Distrito Federal

22 de Dezembro de 2014

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Detento aposta na leitura como forma de melhorar de vida quando sair da cadeia

De acordo com pesquisa, 70% dos detentos da Papuda se tornaram leitores assíduos dentro da prisão

Gustavo Frasão, do R7 | 24/03/2013 às 01h50

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Condenado a 28 anos de prisão, o detento Carlos Anderson Rodrigues de Aguiar, de 26 anos, começou a ler dentro da cadeia da Papuda, no Distrito Federal. Ele integra o grupo de 70% de detentos do local que, de acordo com pesquisa, começou a ler após entrar no na cadeia. Ele acredita que os livros irão ajudá-lo a ter uma vida melhor quando sair do sistema prisional.

— Leitura só acrescenta. Deixa a nossa mente mais aberta e mudar tudo. Quero usar isso em meu benefício para procurar boas oportunidades lá fora. Aqui dentro tenho tempo de sobra para pensar, planejar e crescer em todos os sentidos da vida. E esse projeto [de incentivo à leitura na cadeia] está incentivando não somente a mim, mas a todos que aceitam participar. Quando se lê a cabeça funciona e não deixa pensamentos negativos entrarem. É uma chance que temos de sair e não voltar para o mundo do crime.

Aguiar está preso desde 2011 por quatro assaltos a mão armada. Em sete dias o rapaz cometeu todos os crimes e em uma das ocasiões chegou a fazer um roubo com restrição de liberdade, crime conhecido popularmente como sequestro-relâmpago.

Ele contou que foi preso no último assalto e que a motivação era não apenas a dificuldade financeira, mas também o envolvimento com drogas e más companhias.

— Foi a maior burrada que fiz na minha vida. Moro sozinho, minha família é do Ceará e passava muitas dificuldades. Sei que entrei no mundo do crime não somente por conta disso, mas por diversos outros fatores. Agora estou pagando pelo o que fiz, mas quero sair daqui melhor para nunca mais voltar.

Somando todas as penas, o rapaz foi condenado a 28 anos de prisão. No entanto, ele se esforça para ser exemplo de bom comportamento e participa do projeto de leitura para aprender e "abrir a mente".

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Por conta disso, recebeu a oportunidade de trabalhar na biblioteca da cadeia e teve a ideia de deixar todos os livros organizados por título, índices e assuntos, com a intenção de facilitar a procura das obras quando forem solicitadas.

O jovem, que gosta de romance, disse que prefere ler livros de Jorge Amado e William Shakespeare. Neste momento, está lendo "Os dois cavaleiros de Verona", de Shakespeare, e está gostando da história.

— Leio pelo menos um livro por semana. Quando a história é muito boa, termino em dois ou três dias, mas nunca passo de sete dias. Faço isso para ocupar o tempo e porque vi que mudou muita coisa na minha vida. É um hábito saudável que todos deveriam ter.

Reflexos desse hábito na vida dos presos

Para o Profº Dr. Robson Coelho Tinoco, orientador de dissertação de mestrado na UnB que detectou que 70% dos presos da Papuda se tornam leitores assíduos, os reflexos do hábito de ler são inúmeros. Ele explicou que por meio da leitura os presos podem ser ressoscializados com uma visão diferente e mais ampla do mundo e deles mesmos, melhorando de forma significativa o próprio comportamento e forma de encarar a vida.

— São reflexos que a leitura causa em qualquer pessoa. Aumenta o vocabulário, o poder de se expressar, de conversar, de ter ideias, pensar e produzir. Aumenta conhecimento, muda a forma de ver e encarar as coisas do mundo, da vida e, sem dúvida, abre portas e oportunidades de crescimento em todas as áreas, pessoal, profissional e pessoal.

Essa tese foi confirmada pela pesquisadora, que acompanhou durante quatro anos um jovem de 22 anos que cumpriu pena em regime fechado por tráfico de drogas. Ela relatou que o rapaz entrou no sistema "completamente ambientado com a massa", ou seja, envolvido com o mundo do crime, e começou a adquirir o hábito de ler aos poucos.

Quando conquistou progressão de pena, ou seja, foi liberado para regime semi-aberto e em seguida para o aberto, parecia ser "literalmente outra pessoa".

— O vocabulário dele foi ampliado, a visão de mundo, tudo diferente. Ele passou a se perceber em uma outra realidade, como uma pessoa ainda capaz de produzir. Deixou de lado a ideia de que ele era uma pessoa marginalizada, que era somente mais um preso e que ali dentro ele era um traficante. Quando ele passou a ler, começou a ter mais consciência dele no espaço em si e do espaço dele no mundo. Ele viu que tem condição sim de produzir e buscar um rumo diferente e melhor para a própria vida.

Ela explicou que com o tempo a maneira de falar dele passou a ser outra e ele deixou de ser ambientalizado com a massa. Aos poucos, começou a conversar e debater sobre diversos assuntos e temas com outras pessoas que estavam ali e permitiam isso. Esse comportamento diferenciado de querer mudar e buscar melhorar começou a ser observado pelos próprios agentes e ele recebeu oportunidade de trabalhar junto à FAP (Fundação de Amparo ao Preso).

— Antes de sair ele tinha concluído o segundo grau e estava prestes a fazer prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). É uma melhora "extra-muros", percebida por todos. Essa postura pode melhorar até o futuro da família, porque os filhos e parentes terão outra visão e orientação da pessoa que está presa. A leitura abre portas e abre caminhos.

 
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