27 de Maio de 2012
Indústria dos jogos movimenta bilhões e é uma das mais bem reguladas do mundo
O paquistanês Mazhar Majeed é autor de uma proeza da qual não pode se orgulhar. Vendeu a honra da seleção de críquete do Paquistão por R$ 480 mil (150 mil libras esterlinas) e mexeu com uma das maiores tradições dos britânicos: as apostas.
Ao aceitar o dinheiro de um repórter disfarçado do tabloide britânico News of the World, Majeed - que seria intermediário de ao menos dois jogadores da seleção paquistanesa - prometeu que os atletas cometeriam determinado número de faltas durante uma partida contra a seleção inglesa disputada em Londres. O compromisso foi cumprido à risca.
O esquema foi gravado em vídeo e revelado pelo jornal no dia 29 de agosto. Desde então, a polícia britânica tenta limpar a imagem do críquete - um dos esportes mais tradicionais do Reino Unido, similar ao jogo de rua conhecido como taco ou bets no Brasil - para garantir também a lisura da indústria de apostas, que movimenta bilhões de reais no país e é considerada uma das mais bem reguladas do mundo.
Kate Miller, gerente de relações públicas da William Hill PLC, uma das mais importantes empresas de apostas e jogos do Reino Unido, diz que o episódio serviu para aumentar ainda mais o interesse dos britânicos pelo assunto.
- Posso dizer que vimos aumento do interesse do público nas apostas dos jogos de críquete.
Para Kate, a revelação do esquema para favorecer apostadores não chegou a afetar a credibilidade das empresas do ramo, que são reguladas pela Comissão de Jogos e Apostas do Reino Unido.
- As empresas são muito cuidadosas porque o próprio negócio depende da credibilidade do processo. Além disso, a comissão reguladora é muito séria.
Maioria dos britânicos joga ou aposta
Segundo a Comissão de Jogos e Apostas do Reino Unido, cerca de 70% dos adultos britânicos - ou 33 milhões de pessoas - apostam ao menos uma vez por ano, seja em esportes, seja em jogos eletrônicos ou loterias. Só as corridas de cavalo mobilizam 17% dos moradores do Reino Unido.
Para Adrian Scarfe, diretor de treinamento clínico e desenvolvimento da GamCare, organização britânica que oferece ajuda a viciados em apostas, o escândalo do críquete ganhou enorme repercussão porque mexeu com uma verdadeira instituição britânica.
- No Reino Unido - e não só aqui, é bom que se diga - as apostas fazem parte da tradição. Há muitos anos que esportes a apostas andam juntos.
Dados do governo mostram que cerca de 0,6% dos adultos britânicos - por volta de 284 mil pessoas - têm algum tipo de problema com a jogatina. Para Scarfe, o fato de a indústria ser altamente regulada é uma vantagem.
- Nós não somos contra a indústria de apostas. As próprias empresas querem ficar longe de problemas porque, quanto mais honesto e correto for o negócio, mais e melhores apostadores elas terão.
No entanto, apesar do cenário relativamente favorável, pesquisas recentes do governo mostraram que a maioria dos britânicos tem uma "atitude negativa" em relação à jogatina. A visão é que os jogos mais prejudicam do que beneficiam os indivíduos. Ao mesmo tempo, os cidadãos continuam a acreditar que as pessoas devem ter o direito de jogar, e que essa indústria não deve ser proibida.
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