27 de Maio de 2012

No Brasil, matriz hidrelétrica deixa usinas longe dos centros consumidores
A chegada da energia elétrica às casas, empresas e indústrias passa por três etapas: geração, transmissão e distribuição. A geração ocorre na usinas, onde a energia é efetivamente produzida; a transmissão leva a eletricidade dos locais aonde são produzidas para os centros consumidores (são aquelas linhas interligadas por grandes postes que vemos, por exemplo, ao lado de estradas); por fim, a distribuição é feita por empresas como Eletropaulo, Light e Cemig.
No Brasil, pela matriz energética ser praticamente toda baseada na hidreletrecidade, os centros de geração ficam muito longe dos centros consumidores, pois não é possível, obviamente, haver uma grande usina hidrelétrica nos arredores das grandes cidades. Dessa maneira, o sistema de transmissão é bastante complexo. Ainda não há informações oficiais sobre a causa do apagão desta terça-feira, mas a principal hipótese, por enquanto, é que uma pane nas linhas de transmissão em algum lugar entre o norte do Paraná e o sudeste de São Paulo.
Segundo Dorival Júnior, professor de energia e meio ambiente da Universidade Federal do Mato Grosso, uma grande via de linhas de transmissão que parte de Itaipu e vai em direção à região Sudeste transmite mais da metade da eletricidade produzida em Itaipu. Uma falha nessas linhas, portanto, deixaria a região do Brasil que mais consome energia sem sua principal fonte - Itaipu é responsável por 20% da geração de energia no Brasil.
Sem essa fonte, os centros consumidores tentam automaticamente retirar a energia de fontes que continuam ligadas, como usinas menores no Estado de São Paulo. Entretanto, como a demanda é muito grande, essas usinas sobrecarregam e tendem a desligar graças a um sistema de proteção. Dessa maneira, ocorre um efeito de desligamento em cadeia das demais usinas, o que fez com que o apagão atingisse tantos Estados.
Para Claudio Sales, presidente do Instituto Acende Brasil, um centro de estudos sobre o sistema elétrico brasileiro, essa suscetibilidade a falhas em cadeia é uma característica do sistema elétrico brasileiro.
- O sistema interligado de energia brasileiro é um dos maiores do mundo. Temos uma vocação hidrelétrica muito grande e naturalmente somos empurrados a construir grandes linhas de transmissão, pois as usinas não são próximas [dos consumidores].
Sales afirma que o sistema poderia ser de outra maneira, com usinas menores e mais distribuídas pelo território brasileiro, mas que fatores naturais e econômicos induziram à primeira opção. Ele diz, entretanto, que megapanes como a de ontem precisam ser detalhadamente estudadas para que não aconteçam novamente.
- Precisamos saber qual foi essa falha. Os custos de transmissão são altíssimos para o consumidor, pois investimentos maciços são feitos para tornar o sistema mais robusto e seguro. Da conta de luz, apenas 27% ficam com as distribuidoras, que são as empresas para as quais o consumidor paga a conta. Os outros 73% vão para impostos e custear a transmissão. Apesar de tudo isso, essa fatalidade aconteceu. Esse episódio, junto com o apagão de 1.999 mostram que não estamos totalmente protegidos.
Assista aos vídeos do apagão
Apagão é destaque na imprensa internacional
Presidente de Itaipu descarta racionamento de energia
Metrô de São Paulo opera normalmente após apagão
Carioca passa medo nas ruas durante apagão
Vela causa incêndio durante apagão em São Paulo
Quanto à probabilidade de uma megapane ocorrer novamente hoje ou nos próximos dias, Sales afirma que não é possível prever, como não foi possível prever a de ontem.
- Supondo que o defeito de ontem tenha sido reconstruído, a possibilidade de acontecer hoje é a mesma possibilidade que existia ontem. Estamos expostos ao mesmo risco de antes do apagão.
Já quanto à possibilidade de que um sistema alternativo, com usinas termelétricas - que geram eletricidade queimando combustíveis-, por exemplo, pudesse ter impedido o apagão ou feito com que a energia fosse retomada mais rapidamente, Dorival Júnior discorda:
- Para uma termelétrica entrar em operação demora, não é simples assim. Elas não estão em "stand-by" para começarem a fornecer energia imediatamente após uma pane.
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