Internacional

24/2/2013 às 07h42 (Atualizado em 24/2/2013 às 08h38)

Entenda as eleições na Itália

Votação foi convocada após Partido Povo da Liberdade retirar apoio ao governo tecnocrático de Mario Monti

BBC Brasil

Partido de Berlusconi tem se saído bem entre as intenções de voto AFP

Os italianos vão às urnas neste domingo e segunda-feira (24 e 25 de fevereiro) para votar em eleições parlamentares antecipadas. Das urnas deve surgir um novo primeiro ministro, que terá ou de conduzir a recuperação econômica do país, ou de lidar com o agravamento da crise econômica europeia.

Realizada três meses antes da data prevista, as eleições foram convocadas após o Partido Povo da Liberdade (PDL, na sigla em italiano), do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, retirar seu apoio ao governo tecnocrático de Mario Monti.

Pesquisas de opinião mostram que o partido de Berlusconi, que renunciou em meio a uma série de escândalos sexuais e fraude fiscal, tem se saído bem entre as intenções de voto.

Como promessas de campanha, o ex-premiê tem manifestado a intenção de reverter algumas das políticas de cortes e medidas de austeridade implementadas por Monti, que são impopulares entre os eleitores.

Quais são os principais partidos e seus líderes?

Uma das forças é a coalizão de centro-esquerda liderada pelo ex-comunista Pier Luigi Bersani, do Partido Democrático (PD), que formou aliança com a Esquerda, Ecologia e Liberdade (SEL, na sigla em italiano).

Já o grupo de Berlusconi é composto por uma aliança entre o seu PDL e a Liga Norte, de extrema direita. Alvo de polêmicas, o magnata da mídia já foi primeiro-ministro da Itália por três vezes. A Liga Norte é chefiada por Roberto Maroni.

A terceira principal força é a coalizão de centro liderada pelo atual premiê, Mario Monti, que formou um governo tecnocrático após a renúncia de Berlusconi, com a missão de salvar o país da crise da zona do euro.

Esse grupo inclui o partido de Monti, conhecido como Escolha Cívica, os Cristãos-Democratas e um partido de centro-direita menor, chamado Futuro e Liberdade para a Itália. Monti é um senador vitalício no Congresso italiano e por isso não está concorrendo pessoalmente. No entanto, ele pode ter um papel central na campanha e poderia retornar ao posto de primeiro-ministro caso sua coalizão saia vencedora nas urnas.

Chama atenção ainda o Movimento Cinco Estrelas, ou M5S. Trata-se do grupo criado pelo comediante Beppe Grillo, que acabou se tornando uma liderança política e se saído bem nas eleições regionais. O grupo é visto como 'curinga' nas eleições.

Que tipo de sistema eleitoral está vigente atualmente na Itália?

A Itália é uma república com um presidente e um Parlamento de duas câmaras. A Câmara dos Deputados, com 630 membros eleitos, e o Senado, com 315 membros eleitos, além de quatro senadores vitalícios.

Os membros das duas casas são eleitos com mandatos de cinco anos. Nessas eleições, todos os assentos estão abertos à disputa. O sistema eleitoral é baseado em representação proporcional e nas listas dos partidos, com uma série de exigências que acabam encorajando as legendas a se agruparem em coalizões.

O Congresso italiano tem uma formação incomum em comparação com outros Parlamentos europeus, já que o Senado tem quase o mesmo poder da Câmara dos Deputados. Qualquer lei, com exceção do Orçamento, pode se proposta por qualquer uma das duas casas, e deve ser aprovada da mesma forma pelas duas câmaras. Além disso, o governo precisa ter o consentimento das duas casas para governar.

Na câmara baixa, é preciso alcançar 340 dos 630 assentos para obter a liderança nacional.

No Senado, a maioria é decidida região por região. A coalizão vencedora em cada uma das 20 regiões tem garantidos 55% dos assentos destinados àquela região.

O atual sistema eleitoral italiano é problemático e repleto de controvérsias, e embora haja amplo consenso sobre a necessidade de reformá-lo, os políticos do país ainda não chegaram a um acordo sobre o que deveria substituí-lo.

O que está em jogo?

O resultado das eleições será observado de perto na Europa e no resto do mundo. Os italianos enfrentam escolhas difíceis. O país está imerso em uma recessão profunda, com níveis recordes de desemprego - especialmente entre os jovens.

Os prospectos de instabilidade política logo após as eleições também podem ser devastadores. Se um impasse político for criado e for comprovado que os eleitores rejeitaram nas urnas as medidas de austeridade e reformas elaboradas para conter a crise, os mercados poderiam se assustar e a crise da zona do euro poderia entrar em uma nova fase, com a Itália como protagonista.

Durante a campanha, Berlusconi atacou as medidas de austeridade de Mario Monti e prometeu amplas reduções de impostos caso retornasse ao poder. Seu rival, Pier Luigi Bersani, da coalizão liderada pelo PD, disse que caso seja eleito dará prosseguimento às reformas e à disciplina fiscal implementadas por Monti, mas fará mais pelo crescimento econômico e pela geração de empregos no país.

Quais são os resultados mais prováveis?

A coalizão de centro-esquerda liderada por Pier Luigi Bersani tem liderado as pesquisas de opinião para a Câmara dos Deputados, com uma vantagem de até 10% frente aos rivais, mas Berlusconi conseguiu diminuir essa liderança em cinco pontos percentuais durante a campanha, graças a uma incansável rodada de aparições em programas de TV e rádio.

Uma grande parcela do eleitorado permanece indecisa, o que pode levar a um impasse.

Enquanto uma vitória na Câmara dos Deputados pode colocar Bersani na posição de formar um governo, nenhuma coalizão tem condições de liderar o país de forma efetiva sem o controle também do Senado, e como os assentos dos senadores são decididos de forma regional, é ali que a verdadeira disputa deve ocorrer, dizem analistas.

Berlusconi e seus aliados esperam conquistar assentos suficientes no Senado para dificultar, senão impossibilitar, a formação de um governo liderado por Bersani. E as últimas pesquisas mostraram uma disputa acirrada na câmara alta, sobretudo em regiões como Lombardia e Sicília.

Entretanto, há especulações de que, no caso de um impasse, a coalizão de centro liderada por Mario Monti poderia acabar apoiando a coalizão de centro-esquerda de Bersani, neutralizando assim as ameaças de Berlusconi e seus aliados. Neste cenário, Monti poderia vir a ter um papel de destaque no governo de Bersani.

O Movimento Cinco Estrelas está se beneficiando de uma grande onda de protestos populares e descontentamento dos italianos, e deve sair-se bem nas urnas, mas seu líder Beppe Grillo descartou fazer quaisquer alianças com outros partidos. Ele tem tecido duras críticas aos políticos do país, chamando-os de 'zumbis' que precisam ser substituídos por candidatos mais jovens, livres de acusações de corrupção e sem envolvimento em escândalos.

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