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publicado em 15/02/2010 às 08h00:

Brasil deve continuar apoiando Irã, mas com cautela

Diplomacia brasileira passa por novo teste hoje em discussão sobre o Irã na ONU

Maurício Moraes, do R7

O Brasil vai continuar defendendo o diálogo com o Irã e não deve apoiar sanções contra o país, que na semana passada deu um passo além em seu programa nuclear. O governo brasileiro, no entanto, está sendo pressionado por potências como Estados Unidos e França para endurecer o discurso contra os iranianos. E a diplomacia brasileira passa por um novo teste nesta segunda-feira (15), quando a questão dos direitos humanos no Irã será discutida pela ONU (Organização das Nações Unidas), em Genebra.

A Comissão de Direitos Humanos da ONU se reúne hoje para debater as restrições à imprensa e a repressão a opositores no país islâmico. O governo de Teerã vem apertando o cerco desde as contestadas eleições do ano passado, que deram um novo mandato ao presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Apesar de os temas não estarem aparentemente ligados, alguns analistas acreditam que o Brasil pode endurecer o discurso contra o Irã no campo dos direitos humanos. Isso seria uma forma de dar credibilidade ao país como mediador da questão nuclear.

Quanto à posição brasileira em relação à questão nuclear do Irã em si, Amorim vem sendo pressionado pela diplomacia americana e europeia segundo uma reportagem do jornal francês Le Monde. Após o anúncio de Ahmadinejad, EUA e França pediram sanções da ONU contra o governo de Teerã.

Uma fonte ligada ao governo confirmou ao R7 que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tem sido procurado por diplomatas europeus e americanos para tratar do tema. A mesma fonte, no entanto, considera normal que ocorra pressão nesse sentido, já que, em sua opinião, o Brasil é agora uma peça importante (e atuante) nas relações internacionais.

Anúncio de Ahmadinejad surpreendeu o Brasil

Na última semana, o Irã anunciou que passaria a produzir urânio a 20% (atualmente produz a 3,5%), abrindo caminho para a produção de combustível nuclear necessário para a fabricação de armas nucleares (a partir de 90%). Em seguida, o presidente Ahmadinejad disse que o país já possui tecnologia necessária para enriquecer o urânio a 80%, o que deixaria o país a um passo da bomba atômica.

Questionado sobre a última declaração iraniana na última quinta-feira (11), o chanceler Celso Amorim se mostrou mais cauteloso na defesa do programa nuclear do Irã:

- Se enriquecer em 80%, [o Irã] estará em violação do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Eu acho que até falar disso não seria produtivo. Não é proibido falar, mas não é uma coisa produtiva. Mas perguntar se, a partir daí, eu seria a favor de sanções ou de que haja um processo, em função do dito, não do feito, eu não sei. Eu teria que avaliar.

A fonte do governo disse que o primeiro anúncio de Ahmadinejad (de que o Irá produzirá urânio a 20%) não surpreendeu o Itamaraty. Mas a declaração de Amorim (sobre o urânio a 80%) mostra que o anúncio posterior de Ahmadinejad não era esperado.

Lula vai ao Irã em dezembro

Mesmo distante, o Irã se tornou peça-chave na diplomacia brasileira. Ao se distanciar dos EUA e dos países europeus, o Brasil aprofunda sua política externa independente. Apesar de críticas do mundo todo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Ahmadinejad em Brasília em novembro passado. E vai retribuir a visita, indo a Teerã em maio.

Na visita do colega, Lula defendeu o direito do Irã a um programa nuclear civil. Mas criticou a situação dos direitos humanos no país.

Por outro lado, o Itamaraty – como é chamado o Ministério das Relações Exteriores brasileiro – tenta ganhar terreno no cenário diplomático ao se tornar interlocutor de um país cujo diálogo com o resto do Ocidente encontra problemas.

Nos meios diplomáticos, a questão é sobre até que ponto o Brasil manterá seu apoio ao governo de Ahmadinejad. Além da questão nuclear, o Irã é tema de outra discussão na ONU nesta semana - a Comissão de Direitos Humanos vai debater a violação de direitos no país, onde a imprensa sofre restrições e a oposição é duramente reprimida. Pelo que se vê, polêmica não falta vinda do governo de Teerã.

Diferentemente dos Estados Unidos e da Europa, que temem o avanço nuclear do governo de Mahmoud Ahmadinejad, o Brasil vinha defendendo o direito iraniano a um programa com fins pacíficos. Mas a notícia (ou o blefe) de que o país poderia enriquecer urânio a 80% (necessário para a construção de bombas atômicas), parece ter acendido a luz amarela no Itamaraty, que pode adotar uma postura mais cautelosa nos próximos meses.

Para aprovar as sanções são necessários os votos de 9 dos 15 membros do Conselho de Segurança (composto por cinco membros permanentes e dez rotativos) das Nações Unidas. Portanto, o Brasil possui um papel chave na questão. Além de despontar como ator mundial de influência crescente, o Brasil tem direito a um dos votos, já que ocupa uma dos dez assentos rotativos no conselho. A Turquia, outro membro rotativo, também não deve votar contra o Irã.

Conheça as instalações nucleares do Irã e saiba mais sobre o enriquecimento de urânio no infográfico abaixo.

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