Internacional

21/11/2012 às 10h56 (Atualizado em 21/11/2012 às 13h36)

Jornalista de Gaza descreve como é ver pela TV cidade sob ataque

Profissional faz curso em Londres, de onde assiste à guerra pela TV

BBC Brasil

Abu Qammar, na Cidade de Gaza: "sair de lá é deixar uma prisão". BBC

Acostumado a noticiar de Gaza os acontecimentos como os da última semana, o produtor da BBC na cidade Hamada Abu Qammar se viu do outro lado da notícia com a nova onda de violência na região.

Em Londres há cerca de um mês para um curso, ele descreve no texto abaixo a sensação de acompanhar à distância o bombardeio de sua cidade natal:

'Assim que você deixa Gaza e se encontra do outro lado da fronteira, você de repente se sente livre e fora da prisão. É assim que eu me sinto a cada vez que saio de Gaza.

Viajei a Londres para um curso três semanas antes de Israel começar a bombardear minha cidade. Deixei minha família lá, e meus amigos.

É uma sensação estranha ver o lugar que você conhece nas telas de TV com colunas de fumaça e bolas de fogo no céu.

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Quando os foguetes israelenses atingiram o edifício alto no centro de Gaza onde algumas companhias de TV estão baseadas pareceu realmente estranho: é o mesmo prédio e o mesmo andar do qual eu cobri a guerra em Gaza em 2009 para a BBC.

Seis jornalistas locais ficaram feridos, e um amigo meu perdeu uma perna. Poderia ter sido eu, pensei.

Gaza é um lugar pequeno, com somente 41 km de comprimento e de 6 a 12 km de largura, com mais de 1,5 milhão de pessoas vivendo lá.

Até 2005, mais de 40% da Faixa de Gaza era ocupada por assentamentos israelenses. Somente de 5.000 a 6.000 colonos viviam lá, com 1,5 milhão de palestinos abarrotados na outra metade.

Agora Gaza está fechada por três lados. Por terra, pelo mar e pelo ar, isolada por Israel e também pelo Egito. Não há para onde ir nem nada para fazer. Se você tem sorte, tem um trabalho, mas mesmo se tiver, o salário é baixo e não há segurança.

Um setor que está em alta é o do crescimento populacional. Metade dos habitantes de Gaza são crianças, e a maioria brinca pelas ruas. A razão é que eles não têm mais nenhum lugar para brincar. Não há playgrounds, mas no verão você pode ao menos ir à praia.

Não há uma orla, porém, e as pessoas não podem nadar por causa dos esgotos. Quanto eu quero dar um mergulho, vou para o sul ou para o norte, perto das fronteiras com o Egito ou com Israel.

E também há os barcos da Marinha israelense não muito longe dali, e eles têm atirado em barcos de pesca que navegam muito longe da costa, e às vezes atingem pessoas.

As ruas dos campos de refugiados, como Jabalia, que está vários quilômetros ao norte da Cidade de Gaza, são outra questão. Não há parques, cinemas ou clubes — nada. Lazer? Esqueça. Que vida!

Então, o que você vê são montes de jovens parados nas esquinas, conversando, fumando e com caras de desolação. Muitos têm uma educação decente, mas não têm empregos — e vivem só da esperança.

Nas fotos de Gaza pós-1948 (Independência de Israel), você pode ver grupos de homens parecidos com um olhar parecido em suas caras. Talvez sonhando em voltar ao lugar ao qual foram forçados a deixar?

Mas as preocupações diárias são mais mundanas. Haverá eletricidade hoje? Temos gás para cozinhar ou não?

Muitas coisas básicas simplesmente não existem por lá. E mais — quando você ouve como os israelenses correm para os abrigos quando os mísseis são disparados de Gaza, você fica pensando: nós não temos abrigos. Altas autoridades talvez tenham, mas não nós.

Uma casa palestina em Gaza é normalmente feita de paredes de concreto com um telhado de ferro galvanizado. É bem quente no verão — não há ar condicionado e nem eletricidade para operá-lo se houvesse.

No inverno, as paredes de concreto congelam e ficam bem frias — mas as casas em Gaza não têm aquecimento central. Quanto a aquecedores elétricos — veja o que eu disse sobre falta de energia.

Observar Gaza agora me leva de volta para a vida que eu enfrentei durante a operação 'Chumbo Fundido' em 2009. Em Gaza você não precisa de sirenes, e os toques de recolher não são anunciados, mas simplesmente acontecem — as pessoas sabem que qualquer coisa que se mova se torna um alvo para os aviões não-tripulados e caças israelenses.

Antes da guerra de 2009, Gaza tinha algo de agricultura e indústria, produzindo e exportando verduras e legumes, morangos, flores e até mesmo móveis.

Após a guerra, mais de 95% das empresas privadas tiveram que fechar suas portas.

Hoje, as necessidades diárias da Faixa de Gaza dependem de Israel — da manutenção de apenas uma passagem, Kirm Shalom. A outra rota para suprimentos é pelos túneis do Egito.

Tudo isso — o cerco, o embargo, os aviões não-tripulados, os bombardeios, a sensação de viver dia a dia em uma prisão — gera muita raiva e ódio, que alimentam o radicalismo que por sua vez molda a visão da geração jovem.

Eu não sei se esta geração se tornará mais politizada — nem todos os habitantes de Gaza são politizados hoje, e muitos não apoiam nem o Hamas nem o Fatah, apesar de eles não serem livres para dizer isso.

Mas os jovens que eu conheço viveram com sangue derramado ao seu redor por muitos anos. Eles não sabem o que é uma vida normal — e eles são metade da população.

O futuro não parece promissor para a minha cidade, com trégua ou sem trégua."

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