Foto por Carolina Farias/R7Comandantes assumiram a frente das UPPs do morro Dona Marta e da ladeira dos Tabajaras
Para se manter presente e conhecer a rotina do morro, ela “está em todas”. Nunca fica em sua sala, na sede da UPP, no alto do morro. Sempre está fazendo rondas e, a partir disso, passa a conhecer os moradores. No início do trabalho, dormiu muitas noites em um batalhão que fica no meio da comunidade para saber como é o morro à noite.
O mais difícil para a capitão é mostrar aos moradores que a favela é um lugar deles, onde podem exercer seus direitos, sem temer a violência.
- Nosso objetivo maior aqui era retomar o terreno, tirar da facção. O cidadão tem de ter vida normal. Sair na hora que quiser, entrar na hora que quiser. Ficar no portão de casa se quiser. Temos de mostrar assim: 'Olha, a comunidade é de vocês. A gente está aqui como força policial para garantir isso, mas a gente tem de trabalhar junto'.
Com tanto trabalho na UPP, não sobra muito tempo livre. O namoro, quase acabou e, só agora, mais de um ano depois, ela conseguiu marcar uma consulta médica. O curso de direito, no último ano, foi trancado e as aulas de inglês, abandonadas.
Ensinar a pescar
Rosana está há pouco mais de um mês à frente do comando da UPP da ladeira dos Tabajaras/morro dos Cabritos. É nova no projeto, mas fala com propriedade sobre o trabalho. Ela foi chamada para assumir o posto após fazer pós-graduação em segurança e cidadania. Seu desafio é um pouco maior que o de Priscilla. Nas duas comunidades, moram 20 mil pessoas e ela comanda 142 policiais militares. Ainda não há uma sede para a UPP, que está abrigada em dois contêineres no meio da comunidade Tabajaras.
Apesar da euforia com o novo posto, Rosana diz que temeu resistência por parte dos moradores pelo fato de ser mulher. O medo foi em vão - ela também não enfrentou preconceito.
- Uma amiga me disse para eu abrir meu sorriso largo. Agora foi a comunidade que me conquistou.

(Foto: Carolina Farias/R7)
Para entender as comunidades, além de rodar pelas vielas e falar com seus habitantes, Rosana estudou todo o passado da Tabajaras e do morro dos Cabritos. A capitão quer aplicar o conhecimento adquirido no curso de pós-graduação, principalmente, noções de cidadania, para que os moradores das duas comunidades saibam fazer valer seus direitos.
- Em vez de trazer soluções, eu ouço e acolho para que eles caminhem por eles mesmos. Porque isso [recuperação da cidadania] não pode ficar atrelado à minha pessoa (...) Ao invés de eu estar trazendo o peixe, eles vão saber pescar.
Um exemplo de que o trabalho já dá resultado são as denúncias de violência doméstica que Rosana recebe das próprias vítimas. Segundo ela, antes as mulheres temiam denunciar maridos e companheiros, porque eles diziam que eram aliados a traficantes. Agora, as mulheres tomam coragem e procuram a comandante.
- Quero marcar uma reunião com essas mulheres e uma juíza que vai explicar o que elas têm de fazer.
Vida do avesso
Rosana também viu sua vida mudar bastante após o início do trabalho na UPP. Apesar do dia adia corrido, não abre mão de se cuidar. Quando não há tempo de ir à manicure, ela mesma faz as unhas. No rosto, uma base com protetor solar mantém a pele protegida e bonita. No lugar do batom, carrega um gloss na bolsa e não sai sem brincos - tem três furos em cada orelha. Quando chegou para a entrevista, a capitão exalava o cheiro de um hidratante da marca Victoria's Secret.
- É importante para não perder a ternura.
Para combater o estresse, Rosana corre e surfa na praia da Barra, na zona oeste do Rio.
- Ninguém merece uma policial de TPM [tensão pré-menstrual]. Correr é bom para organizar as ideias. É um momento só seu.
(Foto:Carolina Farias/R7)
