PF deveria ter deixado qualidade da carne fora do inquérito, diz indústria da carne

Associação afirma que não é função da Polícia Federal "dar parecer sobre saúde pública"

Até carne de cabeça de suíno, apontada como irregular na investigação, foi contestada por produtores e pelo governo, que afirmam ser permitida para fazer alguns tipos de embutidos
Até carne de cabeça de suíno, apontada como irregular na investigação, foi contestada por produtores e pelo governo, que afirmam ser permitida para fazer alguns tipos de embutidos Dario Oliveira/Estadão Conteúdo

As entidades que representam produtores de carne — Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) e ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) — criticaram nesta segunda-feira (20) o fato de a PF (Polícia Federal) ter incluído a qualidade da carne brasileira em uma investigação de fiscais corruptos.

A Operação Carne Fraca foi a maior já feita pela PF e gerou uma crise no setor — até a última segunda-feira, os prejuízos estimados eram de R$ 8 bilhões. Diversos países que compram carne brasileira já pediram explicações, sob ameaça de interromper os negócios.

Para o vice-presidente e diretor técnico da ABPA, Rui Vargas, a investigação cometeu "um grande equívoco técnico".

— [A PF] envolveu uma coisa que não tinha motivo nenhum para envolver, que era a qualidade da carne ofertada aos consumidores e aos países que importam.

Ele ainda acrescentou que o erro da PF ocorreu “quando se fez uma massificação da informação tentando dizer ou repassar uma imagem completamente negativa da carne brasileira”.

O presidente da Abiec, Antonio Jorge Camardelli, também disparou contra a ausência de um embasamento técnico no inquérito.

— Não é função específica de quem realizou esse trabalho [policial] dar parecer sobre saúde pública. Eu, como veterinário, não dou parecer sobre raio-X ou sobre um eletrocardiograma.

Vargas, da ABPA, diz, no entanto, que o setor apoia as investigações no que diz respeito a ilegalidades cometidas por funcionários de empresas e servidores públicos.

— Quanto à validade da investigação em si, pelas irregularidades e transgressões que foram feitas, tanto da parte empresarial quanto da parte oficial, isso não nos diz respeito. Isso é um assunto da Polícia Federal.

Dentre os exemplos citados pelos investigadores e rebatidos tanto pelo governo quanto pela indústria de carnes estão, por exemplo, o uso de carne de cabeça de suíno para fazer linguiça. Os policiais apontaram essa como sendo uma prática ilegal, o que, na verdade, é permitido por lei em alguns casos, como dos embutidos.

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Outro ponto que causou polêmica foi o de misturar carne com papelão. A informação surgiu a partir de um diálogo de funcionários da BRF. No entanto, a própria empresa diz que eles se referiam à embalagem utilizada. O ministro Blairo Maggi disse ontem que essa suspeita “é uma idiotice”.

A investigação apontou que alguns frigoríficos usavam ácido ascórbico (vitamina C) com intuito de disfarçar a carne estragada. O diretor técnico da ABPA diz que a carne estragada não tem como ser maquiada.

— A carne é um produto perecível. Quando a carne se deteriora, ela mostra características organolépticas, sob forma visível, com odor, textura, presença de líquido. É impossível uma pessoa consumir um produto deteriorado porque ela vai sentir o cheiro, o odor, ela vai ver a modificação de textura e de gosto desse produto.

O vice-presidente da ABPA diz ainda que os consumidores brasileiros não precisam se preocupar.

— Nós temos tranquilidade de dizer que, sob o ponto de vista sanitário e de inocuidade, a carne que hoje nós temos na mesa do nosso consumidor e nos países que nos compram tem plena e total segurança.

Danos às empresas

Apesar de sustentar que não há razões para suspeitar da qualidade da carne brasileira, o presidente da ABPA, Francisco Turra, lamenta o dano à imagem das empresas nacionais.

— A partir da informação e desinformação nós chegamos a um quadro que nos deixa absolutamente fragilizados. [...] A comunicação, a nosso juízo, ela ensejou, digamos, essa generalização. O minuto seguinte já partiu para ‘carnes brasileiras, todas liberadas; empresas brasileiras, todas jogadas no lixo’.

“Infelizmente, essa crise desnecessária vem justamente no momento que a gente tinha perspectiva de recuperação”, acrescenta Camardelli, da Abiec, lembrando que os dois últimos anos foram difíceis para a economia mundial, o que prejudicou as exportações de carne.

Para recuperar a credibilidade, o governo brasileiro já reuniu embaixadores no domingo (19) e prepara uma resposta formal aos países que compram carne. As indústrias dizem que a preocupação existe também com o mercado interno, que representa 75% da produção.

O R7 entrou em contato com a Polícia Federal, mas, até o fechamento desta reportagem, a instituição não comentou as afirmações citadas na matéria.