27 de Maio de 2012
Para Rubens Barbosa, vinda do polêmico líder iraniano pode repercutir mal no mundo todo
Mahmoud Ahmadinejad desembarca nesta segunda-feira (23) no Brasil com uma comitiva de 150 empresários e tentando romper o isolamento internacional de seu país. A visita estava prevista para maio, mas foi adiada pelo líder iraniano, então em plena campanha eleitoral. Reeleito em junho, sua vitória não foi aceita pela oposição. Acusações de fraudes levaram milhares de iranianos às ruas do país em protestos duramente reprimidos pelo governo.
Em entrevista ao R7, Rubens Barbosa, embaixador do Brasil nos Estados Unidos durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, diz que a visita de Mahmoud Ahmadinejad é mais importante para o Irã do que para o Brasil.
R7- Por que o Brasil convidou um político tão polêmico?
Rubens Barbosa - A atual política do governo Lula é a de manter contato com todo o mundo, independente do regime e de problemas de direitos humanos. O Brasil quer conversar com todos e por isso fortaleceu suas relações diplomáticas com vários países em desenvolvimento. É a chamada relação Sul-Sul, e é uma forma de ter uma posição mais independente em relação aos países desenvolvidos.
R7 - Como o Irã vê essa política?
Barbosa - Essa política é bem-vinda pelo Irã, que quer uma relação mais próxima com a América Latina. Hoje o contato do Irã é só com (presidente Hugo) Chávez, na Venezuela, e com o Evo Moraes (presidente da Bolívia). Com a Venezuela eles têm vários acordos na área de petróleo. Com o Brasil não foi divulgada nenhuma agenda comercial, mas deve ocorrer algum negócio. Mas o mais importante para o Ahmadinejad é que ser recebido no Brasil significa uma espécie de endosso para sua vitória [nas eleições presidenciais deste ano]. A eleição dele foi muito contestada, teve suspeita de fraudes. Ele agora precisa ganhar respaldo internacional.
R7 - O que o Brasil pode ganhar com uma relação mais próxima com o Irã?
Barbosa - O Irã é um país grande e um mercado potencial importante. Mas há um custo político que transcende os ganhos. Eu, pessoalmente, acho que os custos são maiores do que os benefícios. O Brasil está tendo uma crescente projeção externa. Ao convidar o presidente do Irã para uma visita ou abrir uma embaixada na Coreia do Norte, um país visto com muita desconfiança pela comunidade internacional, o governo brasileiro dá sinal equivocado ao mundo.
R7 - O governo alardeou que o presidente Obama pediu a Lula para tentar convencer o Irã a ceder no seu programa nuclear. O Brasil tem todo esse poder?
Barbosa - Esse é um excesso de protagonismo que o Brasil está buscando. O Obama pode até pedir para o Lula falar sobre o programa nuclear iraniano com o presidente Ahmadinejad. Mas esse programa tem outras dimensões nas quais os Estados Unidos e o Brasil têm pouca margem de influência. Dificilmente o Irã vai parar porque o Brasil pediu.
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