Dos 23 jogadores escalados por Dunga para defender a seleção brasileira na África do Sul, só três jogam no Brasil. O número revela um time estrangeiro e "globalizado", com o qual muitos torcedores perderam intimidade, mas traz uma vantagem: enfraquece o uso do esporte como peça de marketing por políticos.
O historiador e jornalista Marcos Guterman, autor do livro O futebol explica o Brasil, explica que esse processo começou na década de 90 e se fortaleceu ao longo dos últimos anos. No entanto, apesar desse enfraquecimento, ele ressalta que o poder de mobilização do esporte não pode ser ignorado.
- O futebol tem o poder de mobilizar as pessoas que o discurso intelectual não tem. [...] [Os políticos] vão continuar usando porque tem essa identificação nacional importante. Vamos pegar um exemplo. O samba, nem todo mundo gosta. No caso do futebol, não, a parcela que não gosta é muito menor do que as outras manifestações. Não podem [os políticos] abrir mão dessa capacidade de mobilização.
Guterman explica que a ideia de usar o futebol como instrumento político nasceu com o líder fascista italiano Benito Mussolini, na década de 20. No Brasil, a tática foi seguida pelo líder populista Getúlio Vargas, na década de 30.
Nos anos 30, uma série de fatores contribuiu para o fenômeno. Junto com a imagem popular de Getúlio, a consolidação do rádio como veículo de massa ajudou na popularização do esporte e, com isso, o Brasil se descobriu como "o país do futebol".
- Futebol e política tiveram um estado de graça naquele período. Depois, só cresceu.
Para Luiz Carlos Ribeiro, professor da Universidade Federal do Paraná, o fato de o Brasil não buscar mais uma "identidade nacional" também contribui para esse processo. Coordenador de um grupo que estuda as relações entre futebol e sociedade, Ribeiro também afirma que a falta de ídolos jogando no país dificulta o uso do futebol como instrumento político.
- A nação brasileira não é mais um tema central da sociedade. E tem outra coisa, a grande maioria dos atletas de ponta perdeu esse vínculo, tanto político quanto com a seleção, ou seja, nós não temos mais aqueles atletas que as pessoas assistem ou veem pela TV o tempo todo. A relação que nós temos com o Kaká, por exemplo, é tão forte quanto qualquer torcedor Europeu. [...] Há 20 anos qualquer torcedor médio era capaz de cantar a seleção brasileira de cor. Hoje, ninguém sabe.
Mesmo com a queda na identificação entre seleção e torcida, hoje em dia o futebol pode ser usado para "vender" uma imagem do país ao exterior. Como exemplo, Guterman cita a simbologia de África do Sul e Brasil sediarem as Copas de 2010 e 2014.
- O fato de o Brasil sediar em 2014 ou a África do Sul agora [em 2010] tem um significado internacional muito forte. É claro que isso acaba trazendo benefícios diplomáticos, políticos, pensando na imagem de um país. Quando o Brasil resolve fazer [a Copa] em 50, para o país aquilo era símbolo do Brasil saindo da fase agrária para a industrial e se firmando como potência.
O historiador vê na Copa de 2014 a confirmação de uma nova fase para o país.
- Sempre tem um significado diferente, principalmente para países que sempre estiveram à margem do concerto internacional. Para Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, talvez não seja tão importante fazer... Para a Coreia do Sul [em 2002] foi absurdo o peso.
Mesmo perdendo força, a relação política-futebol ainda guarda alguns exemplos recentes. Guterman lembrou que, não por acaso, o blog do Planalto escolheu o atacante Robinho para mostrar proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Após a visita de Robinho a Brasília, o
blog publicou um vídeo com depoimento dele dizendo que os jogadores ficaram felizes ao saber que têm o apoio do presidente e recebendo o "boa sorte" da primeira-dama, Marisa Letícia.
- Quem eles escolheram? O Robinho, que é o jogador mais conhecido, mais até que o Kaká. [...] Qual a vantagem de posar ao lado de um jogador desconhecido?