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publicado em 12/10/2009 às 12h26:

América do Sul investe mais pesado em arsenal militar

Especialistas dizem que gastos aumentam, mas afirmam que objetivo é modernizar

Maurício Moraes, do R7

Os países da América do Sul aumentaram muito seus gastos militares nos últimos anos, o que levou alguns a sugerirem que há uma corrida armamentista na região. Mas, segundo especialistas, os investimentos na área são baixos se comparados aos de outros continentes e a maior parte das aquisições são para modernizar equipamentos ultrapassados.

Mesmo assim os números são vistosos: no período de 2004 a 2008 o Chile foi o 11º importador de armas no mundo, e em menos de dez anos a Venezuela mais que dobrou seu orçamento militar.

A pesquisadora argentina Carina Solmirano, do instituto sueco Sipri (Instituto internacional de pesquisa para a paz de Estocolmo), disse ao R7:

- Não há uma corrida armamentista em seu sentido clássico, em que a capacidade militar de um país está diretamente relacionada à de seu rival, de forma que quando um aumenta seus gastos o outro acompanha.

Brasil, Chile e Venezuela dobram gastos militares

Segundo dados reunidos pelo Sipri, os três países que mais aumentaram seus gastos militares foram Brasil, Chile e Venezuela. Em 1999, o Brasil gastou cerca R$ 20,7 bilhões com as suas Forças Armadas. Em 2008, o valor quase dobrou, para R$ 40,5 bilhões. No mesmo período, os gastos chilenos subiram de cerca de R$ 5 bilhões para R$ 10,2 bilhões. Já a Venezuela, que teve gastos militares de aproximadamente R$ 2 bilhões em 1999, investiu pouco mais de R$ 5,7 bilhões no setor no ano passado.

Esses valores ainda não levam em conta negociações recentes, como o acordo militar entre Brasil e França e a aquisição de tanques russos pela Venezuela.

A alta nos gastos coincide com a eleição de uma série de líderes populistas na América do Sul, como o presidente venezuelano Hugo Chávez, o boliviano Evo Morales, a argentina Cristina Kirchner e o equatoriano Rafael Correa. O líder esquerdista da Venezuela não pensa duas vezes em apontar os Estados Unidos como uma ameaça para a região [muito embora continue a vender petróleo aos americanos].

Além da estridente retórica antiamericana, Chávez é rival do presidente conservador da Colômbia, Álvaro Uribe, aliado dos Estados Unidos. A série de incidentes diplomáticos entre os dois países causa apreensão nos vizinhos sul-americanos e a compra acelerada de armamentos por parte de Chávez sugeriu uma escalada armamentista no continente.

Modernização de equipamento

Os especialistas dizem que não há uma corrida armamentista, mas uma modernização das Forças Armadas, que não tiveram prioridade nos últimos tempos. O professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, da Universidade de Brasília, explica:

- A crise da dívida nos anos 80 concentrou a atenção dos governos sul-americanos, que ficaram sem recursos para investir em outras áreas. Em seguida, o fim da Guerra Fria levou a reduções nos orçamentos militares no mundo inteiro. Por fim, a relativa estabilidade do continente, as evidentes urgências sociais e os estereótipos em relação aos militares por causa das ditaduras que ocorreram aqui fizeram com que o setor de Defesa tivesse baixa prioridade. Sem investimentos, houve sucateamento dos equipamentos em toda a região.

Rocha ainda explica que tais investimentos só ocorreram porque a região se aproveitou da bonança econômica que irrigou de dólares a região nos últimos tempos, até a crise econômica estourar nos Estados Unidos e se espalhar mundo afora, em setembro de 2008.

- No caso do Chile, há uma lei que destina um percentual da venda bruta do cobre [o principal produto de exportação do país] a investimentos nas Forças Armadas. Como o preço do cobre esteve muito elevado no início da década, o caixa aumentou e os militares chilenos aproveitaram para comprar novos equipamentos. O caso da Venezuela é mais complicado, pois o país não sofre ameaça real, mas o governo Chávez aproveitou dos altos preços do petróleo para gastar com armamentos.

Guerra na América do Sul?

Embora volta e meia haja alguma confusão entre os países da região, como entre a Colômbia e o Equador [no caso da invasão do território equatoriano por parte do Exército colombiano], ou entre Uribe e Chávez de forma quase constante, os dois estudiosos não acreditam num perigo real de conflito entre os países sul-americanos.

Carina Solmirano afirma:

- Uma guerra não interessaria a ninguém, nem à Venezuela nem à Colômbia. Também não acredito que Estados Unidos e Brasil ficariam de braços cruzados diante de um conflito. O continente viveu relativa paz durante o século 20 e a diplomacia sempre funcionou bem.

Para o professor Rocha, "o Brasil desempenha um papel estabilizador relevante na região". Ele acha que "risco maior é de convulsão interna em algum país" do continente. E acredita que no caso colombiano Uribe tem isso sob controle. Já na Venezuela, ele vê esse risco crescer a cada dia, "à medida que se amplia a distância "entre as expectativas criadas pelo Presidente Chávez junto a sua população e as reais possibilidades de sua economia de as realizar".

E o Brasil nessa história?

Para Carina, "o Brasil está tentando se posicionar como o líder natural da região e se projetar internacionalmente".

- Faz anos que o Brasil busca uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, lidera a missão de paz no Haiti e tem um crescimento econômico sustentado. Os acordos recentes com a França buscam não apenas maior capacidade de defesa, sobretudo marítima [por causa do petróleo do pré-sal], como também desenvolver a indústria de armas local. O Brasil poderia virar um exportador de armas convencionais para a América do Sul.

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