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publicado em 17/03/2010 às 15h57:

Imagem negativa de polícia atrapalha
relacionamento entre favelas e UPPs

Medidas impopulares afastam moradores, enquanto policiais tentam aproximação

Carolina Farias, do R7, no Rio

A chegada das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) a comunidades pobres do Rio de Janeiro ocupadas há décadas por traficantes e, mais recentemente, por milícias mira a redução da criminalidade nas favelas por meio da aproximação dos policiais com a população. Mas essa tentativa ainda esbarra na resistência de moradores em relação à polícia, consequência de ações policiais truculentas, anteriores à implantação do modelo de policiamento pacificador.

Líderes comunitários elogiam os postos, no entanto, medidas impopulares, como a proibição de bailes funk, e armamento ostensivo - policiais com fuzis em punho - recebem críticas. A reportagem do R7 ouviu moradores que, além de mais segurança, pedem escolas, postos de saúde, trabalho e, principalmente, respeito aos seus direitos.

A primeira UPP - ao todo seis comunidades cariocas já adotaram o modelo - foi criada no morro Santa Marta, em Botafogo, na zona sul do Rio, em dezembro de 2008. Com 8.000 moradores, a comunidade sofria com a ação de traficantes e, por consequência, com as operações policiais. Dez anos antes, um batalhão da Polícia Militar foi instalado na área, mas ainda assim a comunidade não estava longe da ação de criminosos.

Apesar de ser a UPP mais antiga, o relacionamento da polícia com a comunidade ainda é de “50%”, conforme define o presidente da Associação dos Moradores do Morro de Santa Marta, José Mário Hilário dos Santos, de 49 anos, todos vividos na comunidade.

- Ainda há divergências, como a proibição dos bailes funk. O respeito é mútuo, mas tem policiais que são truculentos. Sabemos que não é regra, que é a exceção. Mas só a polícia não dá jeito na comunidade. Precisamos de turismo, esporte, obras, trabalho para haver transformação social. Não está 100%, mas está caminhando.

Para Santos, com as UPPs, o Estado do Rio tenta “recuperar o tempo perdido”, mas, segundo pondera, essa mudança "não vai ser de uma hora para outra". Com 70 anos de existência, o Santa Marta tem índice de analfabetismo quase zero, segundo o presidente da associação, e todos os jovens da comunidade frequentam a escola - há quatro na comunidade com ensino fundamental e médio.

A comandante da UPP do Santa Marta, Priscilla de Oliveira Azevedo, diz que a visão que o povo tinha da polícia está mudando a partir da instalação do posto pacificador. Para se manter presente e conhecer a rotina do morro, ela adotou a seguinte estratégia: estar realmente presente na comunidade. Em vez de ficar em sua sala, na sede da UPP, no alto do morro, Priscilla prefere fazer rondas e, assim, passa a conhecer melhor os moradores.

Cidade de Deus

Dois meses depois do Santa Marta, uma UPP foi implantada em Cidade de Deus, ou CDD, como a comunidade da zona oeste da capital é chamada. Com 40 mil habitantes - números de associações comunitárias apontam 70 mil -, a CDD se sente melhor com a presença da PM, mas moradores dizem que somente a intervenção policial não é suficiente para mudar a realidade da comunidade.

Aluísio Gomes da Silva, de 48 anos, é membro do Comitê Comunitário e Agência CDD de Desenvolvimento Local e presidente da escola de samba Mocidade Unida de Jacarepaguá, foi um dos fundadores da comunidade e conhece bem as necessidades do lugar.

- A população não precisa de polícia, precisa ter seus direitos garantidos. A comunidade ficou mais de 40 anos abandonada e, agora, querem que ela mude de uma hora para outra.

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Policial de UPP na Cidade de Deus brinca com crianças da comunidade (Foto: Ricardo França/Secretaria de Segurança)

Para Silva, a Cidade de Deus precisa de escolas com ensino médio. Das 13 unidades que a comunidade tem, somente uma delas possui uma turma à noite, para quem já cursou o ensino fundamental. Segundo ele, o índice de evasão escolar na comunidade é alto e a qualidade do ensino nas unidades é péssima. A renda média na CDD também é baixa: dois salários mínimos para famílias com oito pessoas, segundo informa.

O líder comunitário diz que, apesar de os moradores da CDD “se sentirem no céu” com a UPP, a comunidade não foi consultada sobre a instalação do posto. Ele avalia que "abusos [de policiais] foram denunciados e resolvidos" e defende mais investimentos sociais.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança informou que acredita que a resistência no relacionamento da população com a polícia nas comunidades aconteça mais devido ao grande tempo que esses moradores viveram submetidos ao poder do tráfico do que por medo das ações policiais.

A nota diz que a secretaria espera que a imagem equivocada devido a ações truculentas da polícia seja modificada com a convivência com o novo modelo de policiamento. Os policiais que estão nas UPPs são, em sua maioria, recém-formados e tiveram aulas de direitos humanos, entre outras disciplinas voltadas para o relacionamento com a população, acrescenta a secretaria.

Fuzis em punho

A UPP chegou nas comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, que ocupam morros de Copacabana e Ipanema, áreas nobres da zona sul carioca, em dezembro do ano passado. Até então, as comunidades viviam a rotina de operações policiais e caça a traficantes. A chegada da unidade pacificadora trouxe dúvida, mas também alívio.

O presidente da Associação dos Moradores do Pavão-Pavãozinho, Cléudio Araújo Lima, diz que, para a população, o alívio maior é de não ter mais o barulho dos helicópteros sobre a favela, que, antes da implantação da UPP, era quase diário.

- Toda operação da polícia tinha helicóptero voando por aqui e atirando lá de cima, furando nossas lajes.

O convívio entre policiais e os habitantes do Pavão-Pavãozinho ainda não é totalmente pacífico. Segundo Lima, ainda há o “pé atrás” dos moradores, que, no período "pré-UPP", tinham as casas invadidas por policiais durante ações de combate ao tráfico.

Lima afirma que o comandante da UPP, capitão Leonardo Nogueira, demonstra interesse pelos problemas da comunidade e sempre vai à associação. Mas a população se incomoda com o policiamento com armas - como fuzis - em punho.

- Se é um morador, por que o policial passa apontando armas. Se não tem mais bandido no morro, por que eles ainda agem assim? Têm medo de morador?

A Secretaria de Segurança Pública do Estado informou que ainda não é possível tirar os fuzis do policiamento nas comunidades, mas que isso está em estudo.

A falta de políticas públicas para a população também faz parte das reclamações dos moradores. Só há uma escola para atender a população das duas comunidades, de 35 mil habitantes. A única quadra de esportes terá de ser destruída para a abertura de uma rua.

Na ladeira dos Tabajaras e no morro dos Cabritos, em Copacabana, a UPP chegou há somente dois meses. O convívio entre moradores e policiais é bom, segundo o presidente da associação de moradores, Reinaldo Luís. O único receio é de a unidade ser somente um projeto de governo e que não tenha continuidade em outra gestão.

- Aqui já vi policial sentado com o fuzil nas mãos. Isso é sinal de tranquilidade. Temos esperança que a violência diminua.

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