Internacional

13/12/2012 às 02h00 (Atualizado em 13/12/2012 às 02h00)

Com ascensão da China, Japão expande seu papel militar

Cresce pressão para releitura de constituição pacifista do país

Oficiais da guarda costeira do Japão em Yokohama Ko Sasaki/The New York Times

Após anos vendo sua influência internacional ser desgastada pelo declínio econômico em câmera lenta, o pacifista Japão está tentando elevar seu perfil de uma nova forma, oferecendo ajuda militar pela primeira vez em décadas e exibindo as suas forças armadas no esforço de criar alianças regionais e apoiar as defesas de outros países com o fim de combater uma China em ascensão.

Neste ano, o Japão cruzou um limiar pouco percebido ao fornecer a sua primeira ajuda militar no estrangeiro desde o final da Segunda Guerra Mundial, chancelando um pacote de mais de R$ 4 milhões para que seus engenheiros militares treinem tropas no Camboja e no Timor Leste com técnicas de socorro de emergência e técnicas de construção de estradas.

Navios de guerra japoneses não apenas realizaram exercícios em conjunto com um número crescente de forças militares no oceano Pacífico e na Ásia, mas também começaram a fazer visitas regulares a portos de países há muito temerosos de um ressurgimento das forças militares do Japão.

E após intensificar programas de ajuda civil a fim de treinar e equipar a guarda costeira de outras nações, funcionários da defesa japonesa e analistas afirmam que o Japão pode chegar a outro marco: começar a venda de equipamentos militares como hidroaviões e, talvez, por fim, os submarinos furtivos movidos a diesel considerados bem apropriados para as águas rasas onde a China está fazendo reivindicações territoriais cada vez mais assertivas.

Esses passos reunidos, embora modestos, representam uma mudança significativa para o Japão, que resistia a repetidos pedidos dos Estados Unidos para se tornar uma potência na região, por medo de que isso seria afastar-se demais do seu pacifismo pós-guerra.

A decisão silenciosa do país de superar essa relutância em se tornar mais importante na região chega enquanto os Estados Unidos e a China fazem suas reivindicações de poder na Ásia, e enquanto o temor da ambição da China parece suavizar a amargura em relação ao Japão entre alguns países do Sudoeste da Ásia, pisoteados no século passado pela busca de dominação colonial japonesa.

A força motriz da mudança de estratégia da Segurança Nacional do Japão é a sua disputa tensa com a China por ilhas desabitadas no Leste do Mar da China, o que está alimentando a ansiedade japonesa de que o declínio relativo do Japão — e as dificuldades financeiras do seu protetor nacional, os Estados Unidos — estejam deixando o país cada vez mais vulnerável.

"Durante a Guerra Fria, tudo o que o Japão tinha de fazer era seguir os EUA", afirmou Keiro Kitagami, conselheiro especial em questões de segurança do Primeiro Ministro Yoshihiko Noda.

— Com a China, é diferente. O Japão tem que tomar uma posição por conta própria.

As ações do Japão não significam que ele poderia transformar as suas forças armadas, que têm um um papel meramente defensivo, em uma força ofensiva em breve. A opinião pública resistiu a esforços passados de alguns políticos querendo renovar a constituição pacifista do Japão, e a dívida enorme do país limitará o quanto de ajuda militar ele pode oferecer. Mas também está claro que as posições no Japão estão evoluindo, enquanto a China continua seu crescimento anual de 2 dígitos em gastos militares e afirma que deveria tomar conta das ilhas que o Japão reivindica, assim como vastas extensões de terra do mar do Sul da China que várias nações do Sudoeste da Ásia dizem controlar.

Líderes japoneses vêm enfrentando a disputa sobre as ilhas conhecidas como Senkaku, no Japão, e Diaoyu, na China, com uma disposição pouco característica de não recuar, e pesquisas demonstram que a opinião pública está cada vez mais de acordo.

Os dois maiores partidos políticos também estão falando sobre instituir uma leitura mais flexível da constituição que permitiria que o Japão defendesse os aliados — derrubando qualquer míssil da Coreia do Norte direcionado aos Estados Unidos, por exemplo — dissipando a divisão entre uma força ofensiva e defensiva.

"Queremos criar nossa própria coalizão de vontades na Ásia para impedir que a China simplesmente nos atropele", disse Yoshihide Soeya, diretor do Instituto de Estudos do Leste da Ásia da Universidade de Keio em Tóquio.

Ou, como o vice-ministro da defesa, Akihisa Nagashima, disse em uma entrevista: "Não podemos simplesmente permitir que o Japão entre em queda silenciosa".

Os Estados Unidos têm sido geralmente receptivos a tais esforços do Japão, que estão alinhados com a sua própria estratégia de desenvolver militarmente nações da Ásia para que possam defender seu terreno contra a China, assim como expandir a presença militar dos EUA na região.

A China, que sofreu grandemente com as tomada de posse sobre territórios por parte do Japão imperial no século 20, reagiu com avisos que o Japão está tentando anular o resultado da Segunda Guerra ao ensaiar um retorno militar. Em uma conferência de defesa na Austrália no mês passado, o tenente-general Ren Haiquan, da China, alertou seus exércitos contra se aliar mais intimamente ao que ele chamou de nação fascista que, no passado, bombardeou a cidade australiana de Darwin.

Em uma demonstração das mudanças geopolíticas que turvam a região, contudo, preocupações acerca de um eventual retorno do militarismo japonês parecem estar se desvanecendo em alguns países envolvidos em suas próprias disputas territoriais com a China, como o Vietnã e as Filipinas, cenário de lutas violentas durante a guerra.

Embora as despesas com defesa do Japão estejam encolhendo, o orçamento militar é, por muitas medidas, o sexto maior do mundo. Mantendo sua posição pacifista, o Japão não tem nenhum dos mísseis de longo alcance, submarinos nucleares ou grande porta-aviões necessários para realmente projetar força. Mas os seus submarinos movidos a diesel são considerados os melhores de seu tipo no mundo. A marinha japonesa também tem cruzadores equipados com o sistema Aegis, capazes de derrubar mísseis balísticos, e dois grandes contratorpedeiros porta-helicópteros que podem ser modificados para carregar caças que podem decolar verticalmente.

A marinha japonesa deu um grande passo na direção de abertura em 2009, ao fazer exercícios militares conjuntos com a Austrália, seu primeiro exercício desse tipo com uma nação além dos Estados Unidos. Desde então, ela se uniu a inúmeros exercícios navais com várias nações no Sudoeste da Ásia, e em junho realizou a sua primeira manobra conjunta com a Índia.

O Ministério da Defesa do Japão afirmou que planejava dobrar o seu programa de ajuda militar no ano que vem para auxiliar a Indonésia e o Vietnã. O Vietnã também poderia estar entre os países aos quais o Japão permitiria comprar seus submarinos, segundo o ex-ministro da defesa, Toshimi Kitazawa, que citou a Austrália e a Malásia como outros possíveis compradores.

"O Japão tem sido insensível às necessidades de segurança de seus vizinhos regionais", Kitazawa afirmou em uma entrevista recente. "Podemos oferecer muito para aumentar a paz de espírito desses países."

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