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SIM NÃO

Internacional

30/12/2012 às 16h36 (Atualizado em 30/12/2012 às 16h36)

Emprego não é garantia de salário na Espanha



Mesmo empregados, espanhóis não
recebem salários


Fábrica deve mais de R$ 26 mil, a Ana Marina Molina Cuevas, de 36 anos Samuel Aranda/The New York Times

Nos últimos dois anos, Ana Marina Molina Cuevas, de 36 anos, tem trabalhado cinco turnos por semana em uma fábrica de cerâmica nos arredores da cidade, onde pinta azulejos. Porém, muitas vezes o mês terminou sem que ela recebesse o salário.

Ainda assim, Molina continua aparecendo no horário e tentando manter a frustração sob controle. Afinal de contas, se desistir talvez nunca veja a cor do dinheiro. Além disso, onde é que encontraria outro serviço? Em novembro, Molina tinha apenas R$ 265,00, cerca de 130 dólares, na conta do banco e devia uma parcela da hipoteca.

"Quando recebo o salário", afirmou em casa, ao lado do marido deficiente e da filha pequena, "é como se o sol nascesse três vezes. É um dia de pura alegria".

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A fábrica deve mais de R$ 26 mil, cerca de 13.000 dólares a Molina, mas ela não é a única nessa situação. Receber pelo trabalho realizado não é mais uma certeza na Espanha, enquanto o país enfrenta o quarto ano seguido de crise econômica. Governos regionais e municipais afundam em dívidas e nem mesmo funcionários públicos, como motoristas de ônibus e trabalhadores do setor de saúde, têm os salários garantidos.

Contudo, quase todas as pessoas que estão nessa situação acreditam que a única saída é continuar trabalhando e nenhuma quis revelar o nome dos patrões, buscando preservar tanto a empresa quanto o próprio emprego. Tentam viver a vida com pagamentos esporádicos e parciais, em datas aleatórias — sem nunca saber ao certo se irão receber o que lhes é devido ao final. A taxa de desemprego da Espanha é a maior na zona do euro, ultrapassando os 25% e, a despeito das reformas trabalhistas do governo, esse número continua crescendo mês após mês.

"Antes da crise, os trabalhadores podiam descansar por um mês e em seguida já estariam empregados novamente", afirmou Jose Francisco Perez, advogado que representa funcionários sem pagamento na área de Valência. "Essa opção não existe mais. Agora, as pessoas já não têm mais para onde ir e estão assustadas. Têm medo até de reclamar."

Ninguém sabe ao certo quantos trabalhadores estão na mesma situação que Molina. Contudo, uma indicação desses números pode ser obtida nos tribunais, repletos de pessoas que tentam receber o fundo de garantia criado pelo Estado para amparar trabalhadores cujas empresas deixam de pagá-los.

Em Valência, a terceira maior cidade da Espanha, a taxa de desemprego chega a 28,1% e os tribunais estão tão cheios, que processos que antes demoravam entre três e seis meses para serem julgados agora demoram de três a quatro anos.

Desde o início da crise, em 2008, o fundo de garantia pagou salários atrasados e indenizações a quase um milhão de trabalhadores em todo o país. Em 2007, o fundo precisou pagar apenas 70.000 trabalhadores, mas somente este ano o número já se aproxima de quase 250.000 e especialistas afirmam que o total seria ainda maior, não fosse pelo congestionamento dos tribunais.

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Assim como Molina, cuja empresa está abrindo falência, trabalhadores que não recebem os salários esperam que seu próprio trabalho possa manter a empresa funcionando no longo prazo. O seguro desemprego tem duração de apenas dois anos e eles se perguntam o que fariam após esse período. Entretanto, essas pessoas não têm o direito de usufruir do seguro desemprego e não há economia doméstica que seja capaz de compensar a falta de pagamento.

O governo regional não respondeu as perguntas que enviamos por e-mail sobre a dimensão do problema. Ao invés disso, enviou um comunicado afirmando que estava fazendo o melhor para pagar as dívidas. "Estamos conscientes das dificuldades enfrentadas por muitas associações e fornecedores em função do atraso nos pagamentos devidos pela administração pública", afirmou o comunicado. Segundo ele, a região de Valência está trabalhando para "superar a crise o mais rapidamente possível", sabendo que "o pagamento contribui para reativar a economia".

Infelizmente, a paciência de muitos trabalhadores não compensou — mais de 300.000 empresas foram à falência na Espanha nos últimos anos.

Em uma manhã recente, grupos de trabalhadores faziam fila em frente aos escritórios do fundo de garantia antes mesmo das portas abrirem. O clima era sombrio. Muitos receberão apenas uma fração do que lhes é devido. Recentemente, o governo reduziu o reembolso máximo de R$ 4.593,91, o euqivalente a 1.700 euros ao mês para quatro meses, ao invés de cinco.

Algumas pessoas se questionavam sobre a decisão de continuar trabalhando, acreditando que os patrões haviam tirado proveito da situação. Muitos não conseguiam disfarçar a raiva. Diversos trabalhadores da construção civil contaram que passaram a viver no local das obras, trabalhando de 12 a 16 horas por dia porque a empresa afirmou que entregar a obra mais cedo garantiria o pagamento dos salários. Mas não foi isso que aconteceu.

"Sei muito bem que nunca vou receber o que me devem", afirmou Tudo Vrendicu, de 38 anos, que se mudou da Romênia para a Espanha há quase uma década e trabalhou sem receber durante meses, ganhando vez por outra R$ 132,79, 65 dólares, do patrão. "Viemos para cá em busca de uma vida melhor, mas isso se transformou em um pesadelo."

Não se sabe ao certo quantos trabalhadores estão sendo explorados por patrões inescrupulosos. As autoridades do fundo de garantia cobram das empresas o dinheiro gasto com salários atrasados e afirmaram não ter levado essa questão em consideração até o momento. Contudo, isso preocupa muitos dos trabalhadores que não foram pagos.

Cristobal Hernandez, chefe de cozinha em um hotel de 750 quartos na cidade de Benidorm, ao sul de Valência, afirmou que o hotel está lotado, mas os funcionários continuam sem receber salário. Segundo ele, o mesmo está acontecendo com a maioria dos hotéis da cidade.

"Ainda estamos tentando entender", afirmou. "Para onde está indo o dinheiro? Achamos que ele está sendo usado para manter as outras empresas do proprietário."

Hernandez afirmou que os funcionários do hotel ameaçaram contatar a imprensa e que isso garantiu parte dos pagamentos. Mas, segundo ele, os funcionários não querem fazer isso, pois temem prejudicar o hotel e, com isso, perder os empregos. Por essa razão, pediu que o nome do hotel não fosse revelado.

"Essa é nossa vida", afirmou.

Alguns patrões dizem que estão fazendo o melhor que podem, mas os clientes atrasam o pagamento ou simplesmente deixam de pagar. Outros dizem que fizeram de tudo para pagar os funcionários. Uma pessoa que não quis se identificar para não revelar os problemas financeiros da imobiliária de que é dono afirmou que a família vendeu a casa de praia e vaga em uma garagem para pagar as comissões dos funcionários em 2012.

"Sabemos que todos os funcionários têm as próprias obrigações: hipotecas, famílias", afirmou. "Pagar os salários em dia é um compromisso sagrado, um ato de fé."

Defensores dos direitos do trabalhador se preocupam que a situação dos tribunais esteja dando margem de manobra a empregadores desonestos. Os trabalhadores ficam mais tempo sem receber porque sabem que desistir e entrar na justiça não irá resolver o problema tão cedo. "As empresas entendem isso muito bem", afirmou Perez, para quem alguns trabalhadores estão sendo pressionados a aceitar menos do que lhes é devido. "Isso é uma vergonha."

Recentemente, Molina afirmou que usou algumas vezes o cartão de crédito para pagar a hipoteca. Mas ela se considera mais afortunada que a maioria. Pelo menos, a família conseguiu emprestar dinheiro sempre que precisou, ao menos até o momento.

Entretanto, Molina precisa lutar contra a raiva enquanto trabalha sem receber nada por isso. "Tento ficar tranquila e não demonstrar a insatisfação para minha família", afirmou. "Não é isso que vai colocar comida na mesa."

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