Entenda crises que levam pessoas a fugirem à Itália

Emergência migratória se deve a problemas na África Subsaariana

Em 2017, a Itália já recebeu mais de 90 mil refugiados
Em 2017, a Itália já recebeu mais de 90 mil refugiados Frederic Noy/COSMOS

Entre 1º de janeiro e 20 de julho de 2017, a Itália recebeu em seu portos exatas 93.369 pessoas resgatadas no mar Mediterrâneo Central, o que representa um crescimento de 13,03% em relação ao mesmo período de 2016.

Esse número torna o país a principal porta de entrada para refugiados e migrantes forçados na União Europeia e cenário importante da mais grave crise migratória desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, embora muitos possam pensar que o aumento se deva à Síria, o perfil dos indivíduos que se arriscam a cruzar o Mediterrâneo em barcos superlotados é bastante diferente do que se vê em termos globais.

Enquanto países como Afeganistão, Iraque e Sudão do Sul, além da própria Síria, lideram as estatísticas mundiais de refugiados, a "nação da bota" recebe sobretudo habitantes da África Subsaariana, que abriga conflitos ignorados pela comunidade internacional. Veja abaixo os principais lugares de origem das pessoas que chegam à Itália e os motivos para sua fuga:

Nigéria (15.548)

A Nigéria é a principal "responsável" pelo agravamento da emergência migratória no Mediterrâneo. Pouco mais de 16% dos deslocados que desembarcaram em portos italianos em 2016 são originários do país mais populoso da África, que há anos luta contra o grupo fundamentalista Boko Haram.

Assim como outras nações da região, a Nigéria convive com diferenças geográfico-religiosas: o sul, mais rico, é cristão, enquanto o norte, mais pobre, é majoritariamente muçulmano. É neste contexto que o Boko Haram se expandiu.

Com o objetivo de implantar um regime fundamentalista na parte setentrional do país, o grupo é autor de recorrentes atentados - usando muitas vezes mulheres e crianças kamikazes - e chegou a controlar 70% do estado de Borno, sua principal zona de atuação.

Ainda assim, só ganhou destaque em 2014, quando sequestrou 276 jovens de uma escola no município de Chibok - 113 permanecem desaparecidas. Nos últimos meses, o Boko Haram vem sofrendo importantes derrotas militares, mas os combates continuam obrigando muitas pessoas a buscarem proteção em outras nações.

Bangladesh (8.444)

Dos cinco países que mais mandam deslocados forçados à Itália, apenas um não é da África: Bangladesh, populosa nação islâmica situada entre dois "pedaços" de Índia, na Ásia. Dono de uma taxa de desemprego que chega a 41% entre os jovens, o país sofre com a pobreza e a falta de desenvolvimento, o que leva muitos a procurarem oportunidades no exterior.

Até pouco tempo atrás, os bengaleses preferiam as ricas monarquias sunitas do Golfo Pérsico, mas a queda nos preços do petróleo e as denúncias de violações dos direitos humanos de trabalhadores estrangeiros os fizeram mudar de alvo.

Várias agências ilegais em Bangladesh se especializaram em organizar viagens clandestinas à Europa: as pessoas embarcam primeiro para a Turquia ou os Emirados Árabes Unidos, e de lá partem para a Líbia, apesar de o governo bengalês proibir seus cidadãos de viajarem ao país africano.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), essas viagens custam cerca de US$ 10 mil, sem contar a travessia do Mediterrâneo, que os bengaleses devem conseguir por conta própria, pagando cerca de US$ 700 a traficantes de seres humanos.

Milhares de imigrantes de Bangladesh já viviam na Líbia quando Muammar Kadafi foi deposto, e muitas dessas pessoas agora tentam cruzar o Mediterrâneo para escapar dos conflitos no país.

Guiné (8.281)

Também majoritariamente muçulmana, Guiné fica na costa atlântica da África e possui algumas das características comuns entre os países da região: instituições fracas, pobreza disseminada, tensões étnicas e riqueza de recursos naturais.

Ainda assim, essa ex-colônia francesa não é palco de uma guerra propriamente dita, como as que ocorreram nas vizinhas Serra Leoa e Libéria, embora seu histórico de líderes autoritários favoreça a repressão e os combates entre grupos adversários.

Costa do Marfim (7.729)

Também ex-colônia francesa, a Costa do Marfim faz fronteira com a Guiné e possui, a grosso modo, uma população igualmente dividida entre cristãos, muçulmanos e fiéis de crenças tribais. A tensão étnico-religiosa abriu espaço para a atuação de grupos terroristas, como o braço da Al Qaeda no Magreb Islâmico, e de organizações paramilitares.

O país é o único a ter um ex-presidente, Laurent Gbagbo, entregue ao Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia. Ele é acusado de crimes contra a humanidade entre 2010 e 2011, quando se recusou a aceitar uma derrota eleitoral e teve de ser tirado à força do poder. Sua postura gerou uma guerra que durou cinco meses e matou cerca de 3 mil pessoas.

Gâmbia (5.337)

Caso semelhante ao da Costa do Marfim aconteceu em Gâmbia, enclave de maioria islâmica situado dentro do território de Senegal. No fim do ano passado, seu então presidente, Yahya Jammeh, que estava no poder desde 1994, se recusou a reconhecer o adversário Adama Barrow como vencedor das eleições e jogou o país em um caos político.

Com as Forças Armadas divididas, Jammeh só aceitou sair do cargo no dia 20 de janeiro, sob as ameaças de uma invasão por parte do Exército de Senegal e de tropas da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental.

No entanto, seis meses depois da ascensão de Barrow, a situação em Gâmbia é de incerteza. Apesar de avanços na questão da liberdade de expressão, o país ainda patina para sair do atoleiro econômico e convive com o aumento da criminalidade.

Além disso, há o espectro de uma revolta dentro da ala militar que apoiava Jammeh, hoje exilado na Guiné Equatorial.