Marcos D'Paula/Agência EstadoRelação de população com UPPs, nas comunidades do Rio de Janeiro, ainda tem conflitos, mas caminha para entendimentos
Medidas impopulares afastam moradores, enquanto policiais tentam aproximação
Líderes comunitários elogiam os postos, no entanto, medidas impopulares, como a proibição de bailes funk, e armamento ostensivo - policiais com fuzis em punho - recebem críticas. A reportagem do R7 ouviu moradores que, além de mais segurança, pedem escolas, postos de saúde, trabalho e, principalmente, respeito aos seus direitos.
A primeira UPP - ao todo seis comunidades cariocas já adotaram o modelo - foi criada no morro Santa Marta, em Botafogo, na zona sul do Rio, em dezembro de 2008. Com 8.000 moradores, a comunidade sofria com a ação de traficantes e, por consequência, com as operações policiais. Dez anos antes, um batalhão da Polícia Militar foi instalado na área, mas ainda assim a comunidade não estava longe da ação de criminosos.
Apesar de ser a UPP mais antiga, o relacionamento da polícia com a comunidade ainda é de “50%”, conforme define o presidente da Associação dos Moradores do Morro de Santa Marta, José Mário Hilário dos Santos, de 49 anos, todos vividos na comunidade.
- Ainda há divergências, como a proibição dos bailes funk. O respeito é mútuo, mas tem policiais que são truculentos. Sabemos que não é regra, que é a exceção. Mas só a polícia não dá jeito na comunidade. Precisamos de turismo, esporte, obras, trabalho para haver transformação social. Não está 100%, mas está caminhando.
A comandante da UPP do Santa Marta, Priscilla de Oliveira Azevedo, diz que a visão que o povo tinha da polícia está mudando a partir da instalação do posto pacificador. Para se manter presente e conhecer a rotina do morro, ela adotou a seguinte estratégia: estar realmente presente na comunidade. Em vez de ficar em sua sala, na sede da UPP, no alto do morro, Priscilla prefere fazer rondas e, assim, passa a conhecer melhor os moradores.
Cidade de Deus
Dois meses depois do Santa Marta, uma UPP foi implantada em Cidade de Deus, ou CDD, como a comunidade da zona oeste da capital é chamada. Com 40 mil habitantes - números de associações comunitárias apontam 70 mil -, a CDD se sente melhor com a presença da PM, mas moradores dizem que somente a intervenção policial não é suficiente para mudar a realidade da comunidade.
Aluísio Gomes da Silva, de 48 anos, é membro do Comitê Comunitário e Agência CDD de Desenvolvimento Local e presidente da escola de samba Mocidade Unida de Jacarepaguá, foi um dos fundadores da comunidade e conhece bem as necessidades do lugar.
- A população não precisa de polícia, precisa ter seus direitos garantidos. A comunidade ficou mais de 40 anos abandonada e, agora, querem que ela mude de uma hora para outra.

Policial de UPP na Cidade de Deus brinca com crianças da comunidade (Foto: Ricardo França/Secretaria de Segurança)
Para Silva, a Cidade de Deus precisa de escolas com ensino médio. Das 13 unidades que a comunidade tem, somente uma delas possui uma turma à noite, para quem já cursou o ensino fundamental. Segundo ele, o índice de evasão escolar na comunidade é alto e a qualidade do ensino nas unidades é péssima. A renda média na CDD também é baixa: dois salários mínimos para famílias com oito pessoas, segundo informa.
O líder comunitário diz que, apesar de os moradores da CDD “se sentirem no céu” com a UPP, a comunidade não foi consultada sobre a instalação do posto. Ele avalia que "abusos [de policiais] foram denunciados e resolvidos" e defende mais investimentos sociais.
Por meio de nota, a Secretaria de Segurança informou que acredita que a resistência no relacionamento da população com a polícia nas comunidades aconteça mais devido ao grande tempo que esses moradores viveram submetidos ao poder do tráfico do que por medo das ações policiais.
A nota diz que a secretaria espera que a imagem equivocada devido a ações truculentas da polícia seja modificada com a convivência com o novo modelo de policiamento. Os policiais que estão nas UPPs são, em sua maioria, recém-formados e tiveram aulas de direitos humanos, entre outras disciplinas voltadas para o relacionamento com a população, acrescenta a secretaria.
Fuzis em punho
A UPP chegou nas comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, que ocupam morros de Copacabana e Ipanema, áreas nobres da zona sul carioca, em dezembro do ano passado. Até então, as comunidades viviam a rotina de operações policiais e caça a traficantes. A chegada da unidade pacificadora trouxe dúvida, mas também alívio.
O presidente da Associação dos Moradores do Pavão-Pavãozinho, Cléudio Araújo Lima, diz que, para a população, o alívio maior é de não ter mais o barulho dos helicópteros sobre a favela, que, antes da implantação da UPP, era quase diário.
- Toda operação da polícia tinha helicóptero voando por aqui e atirando lá de cima, furando nossas lajes.
O convívio entre policiais e os habitantes do Pavão-Pavãozinho ainda não é totalmente pacífico. Segundo Lima, ainda há o “pé atrás” dos moradores, que, no período "pré-UPP", tinham as casas invadidas por policiais durante ações de combate ao tráfico.
Lima afirma que o comandante da UPP, capitão Leonardo Nogueira, demonstra interesse pelos problemas da comunidade e sempre vai à associação. Mas a população se incomoda com o policiamento com armas - como fuzis - em punho.
- Se é um morador, por que o policial passa apontando armas. Se não tem mais bandido no morro, por que eles ainda agem assim? Têm medo de morador?
A Secretaria de Segurança Pública do Estado informou que ainda não é possível tirar os fuzis do policiamento nas comunidades, mas que isso está em estudo.
A falta de políticas públicas para a população também faz parte das reclamações dos moradores. Só há uma escola para atender a população das duas comunidades, de 35 mil habitantes. A única quadra de esportes terá de ser destruída para a abertura de uma rua.
Na ladeira dos Tabajaras e no morro dos Cabritos, em Copacabana, a UPP chegou há somente dois meses. O convívio entre moradores e policiais é bom, segundo o presidente da associação de moradores, Reinaldo Luís. O único receio é de a unidade ser somente um projeto de governo e que não tenha continuidade em outra gestão.
- Aqui já vi policial sentado com o fuzil nas mãos. Isso é sinal de tranquilidade. Temos esperança que a violência diminua.