Julia Chequer/R7Aos 80 anos, o promotor público aposentado Plínio Arruda Sampaio encara um dos maiores desafios de sua extensa trajetória política. Além de concorrer à Presidência e ter de enfrentar a polarização entre PT e PSDB, ele ainda carrega a responsabilidade de conseguir os votos necessários para consolidar o PSOL como a principal alternativa de esquerda no país.
Não será uma tarefa fácil. Faltando pouco menos de três meses para as eleições de outubro, ele ainda aparece com 1% nas pesquisas de intenção de voto. Há quatro anos, quando o PSOL lançou Heloísa Helena para disputar o Planalto, 6,5 milhões de pessoas optaram pelo partido no primeiro turno. Heloísa terminou em terceiro lugar.
Para dar conta do grande trabalho, há meses que ele percorre o país para se reunir com movimentos sociais, base de seus votos. Nas últimas semanas, com o início da campanha, passou a participar de caminhadas e a distribuir panfletos de sua candidatura para superar a dificuldade de ter pouco tempo de propaganda na TV e no rádio.
Em maio, quando concedeu entrevista ao
R7, ele próprio admitiu que teria poucas chances de se tornar presidente, mas ressaltou que sua candidatura teria outro objetivo.
- A possibilidade de eu ser presidente é pequena, e por isso prefiro falar de como a gente vê esse programa de luta. O nosso programa é um programa de luta para o povo brasileiro.
Como ponto principal deste programa, o candidato elegeu a reforma agrária, que considera o “pilar da desigualdade social” no Brasil. Além disso, propõe tornar os sistemas de saúde e educação 100% públicos, para que ricos e pobres possam ter acesso aos mesmos serviços.
Briga interna
O primeiro obstáculo enfrentado por Plínio para levar sua candidatura às ruas surgiu dentro do próprio partido. Liderada por Heloísa Helena, uma ala do PSOL cogitou fechar uma aliança com o PV de Marina Silva.
A parceria acabou não vingando porque o PV se uniu ao DEM e ao PSDB no Rio de Janeiro para lançar Fernando Gabeira ao governo do Estado. Mas nem isso foi suficiente para que o PSOL chegasse a um consenso. Heloísa Helena passou a apoiar Martiniano Cavalcante para concorrer à Presidência pela sigla, em contraposição a Plínio, que venceu a queda de braço interna e conseguiu a vaga.
Plínio já foi deputado, participou da Constituinte de 1988 e concorreu duas vezes ao governo de São Paulo, em 1990 e 2006. Ele é mestre em desenvolvimento econômico internacional pela Universidade de Cornell (EUA) e foi diretor da FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação).
Sua trajetória política é marcada pela atuação junto à Igreja Católica e pela defesa da reforma agrária. Em seu primeiro mandato como deputado, na década de 60, relatou o programa de reforma agrária do governo do presidente João Goulart.
Após o golpe limitar de 1964, teve seus direitos políticos cassados e foi para o exílio. Nos anos 80, de volta ao Brasil, ajudou a fundar o PT, partido com o qual rompeu em 2005 para ingressar no PSOL.
Hoje, ao analisar o governo Lula, não poupa críticas ao ex-companheiro. Acha que o presidente criou um clima de excessivo otimismo no Brasil e a falsa impressão de que “não existe solução fora do capitalismo”.