27 de Maio de 2012
Rompimento de relações é apenas o mais recente capítulo de uma longa novela
Quando o presidente eleito da Colômbia, Juan Manuel Santos, se revelou disposto a uma reaproximação com a vizinha Venezuela, novas esperanças de que os dois países promoveriam uma reconciliação foram acesas.
O balde de água fria veio, no entanto, com a decisão colombiana de denunciar à Organização dos Estados Americanos (OEA) de que a Venezuela estaria acobertando atividades guerrilheiras e, posteriormente, com o corte das relações diplomáticas entre Venezuela e Colômbia, anunciada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.
Por trás da decisão, dois personagens importantes da política latino-americana desempenham papeis antagônicos: Chávez, o presidente socialista, declaradamente contra a influência imperialista americana; e o presidente colombiano Álvaro Uribe, o senhor da guerra contra o narcoterrorismo sob apoio dos Estados Unidos, prestes a terminar seus oito anos de mandato em agosto.
Posição sobre as Farc
Um dos principais pontos de discordância entre Chávez e Uribe é a opinião sobre as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O grupo nasceu como uma guerrilha revolucionária, que luta pela implantação do socialismo na Colômbia. Mas, com o tempo, as Farc passaram a ser ligadas aos cartéis narcotraficantes, ganhando status de grupo narcoguerrilheiro.
Uribe governou a Colômbia sob o objetivo claro de exterminar a organização, por vezes acusado cometer crimes contra dos direitos humanos, como tortura e humilhação, para liquidar o grupo.
Surpreendentemente, a CIA, agência de espionagem dos EUA, afirmou em 1991 que Alberto Uribe, pai do presidente colombiano, era um narcotraficante e foi assassinado por seus vínculos com a droga. Na ocasião, guerrilheiros das Farc tentaram sequestrá-lo, enquanto Álvaro Uribe estudava na famosa universidade americana de Harvard.
Já Chávez sustenta que o grupo tem um projeto político legítimo, que assemelha ao seu próprio socialismo bolivariano. Ele chegou a propor, em 2008, a retirada do nome das Farc da lista de grupos terroristas internacionais, sem muito apoio.
Tentativa de conciliação
Mesmo divergentes sobre a atuação das Farc, Chávez e Uribe fizeram uma tentativa de ajuda mútua na questão.
Em agosto de 2007, por intermédio da senadora colombiana Piedad Córdoba, Hugo Chávez se tornou mediador do governo da Colômbia e a guerrilha. Após um processo lento, e com acusações entre os dois lados, Álvaro Uribe deu um prazo até o final do ano para que houvesse resultados.
Chávez reagiu chamando Uribe de traidor e mentiroso, querendo “incendiar o continente” e o ser o “porta-voz da oligarquia antibolivariana”.
Desde então, a relação entre os dois presidentes só piorou. Com pontes fechadas à passagem de guerrilheiros, o comércio entre as nações desabou R$ 6,6 bilhões (US$ 3,9 bilhões) entre 2008 e 2009.
Outro ponto alto da divergência entre os dois países ocorreu durante em 2008. Naquele ano, militares colombianos invadiram o território do Equador para matar o líder das Farc Raúl Reyes. Chávez usou duras palavras contra Uribe e chegou a mobilizar tropas para, segundo ele, proteger seu território.
O Equador, cujo presidente Rafael Correa é um tradicional aliado de Chávez, rompeu relações com a Colômbia naquela ocasião.
Intenções incertas
Há quem interprete as acusações de Uribe nos últimos dias contra a Venezuela como um desconforto frente à autonomia de seu sucessor, ao anunciar uma reaproximação. Segundo essa visão, ele correria o risco de perder espaço na vida política do país e usou os vínculos das Farc com a administração chavista como pretexto para reanimar as diferenças.
Outra hipótese é a de que Uribe quis dar continuidade ao projeto de extermínio das Farc com a posse do novo presidente, seu ex-ministro da Defesa, conhecido pelo mesmo estilo linha dura e combate às guerrilhas.
Países latino-americanos, como o Brasil e a Argentina, já entraram como mediadores para pacificar a situação, mas a “guerra de palavras” entre Colômbia e Venezuela ainda não terminou.
Em declarações à imprensa, o assessor da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse que o Brasil quer articular um pacto militar entre os dois países para monitoramento da fronteira.
Na próxima quinta-feira, a Unasul (União das Nações Sul-Americanas) se reúne para discutir a crise entre os dois países. O secretário-geral da entidade, o ex-presidente Argentino Néstor Kirchner, visita Caracas no próximo dia 5 de agosto. No dia seguinte, é a vez de Lula encontrar-se com o líder venezuelano em sua capital
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