Internacional

7/7/2013 às 15h04

Chilena queimada viva por militares de Pinochet conta sua história

Carmen Glória Quintana teve 65% do corpo queimado quando tinha apenas 18 anos

BBC Brasil

Carmen Glória Quintana sobreviveu após ter 65% do corpo queimado por agentes do general Augusto Pinochet Divulgação/ Fondo Diario La Nacion y Archivo Museo de la Memoria

A chilena Carmen Glória Quintana sobreviveu após ter o corpo queimado por agentes de segurança do general Augusto Pinochet em julho de 1986. Nos anos seguintes, ela se tornou um símbolo da luta pela democracia e os direitos humanos em seu país.

Mais de duas décadas mais tarde, Carmen decidiu contar sua história em uma entrevista tocante a Mike Lanchin do programa "Witness", da BBC.

Ela diz que o incidente ocorreu quando tinha apenas 18 anos e era estudante universitária. Carmen resolveu participar de um protesto contra o governo Pinochet junto com a irmã, mas o grupo em que estavam se deparou com um bloqueio policial comandado pelo então tenente do Exército Pedro Fernández Dittus.

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Os estudantes carregavam pneus e combustível com os quais pretendiam erguer barricadas e ao ver os militares fugiram, mas Carmen e o jovem fotógrafo Rodrigo Rojas De Magri foram alcançados.

Segundo a versão do governo Pinochet, quando Quintana e Rojas foram presos, alguns coquetéis molotov que carregavam explodiram acidentalmente. Carmen diz que os militares jogaram gasolina sobre os dois jovens, ateando fogo em seguida.

Abaixo, veja uma íntegra do depoimento da chilena:

Depoimento - Carmen Glória Quintana:

"Foi decretada uma greve geral para o dia 2 de julho e Pinochet havia ameaçado usar as Forças Armadas para reprimir a manifestação.

Acordei cedo, junto com minha irmã mais velha, Emília. Estava um dia nublado, típico do inverno chileno.
Saímos de casa por volta das sete e meia da manhã e fomos caminhando para encontrar o grupo com o qual seguiríamos em marcha até a Universidade de Santiago.

No caminho, juntaram-se a nós alguns vizinhos e encontramos também Rodrigo Rojas e dois outros jovens que eu não conhecia.

Eles se preparavam para erguer uma barricada com pneus para interromper o trânsito de uma avenida importante e nos pediram ajuda. Empolgados pela motivação dos protestos, concordamos em ajudá-los.

Quando andávamos fomos cercados por uma caminhonete cheia de soldados, todos com os rostos pintados e vestidos com uniforme de camuflagem.

Sentimos medo, largamos os pneus e corremos, cada um numa direção diferente, mas eles nos perseguiram.
Alcançaram Rodrigo e o derrubaram com chutes e pontapés.

Também me pegaram, me revistaram de cima a baixo e me colocaram virada para a parede. Me perguntaram o que fazia ali e respondi que estava indo para a aula na universidade. Examinaram meus documentos e os apreenderam.

Me xingavam com ofensas, encostavam o cano da metralhadora nas minhas costas e eu chorava, sentindo muito medo.

Pelos seus rádios portáteis, chamaram soldados que tinham saído em perseguição aos outros jovens. Eles chegaram carregando os pneus e um frasco com gasolina. "Então é isso que estavam fazendo?", disseram os militares.

O militar que comandava os soldados, o tenente Pedro Fernández Dittus, pegou o frasco com gasolina.

Eu estava de pé com o rosto voltado para a parede. O tenente começou a despejar a gasolina sobre a minha cabeça e meu corpo. Rodrigo, que estava caído, sangrando, foi “regado” com gasolina como se fosse uma planta".

Nesse momento, não pensei que pretendiam nos queimar. Pensei apenas que queriam nos humilhar, que nos soltariam e que depois eu poderia tomar um banho.

Sem mais nem menos, jogaram algo em chamas sobre nós e me converti numa tocha humana. Rodrigo também.

Desesperada, tentei apagar o fogo com minhas mãos, me joguei no chão tentando apagar as chamas, mas não conseguia.

Então senti, que alguém me cobria com um pano e me colocaram na carroceria de um caminhão.

Em seguida, desmaiei.

Queimados, andando em busca de ajuda

Despertei quando me jogaram no leito de um riacho seco no meio de um campo.

Em seguida, jogaram um outro corpo. Estava paralisada de medo. Nos laragaram ali mesmo.

Rodrigo começou a mexer em mim para que eu acordasse. Nos levantamos e olhei para ele: seu rosto estava completamente negro, tinha perdido metade do cabelo. Olhei para mim e vi que toda minha roupa estava escurecida e minhas mãos totalmente negras. Disse: "Veja como esses desgraçados nos deixaram". Rodrigo permaneceu calado.

Nos deixaram em uma estrada de terra, bem afastada. Tivemos de caminhar.

Chegamos a uma rodovia e nos demos conta de que estávamos perto do aeroporto. Tentávamos parar os carros, mas acho que os motoristas se assustavam ao ver nossa imagem de zumbis.

Um pouco depois, chegou uma patrulha da polícia e Rodrigo me disse para não dizer nada, porque poderiam desaparecer com a gente.

A polícia nos perguntou o que tinha acontecido e não respondemos nada, ficamos em silêncio.

Perto dali havia uma construção e pedreiros trabalhando. A polícia chamou uma ambulância, mas a ambulância nunca chegava. Os pedreiros nos fizeram uma cama de ladrilhos e me deitei ali.

Eu tinha tanta raiva que disse aos policiais: “Me dê um tiro, por favor, para acabar com esse sofrimento”.

Ficamos ali uns 30 minutos, acho. Não sei ao certo.

Ao ouvir minhas palavras, a polícia reagiu. Pararam um veículo civil e nos levaram a uma clínica nas imediações.

Lá, a enfermeira instruiu os policiais a irem embora. Muito gentil, me perguntou o que tinham feito comigo e eu disse a verdade. Ela então avisou minha família e nos transportaram para um grande pronto-socorro. Depois disso, perdi a consciência e não sei mais o que aconteceu comigo.

Sei que estive em coma, que me fizeram muitas operações de transplante de pele e doações de sangue.

Trata-se de um período muito obscuro para mim, como se eu tivesse morrido durante todo esse tempo.

Mais tarde, reconstruí a história com base no que meus pais e amigos me contaram.

Atentado a Pinochet

Quando comecei a recuperar a consciência, me dei conta que todo o meu corpo estava enfaixado, porque tinham feito enxertos de pele em mim. Era muito doloroso, porque cada vez que trocavam os curativos, eles grudavam.

Eu também usava um aparelho de respiração artificial, não conseguia respirar sozinha.

Rodrigo Rojas não conseguiu sobreviver. Teve 70% da superfície de seu corpo queimada e morreu quatro dias depois.
Eu tive 65% do meu corpo queimado, sofri queimaduras de segundo e terceiro grau.

Fiquei dois meses e meio no hospital chileno (antes de viajar ao Canadá, onde lhe ofereceram mais tratamentos).

Lembro do choque que senti ao ver minha mãe pela primeira vez. Ela tinha perdido 15 Kg.

Tinha muito sentimento de culpa, porque quando me viu queimada pela primeira vez pensou que era melhor que eu morresse, para não sofrer.

Minha irmã Emília, que tinha saído de casa comigo no dia do protesto, foi me visitar, vestida de noiva, com seu marido.

Também me lembro de o médico Jorge Villegas, o cirurgião plástico que cuidava do meu caso, me contar que tinham feito um atentado contra Pinochet em setembro. Isso me alegrou muito.

Ficaram muito preocupados, porque pensaram que poderia haver represálias e que poderiam me assassinar. Toda a minha família ficou no hospital nesse dia.

Porta-voz

Quando cheguei ao Canadá, comecei a ver pela primeira vez o estado do meu corpo. Foi chocante.

No princípio, resisti. Ia tomar banho e não me olhava no espelho.

Não conseguia caminhar nem usar as mãos. Tive de fortalecer os músculos nas minhas pernas para poder voltar a andar.

Nos primeiros anos, fui submetida a cerca de 40 operações.

Além de cirurgias para recuperar os movimentos das mãos, tive de fazer sessões de cinesioterapia todos os dias. Não podia segurar lápis, canetas ou pinças.

Isso eu recuperei, mas ainda tenho dificuldade para fazer alguns movimentos. Sou desajeitada com as mãos e os pés, não posso fazer coisas delicadas.

Minha boca ficou muito atrofiada e tive de me submeter a várias operações para poder abri-la.

Voltei ao Chile no ano de 1988, acho que ainda fui operada mais duas vezes, mas fiquei com fobia da dor da anestesia. Disse que já bastava, não queria mais nada.

Passei a contar o que tinha acontecido comigo e viajei a muitos países denunciando as violações aos direitos humanos cometidas no Chile.

Fui aos Estados Unidos, Alemanha, França, Bélgica, Suíça, Suécia, Austrália e alguns países latino-americanos.

A raiva de saber que tantos morreram sem voz para denunciar o que lhes ocorreu me deu forças.
Sentia que falava por toda essa gente.”

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