Distrito Federal

26 de Novembro de 2014

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Ex-presidiário do Distrito Federal monta cooperativa e arrecada R$ 100 mil por mês

Pelo menos 80 pessoas, entre presidiários e ex-presidiários, estão fichados no local

Gustavo Frasão, do R7 | 25/12/2012 às 01h12
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Condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por diversos crimes, entre eles um homicídio, foi na cadeia que Fernando Figueiredo decidiu mudar de vida. Lá dentro, ele prometeu para si mesmo que quando conquistasse novamente a liberdade não iria atrás do dinheiro fácil do crime porque não queria voltar a ficar atrás das grades nunca mais. Para isso, começou a montar um projeto diferente, junto com outros colegas de cadeia que também pensavam da mesma forma, em busca de uma saída digna para pessoas que não têm oportunidade na sociedade.

Foi assim que nasceu a Cooperativa Sonho da Liberdade. Criada há cinco anos, o projeto que começou com duas ou três pessoas, conta atualmente com 80 funcionários, todos fichados, e rende mais de R$ 100 mil por mês. No local, apenas presidiários, ex-presidiários e pessoas que enfrentam graves problemas sociais são aceitas, justamente porque não têm oportunidades ou espaço no mercado de trabalho.

A empresa tem CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) e funciona em dois turnos, das 7h às 22h, de segunda a sábado, em uma área da Estrutural, região administrativa do DF, onde Figueiredo costumava maquinar crimes com comparsas antes de ser preso.

Ele relata que era fácil fugir da polícia porque a região fica em uma área isolada, nos fundos da cidade, e não era "difícil escapar entrando pelo mato". No entanto, foi em uma dessas situações que a polícia fechou o cerco e ele foi detido.

— Fui condenado a 19 anos e quatro meses de prisão por roubo de carro, assalto a mão armada, homicídio, tentativa de homicídio, tráfico de drogas e várias outras coisas. Eu era uma pessoa totalmente errada e gostava de ganhar dinheiro fácil, mas quando cheguei naquele lugar (presídio) comecei a aprender a viver de verdade. Ali não é lugar para ninguém ficar, é um verdadeiro inferno. Por isso determinei pra mim mesmo que se eu saísse, nunca mais voltaria. Queria sair e ter uma outra vida, uma vida digna e honesta.

Por conta do bom comportamento dentro da cadeia, ele cumpriu somente três anos em regime totalmente fechado. Em seguida, ganhou o direito ao regime semi-aberto, onde poderia passar o dia fora e voltar somente para dormir, e pouco depois ao regime aberto, quando teria direito à liberdade novamente desde que comparecesse à Justiça uma vez a cada dois meses para prestar contas.

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Animado com a vitória e com a própria história de superação, Figueiredo diz que conseguiu pagar a dívida com a sociedade e que, dos 19 anos de condenação, cumpriu somente seis. O indulto pleno, ou seja, a liberdade definitiva, lhe foi concedida em julho deste ano. Agora, a expectativa do fundador da cooperativa é ampliar as atividades do negócio, que recicla restos de madeira da construção civil, para fabricação de móveis planejados e bolas oficiais para as Copas do Mundo e das Confederações.

— Nosso maior fornecedor é o Estádio Nacional de Brasília. Algumas grandes construções civis do GDF (Governo do Distrito Federal) também. Eles nos enviam o resto de madeira, que para eles não servem mais para nada, trazem para cá de graça e nós reciclamos, transformamos em combustível para máquinas de fábricas de tijolos ou usamos para fazer móveis planejados e levantar os "departamentos" da empresa.

Como surgiu a ideia

A ideia de montar a cooperativa surgiu ainda nos primeiros dias de prisão. Figueiredo ouvia funcionários e demais colegas de cela dizerem que quem entrava lá sairia pior. Por ter vivido toda essa fase durante anos, a determinação em querer esquecer o passado e mudar a história era muito grande e os primeiros planos para uma saída diferenciada começaram a ser traçados. Para ele, a questão da sobrevivência depois que saísse da prisão era prioridade, porque sentia que sua "dignidade não tinha preço".

Para adquirir experiência e aprender a "dar valor na vida", Figueiredo agarrou todas as oportunidades que surgiam. Inicialmente, começou trabalhando na administração da Candangolândia, região administrativa do DF, pela Funap (Fundação de Amparo ao Preso). Durante alguns anos, prestou serviços à comunidade, pintou meio-fio, podou grama, plantou árvores e fez todos os serviços "braçais e pesados" necessários. Ele relata que, a partir desse momento, começou a ver a vida "com outros olhos".

— Me ajudou muito, muito mesmo. Foi uma grande oportunidade. Eu não tinha mais satisfação de pensar que ia ganhar dinheiro fácil, assaltando ou vendendo alguma droga. Ali eu comecei a ver que, se eu quisesse mesmo, poderia mudar a minha vida, conquistando minhas coisas com dignidade e honestidade. Eu vi ali que o mundo do crime me deu muito, mas não me deu nada ao mesmo tempo.

Quando entrou em regime semi-aberto, Figueiredo começou a colocar em prática o que tinha planejado na cadeia. Ele passou meses saindo às ruas, recolhendo restos de materiais, e montou uma fábrica de bolas "manual". Pouco a pouco, o negócio foi crescendo e ele foi precisando de mais braços. Inicialmente, ele preferia dar as oportunidades para pessoas com quem ele convivia no presídio, porque sabia do preconceito e dificuldades que precisariam enfrentar.

— As portas são fechadas na cara. Nada melhor do que uma pessoa que passou pelo sistema, que sentiu na pele a dor de ser um preso, que sofreu todas as desigualdades e descriminações ajudar quem precisa. Aqui, gosto de dar oportunidades para quem não tem. São presidiários, ex-presidiários, prostitutas, viciados em drogas ou álcool, moradores de ruas, pessoas que não têm dignidade, às vezes nem nome ou parentes. É uma chance para quem realmente quer mudar de vida, porque o mundo aqui fora não é fácil. Nós procuramos valorizar todos aqui, pagando salários um pouco acima da média e dando oportunidades de crescimento pessoal.

Ele afirma que essa necessidade (de ajudar a quem não tem oportunidades) ficou mais evidente depois que percebeu que o estado "gasta muito para manter uma pessoa presa, mas não investe nenhum centavo para deixá-la livre". Figueiredo diz que tem orgulho da própria história e a usa para motivar outras pessoas que estão ou estiveram em situações parecidas a superar os obstáculos.

Sem muita burocracia e com muita vontade de mudar a história, os 80 cooperados que lutam pela sobrevivência, sejam eles presidiários, ex-presidiários ou pessoas com problemas sociais, reaproveitam a madeira, alimentam sonhos e ajudam a recuperar vidas.

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