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publicado em 01/10/2009 às 22h18:

Consórcio do Enem não era o ideal, diz "pai" da prova

Paulo Renato, ex-ministro da Educação e criador do exame, afirma que chamar empresas mais competentes poderia ter evitado falhas

Amanda Polato, do R7

O secretário de Educação do Estado de São Paulo, Paulo Renato Souza, considerado o "pai" do Enem, afirmou que o consórcio contratado não era o ideal para executar a prova. Em entrevista ao R7, ele disse que havia "maneiras de evitar que empresas menos experientes entrassem e ganhassem a licitação", reduzindo riscos com a segurança da prova. 

Além disso, Paulo Renato, que foi ministro da Educação na gestão Fernando Henrique Cardoso, apontou falhas como a demora na divulgação da lista das escolas onde o Enem seria realizado em São Paulo. 
 
Confira abaixo a entrevista com o secretário:

R7 - Como o senhor avalia a segurança do sistema de produção e distribuição de provas?

Paulo Renato Souza -
Esse foi claramente um problema de segurança, na logística do processo, porque foi em algum momento que a prova, no transporte, ou em algum outro momento da logística, que essa prova vazou.

R7 – A Secretaria de Educação identificou algum problema na logística do Enem?

Paulo Renato - Não vimos na hora da segurança, obviamente. Mas, por exemplo, até segunda-feira nós não tínhamos a lista das escolas estaduais onde seriam feitas a prova. As escolas estavam avisadas, claro, mas nós não tínhamos a lista. Começaram a surgir problemas, recebemos notícias: “Meu filho vai fazer o exame lá longe, no meio da periferia, perto de uma favela; como é que faz?”.  Comecei a me preocupar muito, e tentamos, na semana passada inteira, obter no MEC e junto à empresa, a lista das escolas estaduais onde seriam feitos os exames. E não conseguimos. 

Na segunda-feira de manhã, falei com o ministro, expliquei: “Olha, Fernando [Haddad], aqui nós queremos ajudar. Porque, se houver qualquer problema de segurança na realização do exame ou na segurança física das pessoas, ou se houver algum problema de transporte, a responsabilidade será de vocês, mas também nossa.” Então tomei a iniciativa, organizei aqui na secretaria uma força-tarefa para o Enem. Foi minha iniciativa, sob minha responsabilidade, porque ninguém me pediu isso.

R7 – Por que foi necessária uma força-tarefa?

Paulo Renato  - O problema era com alunos que fariam a prova naquelas escolas mais afastadas, com problema de segurança, de assalto. A prefeitura de São Paulo diminui muito os ônibus nos finais de semana. Então eu falei com o prefeito [Gilberto Kassab], que me pediu para falar com o secretário de transportes. E ali iam ser colocados mais mil ônibus no sábado e mais mil ônibus no domingo. Só por causa do Enem, porque nós tomamos essa iniciativa. Ninguém tinha falado com a prefeitura, não houve esse diálogo. 

R7 – A que o senhor atribuiu essas falhas?

Paulo Renato  - O exame se tornou mais complexo, agora decide a vida das pessoas, se entram ou não na universidade, e a empresa encarregada de executar, obviamente, era uma empresa que não tinha experiências em coisas desse tamanho. Nós começamos a detectar problemas de logística. Não tivemos acesso a listas das escolas, não tínhamos sido avisados, a Secretaria de Segurança Pública do Estado não havia sido avisada. Fizemos uma força-tarefa para encarregar de três assuntos: segurança, transporte e comunicação. Queria assegurar que tivesse ônibus para transportar todos os alunos e que houvesse perto de cada escola uma viatura da PM. 

R7 – O senhor é um dos idealizadores do Enem. O senhor se sente diretamente afetado com esse tipo de vazamento de prova?

Paulo Renato - É muito ruim para todos nós. Eu fico solidário com o ministro, ele não tem culpa. Houve alguma falha seja na sua equipe, seja na empresa contratada. E fico muito solidário com os alunos. Quatro milhões de alunos que tinham a esperança de fazer a prova neste final de semana e se sentiram frustrados com isso.

Agora, o Enem é uma prova que se consolidou no Brasil, tem respeito. Eu acho que esse episódio é lamentável, mas perfeitamente corrigível. E daqui pra frente é apenas cuidar da segurança, especialmente porque, o Enem assumiu esse caráter de “vestibulão”. Eu sou um ardoroso defensor do Enem, quero que dê certo. Tanto que eu estava preocupado e mostrei por minha conta que o esquema aqui em São Paulo tinha acompanhamento. 

Estou de acordo com a ideia de transformar o Enem, que tenha um sistema de acesso nacional às universidades. Que um aluno de São Paulo possa ingressar numa universidade do Piauí, e vice-versa. Mas a maneira de fazer isso, me parece, não era transformar o Enem em um "vestibulão". Era transformar o Enem em uma primeira fase de todas [universidades]. Porque, daí, o aluno poderia escolher em qual faculdade prestar a segunda fase, uma no Piauí, outra em São Carlos, outra no Rio Grande do Sul. Vai escolhendo para fazer a segunda fase, dependendo da área, da relação candidato por vaga etc. 

Porque, realmente, não é trivial você fazer um exame que tenha que ter segurança. Aqui nos concursos públicos de São Paulo, nós, na secretaria, não fazemos uma licitação aberta. Nós convidamos três instituições para nos apresentar propostas. Por exemplo, convidamos, no caso, [as Fundações] Carlos Chagas, Cesgranrio e Vunesp.

R7 - É possível convidar apenas algumas empresas?

Paulo Renato - É possível, sim. Quando estava no Ministério da Educação, eu nunca fiz licitação nem para o Provão nem para o Enem. Eu sempre contratei com dispensa de licitação, com notória especialização. 

R7 - O senhor não faria a prova do Enem dessa maneira?

Paulo Renato - Eu não sei, eu não vi o edital. Mas há maneiras de você evitar que empresas menos experientes entrassem e ganhassem a licitação. 

R7 - E que outras sugestões o senhor daria para evitar essas falhas de segurança?

Paulo Renato - Primeiro, contratando uma empresa competente, que pudesse acompanhar a prova, que pudesse dar mais garantias.

R7 - Quantos alunos fizeram as edições do Enem durante sua gestão como ministro?

Paulo Renato - Em 1998, no primeiro Enem, foram 115 mil alunos. Apenas uma instituição [de ensino superior] aproveitou a nota para ingresso. Em 2002, último ano em que realizei o Enem, já havia 350 instituições usando a nota e cerca de 2 milhões de inscritos. Já era um exame grande e de logística complicada.

R7 - As escolas estaduais estarão à disposição do Enem na nova data a ser marcada?

Paulo Renato - Sim. Finalmente vamos ter com mais antecedência a lista das escolas onde vai ser realizado o Enem e vamos nos preparar. Cada escola se adequará ao calendário do Enem. O que o presidente do Inep [Reynaldo Fernandes, do órgão do MEC que realiza o exame] falou ontem [sobre a falta de escolas] não é verdade para a rede estadual. O ministro falou comigo há uns dois meses e eu coloquei as escolas à disposição. Das 5.000 escolas do Estado, 1.300 vão receber o Enem. Isso foi uma desculpa usada pelo presidente do Inep, é absolutamente uma inverdade. Não houve falta de escolas. Vamos compatibilizar as atividades delas com o exame.

R7 - Para o senhor esse escândalo de vazamento da prova pode afetar a imagem do ministério e do governo Lula?

Paulo Renato - Esse é um tema que eu não quero entrar neste momento. Vamos ver o que vai acontecer, como essa investigação vai acabar. Não dá pra gente pré-julgar, responsabilizar politicamente ninguém.


 
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