Com R$ 381,2 bilhões para gastar no ano, só atrás da cifra da classe C, que deve torrar R$ 427,6 bilhões até dezembro, as famílias brasileiras com renda entre R$ 768 e R$ 1.114 deixaram de ser personagens secundários no universo do consumo.
Maior que o montante disponível para compras na classe A (R$ 216,1 bilhões) e na classe B (R$ 329,5 bilhões), a grana da classe D, formada por 64 milhões de pessoas, passou a ser cobiçada por empresas de segmentos diversos, de companhias aéreas a colégios, de planos de saúde a fabricantes de PCs.
Empresários que não flertam com a base da pirâmide social devem rever seus conceitos, alertam especialistas. Os emergentes, apostam, irão liderar o desenvolvimento dos negócios e da economia brasileira no futuro bem próximo.
- A classe D já é a segunda do país em massa de renda. E assumiu a liderança na intenção de compras de bens como carros, geladeiras, desktops, entre outros - afirma Renato Meirelles, sócio-diretor da Data Popular, instituto de pesquisa pioneiro no estudo do mercado de baixa renda no Brasil.
Segundo ele, em 2010, esta parcela da população será responsável por 33% das aquisições de computadores, 24% das compras de automóveis, 40% das geladeiras, mesma porcentagem de motos e quase 17% das viagens de avião.
- Além disso, 25% do total de novos alunos em escola particular pertencem a esta classe social.
Fenômeno
O fenômeno popular, conforme aponta, é resultado de uma transformação no país. Com mais emprego, renda - só o aumento do salário mínimo colocou R$ 27 bilhões a mais no bolso das famílias da classe D -, acesso ao crédito e a prazos esticados de financiamento, nos últimos três anos, quase 20 milhões de brasileiros deixaram a linha da pobreza e passaram a integrar a camada emergente.
- Tudo isso fez com que esta classe, de maior mobilidade do país e principal impactada pelos projetos de distribuição de renda, conquistasse um enorme poder de consumo.
Fatores e cifras combinados, não é exagero dizer que a classe da quarta letra do alfabeto seja a nova "galinha dos ovos de ouro".
- Quem pensa em investir em novos serviços voltados para a classe B está errado. O consumidor com mais poder aquisitivo é complicado, pois quer produto de classe A com preço de classe D. O novo foco deve ser a baixa renda - comenta a consultora Patrícia Santos, graduada em Marketing pela ESPM e pós-graduada em Administração pela FGV (Fundação Getúlio Vargas).
Segundo ela, famílias com renda de até R$ 1.114 formam um público consumista, que não hesita na hora de comprar um produto mais caro e de qualidade, já que pode quitá-lo em "suaves" prestações.
- Até há pouco tempo, esta turma não tinha poder de compra ou acesso a financiamentos. Cartão de crédito, por exemplo, era coisa para rico. Hoje, está em todas as bolsas. Então, no momento de levar uma TV nova para a estante, este consumidor não acha R$ 1.800 um preço exorbitante, uma vez que pode pagar dez parcelas de R$ 180, uma quantia que não compromete o orçamento.
E o calote entre estes clientes é baixíssimo, afirma a consultora.
- Pobre pode até atrasar o pagamento. Mas nunca dá o cano, até porque só tem o nome a zelar - acrescenta Geraldo Batista, 36, que cuida do transporte escolar de crianças do Morro do Papagaio, na Região centro-sul de Belo Horizonte.
- Só carrego gente que vive na comunidade.
Melhora de vida
Morador do aglomerado, Geraldo, que já catou papel e latinhas de alumínio e trabalhou como motoboy, é o retrato da mobilidade social e do quanto a baixa renda pode alavancar um empreendimento e uma história. Há alguns anos, ele resolveu comprar uma kombi.
- Apostei no morro e consegui crescer.
Ele conta que recentemente comprou um ônibus com ar-condicionado.
- Consigo dar mais conforto para a família. Temos Internet, TV a cabo e um quarto para cada criança em casa.
A esposa Laudeane Batista, 30, reconhece a mudança.
- Nossa vida está 100% melhor.
Ela já prepara a próxima lista de desejos um plano de aposentadoria e uma “terrinha” para passar o fim de semana. Na vizinhança, o discurso tem o mesmo tom.
- Estamos progredindo a cada dia - diz a auxiliar de serviços gerais Lucília Araújo, que há uma semana comprou um fogão novo.
- Nem paguei a primeira prestação, mas a comida já está mais gostosa.
Com carteira assinada, Miriam da Cruz, 30, pode hoje cuidar melhor de seu bem mais preciso: o filho Pedro.
- Até paguei exame particular - conta ela, acrescentando que depois de anos só assistindo a chuviscos, contratou um plano de TV por satélite.