Internacional

21/11/2012 às 10h02 (Atualizado em 21/11/2012 às 10h07)

Falso pastor e jornalista famosa são acusados de sequestro na Argentina

Crime chocou o país; empregada doméstica perdeu 17 quilos no cativeiro

BBC Brasil

Sonia Molina, de 33 anos, teria sido mantida em cativeiro por três meses BBC

Um caso de tortura, abuso sexual e cárcere privado envolvendo um falso pastor e uma conhecida jornalista de TV, vem comovendo a sociedade argentina na última semana. O casal é acusado de usar a própria residência para manter uma empregada doméstica em cativeiro e torturá-la.

O escândalo estourou no fim da semana passada com a prisão do falso pastor, Jesús Olivera, de 28 anos, e de sua mulher, Estefanía Heit, de 29, uma jornalista argentina conhecida publicamente como Fanny. Ela trabalha em uma emissora de televisão de Coronel Suárez, cidade de 40 mil habitantes da província de Buenos Aires.

A detenção do casal foi motivada por uma denúncia da empregada doméstica Sonia Molina, de 33 anos. Ela afirmou à polícia que os dois a forçaram a vender seus bens, a sequestraram e a mantiveram em cativeiro por três meses.

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O cativeiro seria uma casa de classe média em Coronel Suárez, uma cidade tranquila onde ainda se pratica a siesta (o cochilo depois do almoço).

Molina afirmou ter sido sexualmente abusada por seus captores. Afirmou que teria passado a maior parte do tempo em um colchão, sem direito a banhos, e comendo alimentos para cachorro misturados com angu.

Também disse que teria sido submetida a sessões de tortura, nas quais teria sido queimada com pontas de cigarros. Afirmou ainda que era vigiada por cinco cães e por Olivera, que ficava a maior parte do tempo em casa.

Estefanía Heit, de 29 anos, trabalha em uma emissora de televisão BBC

A empregada doméstica afirmou que logo após ser obrigada a assinar uma carta falsa de suicídio, conseguiu fugir do local e pediu ajuda a um taxista — que a teria levado à casa de seus ex-patrões. Com ajuda deles, procurou uma delegacia para fazer a denúncia.

Indícios

Nesta quarta-feira, o jornal La Nación, de Buenos Aires, informou que a Justiça realizará uma inspeção na "casa do horror" — como o cativeiro vem sendo chamado. O local já foi vistoriado uma vez por policiais em busca de indícios que fundamentem as acusações.

Em um primeiro momento, a polícia argentina teria desconfiado das acusações contra a principal jornalista da cidade, mas ao chegar ao lugar, os policiais encontraram os detalhes que a vítima informara, como os cães e o colchão.

A polícia analisa ainda imagens de Sonia, no cativeiro, com a cabeça raspada. Elas teriam sido encontradas gravadas no celular de Heit.

Os vizinhos da casa disseram à imprensa local estarem "chocados" e que o único "fato estranho" que notaram foi o barulho da televisão ligada vinte e quatro horas do dia.

Na sua coluna semanal, no jornal Clarin, o jornalista Jorge Lanata escreveu sobre "o inferno em Coronel Suárez". A foto de Fanny foi destacada na primeira página dos principais jornais do país e nas emissoras de televisão, como canal treze, TN (Todo Notícias) e C5N.

Elas reproduziram diálogos de uma controversa entrevista realizada pela jornalista com a empregada doméstica no Canal 4. Em uma reportagem sobre pobreza, Fanny pergunta à Molina a razão dela ser pobre. Com uma voz trêmula, Molina afirma ser a própria responsável por sua "pobreza". A polícia investiga agora a suspeita de que a gravação tenha sido feita com a vítima já no cativeiro.

O advogado do casal, Claudio Lofvall, disse ao jornal Nuevo Dia que seus clientes negaram as acusações. Afirmou que Molina não foi sequestrada, mas sim chegou doente à casa, por vontade própria. Fanny teria dito que só se arrepende de não tê-la levado a um hospital, e que Molina de fato comia comida para cachorros.

Fanatismo

Molina foi internada em um hospital da cidade, onde foi diagnosticada com desidratação. Ela teria perdido 17 quilos no período de cativeiro. Uma psicóloga que a atendeu disse em entrevista à imprensa que "como foi valente para escapar" é "provável que ela também seja valente para superar este trauma". Ela disso porém que ainda é cedo para um diagnóstico definitivo.

Sonia morava na província de Rio Negro, na região da Patagônia, quando teria conhecido Jesús Olivera em um culto religioso. Segundo o jornal de Rio Negro, ele a teria prometido a "divindade" e ao mesmo tempo pedido que ela "vendesse todos os bens". A vítima teria vendido a casa sua casa e entregue o dinheiro ao pastor.

Olivera e Heit são acusados de inaugurar uma entidade, chamada Visión XXI e de pedir doações, principalmente em localidades de Rio Negro, no sul do país, para o "Centro Cristiano Amar é Combater", que destinaria os recursos para crianças carentes do Chaco, outra província argentina.

Segundo as investigações policiais, o casal estaria criando uma "seita" com seguidores de diferentes localidades. A mãe da jornalista disse às emissoras de televisão que estava "chocada" e que a filha teria se afastado da família por "fanatismo pelo pastor".

A mãe de Molina, Monica Santander, fez declarações semelhantes, dizendo que a filha "já não se comunicava há meses" com familiares. O caso gerou debate sobre os "efeitos das seitas" em seus seguidores.

O presidente da ONG Rede de Apoio para as Vítimas de Seitas (RAVICS), Hector Navarro, disse à imprensa local que Molina e Fanny poderiam ser "vítimas de fanatismo" pelo falso pastor.

Um taxista que levava Fanny diariamente à TV, disse à imprensa local: "Ela sempre foi doce e atenciosa com todos. Será que é uma pessoa de duas caras?". A psicanalista e escritora Isabel Monzón disse que "nada justifica esta perversidade".

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