Diretor do Bolshoi diz saber quem o atacou com ácido

Sergei Filin não dará nomes até que os investigadores estejam prontos para anunciar oficialmente os culpados

Diretor artístico do balé Bolshoi Sergei Filin foi atacado em frente à sua casa, em Moscou, no dia 17 de janeiro
Diretor artístico do balé Bolshoi Sergei Filin foi atacado em frente à sua casa, em Moscou, no dia 17 de janeiro Reprodução BBC

O diretor artístico do balé Bolshoi diz ter ''certeza absoluta'' de que sabe quem estava por trás do ataque com ácido que causou queimaduras de terceiro grau em seu rosto e pescoço.

Mas em entrevista à BBC, Sergei Filin, de 42 anos, disse que não dará nomes até que os investigadores estejam prontos para fazer um anúncio oficial sobre os culpados.

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Ele afirma estar certo de que o objetivo do ataque era retirá-lo do posto de diretor artístico do Bolshoi e destruir a reputação da consagrada companhia de balé.

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Filin deve viajar para a Alemanha na semana que vem para dar continuidade ao seu tratamento. Seus olhos foram gravemente danificados pelo ataque realizado no dia 17 de janeiro, em frente à sua casa, em Moscou.

O diretor artístico do Bolshoi, afirma que sabe que algumas pessoas não gostavam da forma que ele estava conduzindo a companhia de balé, que é conhecida por suas brigas internas e rivalidades, mas acrescentou que não tinha quaisquer ''inimigos confessos''.

Leia a seguir a entrevista exclusiva dada por Filin, no sábado, à BBC:

BBC — Como está indo o tratamento?

Sergei Filin — O tratamento está indo bem. Estou satisfeito, mas o mais importante é se os médicos estão satisfeitos. De um modo geral, está indo bem. Eu me sinto bem. Meu corpo está cheio de força e energia. A prioridade agora é minha vista. Porque o problema mais sério e mais grave permanece sendo os meus olhos.

BBC — Como está sua vista?

Filin — Não posso dizer. Já passei por quatro operações e hoje fiz outra pequena cirurgia que não havia sido prevista. Meus olhos estão sendo monitorados constantemente. Um olho foi mais atingido do que o outro. O olho esquerdo foi um pouco menos prejudicado, o olho direito foi mais. Portanto, será preciso muito trabalho para tratá-los. Não seria correto eu comentar sobre a minha condição. Acho que isso cabe aos médicos. Mas posso dizer o seguinte: baseado no que estou sentindo, quando os médicos me dão a oportunidade de meio que abrir meus olhos e fazer com que eu tente ver alguma coisa, acredito que haja uma chance de que eu serei capaz de ver meus filhos novamente. Realmente quero acreditar nisso.

BBC — Você já havia sido ameaçado antes?

Filin — Já disse várias vezes que o que aconteceu está ligado unicamente ao meu trabalho junto ao Teatro Bolshoi. É claro, eu recebi ameaças. Eu acho que eu as ignorei com facilidade excessiva. Ignorei os conselhos de amigos para que eu passasse a ter um motorista e um segurança. Porque a intimidação que eu comecei a sofrer, ataques contra meus telefones celulares, que ficavam tocando constantemente, o hackeamento da minha conta de email, minhas mensagens foram reescritas de forma negativa e postadas no Facebook, eu percebo agora que tudo isso iria levar à tragédia que acabou ocorrendo. Se eu tivesse levado isso mais a sério como o sinal de que um ataque estava para ocorrer, se eu pelo menos tivesse contratado um motorista, isso nunca teria acontecido.

BBC — Houve ameaças concretas, do tipo, ''se você não fizer isso, nós faremos isso''?

Filin — Não, ninguem me ameaçou diretamente.

BBC — Qual você acredita que tenha sido o objetivo do ataque?

Filin — Acho que havia dois objetivos. O que está claro é que isso foi fruto da psicose de uma ou mais pessoas que tinham pressa em me causar muita dor para realizar suas ambições pessoais. Essa é a primeira coisa. O segundo objetivo era me tirar da direção artística do Bolshoi por um longo período, e prejudicar a reputação do Balé Bolshoi. Porque acredito que fizemos muitas coisas e estamos fazendo muitas coisas. Estamos indo na direção certa. E alguém realmente não gosta do que estou fazendo aqui. Talvez eles não gostem do fato de que eu fui bem-sucedido.

BBC — Por que você acha que alguém queria tirar você do Bolshoi? Você fez inimigos?

Filin — Quando estou tocando a minha vida e o meu trabalho, não tenho tempo de pensar se tenho inimigos. Não tenho quaisquer inimigos confessos. Tive uma carreira interessante e brilhante. E ao longo dela, nunca tive um momento em que eu temesse o que se passva do lado de fora, em que eu estivesse olhando por cima do meu ombro. Sou uma pessoa muito honesta. Tenho minhas opiniões a respeito das coisas, tomo decisões difíceis. Fui um adminstrador, o administrador de um coletivo muito sério, o Balé Bolshoi. Talvez houvesse pessoas que que não gostavam disso ou que achavam que eu não seria a pessoa certa ou que se incomodavam com isso. Mas não posso chamá-los de inimigos. Por que eles queriam se livrar de mim? Eu gostaria de esperar antes de responder isso. Eu acredito que as investigações darão a resposta a isso.

BBC — Eu não esperaria que você tivesse inimigos, mas você tem alguma ideia de quem pode ter feito isso?

Filin - Sim, não apenas eu suspeito de quem fez isso, como eu tenho certeza absoluta de quem o fez. Mas eu só falarei a respeito disso quando os investigadores estiverem prontos para divulgar isso.

BBC — Que medidas você tomou para proteger a si mesmo e à sua família daqui para a frente?

Filin — Não tive tempo para isso, porque, no hospital, todos os dias, tive de me submeter a uma série de procedimentos médicos, diversas operações, primeiro na pele do meu rosto, depois nos meus olhos. Todos os dias, olhos, pele, rosto. Quanto à segurança da minha família, toda a família agora está sendo vigiada.

BBC — Que mensagem você tem para as pessoas que organizaram esse ataque?

Filin — Você sabe, eu convidei um padre ao hospital para falar sobre este mesmo assunto. Ele ouviu minha confissão, eu pedi a ele que perdoasse todos os que têm ligações com este crime terrível. E eu sinceramente quero que eles entendam que eu os perdoo. Porque é Deus que irá julgá-los.