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Publicado em 18/02/2011 às 15h31

Por que o carro no Brasil é tão caro?
Saiba que a culpa também é sua

Altas margens de lucro, impostos e custos de produção mandam preços para as alturas

patio-chevrolet-g-20110211Divulgação

Automóveis vendidos no Brasil são de 30% a 80% mais caros que os comercializados no exterior


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Lucas Bessel, do R7

O carro que o brasileiro compra é de 30% a 80% mais caro que o veículo vendido para consumidores que vivem em países como Estados Unidos, Argentina ou México. E, embora as montadoras responsabilizem exclusivamente os altos impostos e os elevados custos de produção pelos preços, o real motivo não é assim tão simples.
 
Especialistas ouvidos pelo R7 dizem que o mercado brasileiro ainda é pouco desenvolvido e pouco educado. O consumidor aceita pagar altos valores por veículos geralmente defasados e mal equipados porque, na maioria das vezes, dá atenção apenas ao valor da parcela do financiamento, ignorando o valor total, os juros e os longos prazos.
 
A consequência disso é que, de acordo com estudo do banco britânico Morgan Stanley feito em 2009, a margem de lucro de algumas montadoras é três vezes maior no Brasil do que em mercados similares.
 
A culpa pelos altos preços, portanto, também é sua, minha e do nosso vizinho. Embora os fabricantes brasileiros não divulguem suas margens de lucro e não façam comentários sobre o assunto, é possível ver a questão pelo contexto mundial.
 
O analista alemão Stephan Keese, especialista em mercado automotivo da consultoria Roland Berger, diz que o Brasil ajudou a "salvar" os resultados globais de montadoras que não foram tão bem assim em outros países.
 
- Basicamente, todo o dinheiro que a Fiat ganhou no ano passado foi por causa da operação no Brasil. As montadoras ganham um bom dinheiro no país.
 
A mesma lógica vale para fabricantes como a General Motors, cuja matriz americana precisou ser resgatada pelo governo para não quebrar completamente durante a crise financeira iniciada em 2008.
 
As vendas em países emergentes, onde carros de projetos antigos, que já "se pagaram", ainda são aceitos pelos consumidores, ajudaram a tirar os fabricantes do buraco.
 
Para Mauro Zilbovicius, professor do Departamento de Engenharia de Produção da Poli-USP e coordenador do laboratório de estudos da mobilidade, o mercado é, em grande parte, responsável pelo preço.
 
- No Brasil, estamos acostumados a associar preço a custo, e não se trata disso. Preço é uma questão de mercado. Se o produto vende, é porque tem alguém que está disposto a comprar. Aqui, [o carro] é mais caro porque tem gente disposta a pagar. E o preço mais alto aqui pode compensar uma margem menor [das montadoras] no exterior.

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Honda City fabricado no Brasil custa mais barato no México que no mercado nacional / Divulgação 

Brasil x México x Argentina
 
O mercado nacional de automóveis é o quarto maior do mundo, atrás de China, Estados Unidos e Japão. Em 2010, mais de 3,3 milhões de carros e veículos comerciais leves foram vendidos, número 10,5% superior na comparação com 2009. O Brasil também exporta para países como México e, com base nos preços praticados lá, podemos ter uma ideia melhor de como são altos os valores por aqui.
 
Exemplo 1: o Honda City fabricado no Brasil e exportado para o México custa, por lá, o equivalente a R$ 29.379. Ainda que aplicássemos sobre o preço final a carga tributária máxima para veículos vendidos aqui (36,4% - que, na realidade, vale para veículos de cilindrada maior), o valor por lá ficaria em R$ 40 mil - são R$ 15 mil a menos do que o preço do City de entrada no Brasil.
 
Exemplo 2: o Volkswagen Gol 1.6 feito em São Bernardo do Campo (SP) custa R$ 17.863 para os mexicanos. Mais uma vez, se aplicássemos a carga tributária máxima para veículos vendidos aqui, o valor por lá ficaria em R$ 24.365. São praticamente R$ 9 mil a menos do que o preço brasileiro.
 
No caso de veículos importados da Argentina - como Ford Focus e Chevrolet Agile (veja tabela abaixo) - os valores praticados aqui também são consideravelmente mais altos, sem mencionar o fato de que muitos desses veículos são vendidos lá fora com mais equipamentos em sua versão básica do que aqui no Brasil.

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O aço usado no Brasil é até 40% mais caro do que em outros países, segundo a Anfavea / Divulgação 

Produção e impostos contribuem para o preço
 
Então toda a culpa pelos preços altos é das montadoras, que têm margens maiores, e dos consumidores, que aceitam pagar qualquer valor por um carro? Não exatamente. Embora os fabricantes tentem "fugir da responsabilidade", o argumento de que os custos de produção e logística no Brasil são maiores é válido.
 
Para o consultor Keese, esse é um dos fatores que prejudicam a competitividade do Brasil.
 
- Além dos custos de materiais, o custo humano [salários, benefícios e outros encargos trabalhistas] é relativamente alto no Brasil, se considerarmos o nível de qualificação da mão de obra.
 
O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Cledorvino Belini, afirma que a entidade prepara um amplo estudo, feito por uma consultoria internacional, que vai avaliar a competitividade do Brasil em toda a cadeia produtiva - para identificar onde o país pode aplicar medidas que desonerem a fabricação de veículos.
 
- Precisamos trabalhar para melhorar a competitividade no Brasil. Para se ter uma ideia, o aço que usamos aqui é até 40% mais caro do que em outros países.
 
Quanto aos impostos, na comparação com os mercados desenvolvidos, a tributação brasileira é consideravelmente mais alta. Nos EUA, as taxas representam 6,1% do preço final, cifra que sobe para 9% no Japão e 16% na Alemanha. Basta fazer as contas, no entanto, para notar que os impostos não são os únicos responsáveis pela diferença de preços.

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Hyundai aproveitou o mercado favorável e emplacou o hatch i30 na liderança do segmento / Divulgação
 
Preços favorecem importação
 
Uma das consequências dos altos preços de carros no Brasil, aliados a taxas de câmbio favoráveis, é que o mercado fica extremamente favorável aos importados, como comprovam os números de vendas de janeiro.
 
No mês passado, os automóveis vindos de fora representaram 23,5% do total de vendas no país. Seis anos atrás, eles representavam apenas 5%.
 
De acordo com o professor Zilbovicius, diante de preços tão altos, as marcas de fora encontram um bom cenário para "comprar mercado", como é o caso das sul-coreanas Hyundai e Kia e, posteriormente, das chinesas que começam a pipocar por aqui.
 
- São montadoras com boa escala de produção lá fora e que chegam aqui para comprar mercado. Em vez de montar uma fábrica no Brasil, eles preferem investir em mídia e preço menor. Primeiro, abrem mão de margem de lucro para depois, no futuro, investir em fábrica.
 
Como os números mostram, a tática tem funcionado. O consumidor vê as vantagens de comprar um veículo que, mesmo pagando os tributos "normais" e as taxas de importação, chega aqui a preços competitivos na comparação com as outras opções disponíveis nas concessionárias.

 

Carros: Brasil x México x Argentina

Honda City
Honda City
Brazil R$ 55.240
México R$ 29.379 (212 mil pesos mexicanos)
VW Gol 1.6
VW Gol
Brazil R$ 33.230
México R$ 17.863 (128,9 mil pesos mexicanos)
Ford Focus Hatch 1.6
Ford Focus
Brazil R$ 53.710
Argentina R$ 34.906 (83,9 mil pesos argentinos)
Chevrolet Agile
Chevrolet Agile
Brazil R$ 36.116
Argentina R$ 24.101 (57,9 mil pesos argentinos)