, em maio de 2010, que instituía o dia nacional de combate à homofobia. Oficialmente, a Presidência alegou que ele preferia que a lei fosse assinada por Lula, devido à visibilidade do tema.
Foi ele também quem decretou luto oficial de três dias no Brasil, em junho de 2009, após a tragédia do voo 447 da Air France, que caiu no oceano Atlântico quando fazia o trajeto Rio de Janeiro Paris, matando 228 pessoas (sendo 58 brasileiros). Cauteloso, Alencar só confirmou o decreto após ter a confirmação, do Ministério da Defesa, de que os destroços localizados no mar eram do avião.
Alencar morreu nesta terça-feira (29), aos 79 anos, após 13 anos de luta contra um câncer.