02.mar.2010/Ricardo Moraes/ReutersSecretária de Estado americana, Hillary Clinton, chega a Brasília; para especialista, visita é amistosa, apesar do “fardo diplomático”
27 de Maio de 2012
Hillary Clinton encontra Lula nesta terça-feira para tratar de "temas espinhosos"
A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, desembarcou em Brasília nesta terça-feira (2) pouco antes de 19h com “fardos” em sua bagagem diplomática.
Os principais temas da agenda de Hillary no país serão a questão nuclear iraniana, a aproximação do Brasil com o país do Oriente Médio e o reconhecimento do novo governo hondurenho, além de assuntos que envolvem países como Cuba e Venezuela.
Hillary também deve preparar a possível viagem do presidente dos EUA, Barack Obama, ao país. A secretária de Estado, que adiantou sua visita ao Brasil devido ao terremoto no Chile, vai se encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, nesta quarta-feira (3).
Apesar dos temas espinhosos, os americanos não querem “colocar o Brasil nas rédeas”. Para a diretora do Conselho Independente de Política dos Estados Unidos para a América Latina, Shannon K. O’Neil, os EUA falam com o país como parceiros.
Ainda hoje, Hillary viaja para São Paulo, onde visitará a Universidade Zumbi dos Palmares, criada com direcionamento especial para o público afro-descendente.
Leia a entrevista completa com Shannon:
R7 - Como você classificaria as relações entre EUA e Brasil? Elas são boas, médias, tem o que melhorar?
Shannon K. O’Neal - As relações entre EUA e Brasil não são estreitas, mas são amistosas. Eles dividem parte da história, colaboram em muitas coisas, mas nunca foram países muito próximos. No entanto, eles se respeitam. Hoje em dia os EUA estão mais preocupados com os problemas de outras regiões do mundo do que com as Américas. Da parte do Brasil, vocês são cautelosos em ficar muito próximos dos EUA. O Brasil está se tornando um ator mundial e quer ser independente e a posição do Brasil não é só em relação aos americanos, mas também em relação a outras potências.
R7 - E isso pode mudar na gestão do atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama?
O’Neal - Há uma boa oportunidade de parceria entre Brasil e EUA, mas eu não acho que os países vão ficar mais próximos na gestão Obama. Há vários temas nos quais EUA e Brasil devem trabalhar juntos, como o Haiti, e a regulação dos mercados financeiros, já que os dois países são parte do G20. Há ainda o aquecimento global, que precisa de um acordo nos próximos anos. Tem muita coisa para se trabalhar junto.
R7 - O Brasil apóia o programa nuclear iraniano, que os EUA acusam de ter fins de guerra. Essa é uma forma do Brasil exercer a independência que você citou?
O’Neal – O Irã será um tema importante na agenda de Hillary Clinton no Brasil, mas não diria que este seria o ponto mais importante. Vemos, nesse tema, é que não só os EUA, mas também outros países, como a Rússia, estão começando a mudar suas posições em relação ao Irã, por causa das novas informações sobre o programa nuclear iraniano, divulgadas pela Agência Internacional de Energia Atômica. Então, esta será uma discussão franca entre os dois países. Os EUA vão tentar persuadir o Brasil a mudar sua posição, dando informações mais detalhadas sobre o tema. E eu estou certo de que o Brasil vai opinar e, quem sabe, podem ter um papel construtivo nesse tema.
R7 - O Brasil pode se tornar, de fato, um canal de diálogo com Teerã para os americanos como alguns analistas dizem?
O’Neal - Eu acho que isso é muito difícil. No entanto será um tema que Lula, Amorim e Hillary vão falar, já que o Brasil é membro temporário do Conselho de Segurança na ONU, que deve discutir sanções ao Irã nas próximas semanas.
R7 - O Brasil tem algo a ganhar com isso?
O’Neal - Acho que o Brasil, como país emergente, com poder nuclear, quer continuar a desenvolver seu programa de maneira independente. Obviamente o Brasil é signatário de muitos tratados e desenvolve um programa pacífico. O Irã também quer ter mais liberdades. Isso são coisas em comum, mas não há muito além disso. Não há grande interesse econômico, nem acesso ao petróleo iraniano. Parece ser mais um interesse estratégico. O Brasil não é uma questão de preocupação neste caso. O Brasil já fez a opção por uma agenda pacífica.
R7 - Como você vê o papel do Brasil na América Latina? Na última semana, os líderes dos países americanos criaram, no México, uma nova organização, a Comunidade da América Latina e do Caribe, apelidada de "OEA latina" ou “OEA do B”, já que exclui os EUA e o Canadá. Os EUA se ressentem disso?
O’Neal - O Brasil é uma liderança emergente. Isto é visto no Haiti, também vimos na crise de Honduras. Ao fim, essa organização sem os EUA e o Canadá foi desenhada para resolver problemas regionais. Isto será bom para a América Latina, será bom para o Brasil, que afirmará sua liderança, e será bom ao fim para os EUA, já que muitos dos problemas da região não tem nada a ver com os EUA. Então será bom que esses problemas sejam resolvidos pelos próprios latino-americanos. Mas não acho que só EUA estão ressentidos. Não é uma organização anti-americana. Quando os EUA têm de resolver coisas ao redor do mundo, isso ajuda, são menos problemas para os americanos.
R7 - O Brasil é um país emergente, um Bric, que afirma um novo papel no mundo. Os EUA veem o Brasil de forma diferente agora ou vocês americanos ainda nem notaram isso?
O’Neal - Acho que nos últimos dez anos os EUA reconhecem que o papel do Brasil no mundo mudou. Primeiramente por razões econômicas. Brasil sofreu muitas dificuldades como inflação e baixo crescimento. Como o real e a estabilidade, vemos crescimento. Além disso, o Brasil tem um papel importante em instituições como o G20, na regulação dos mercados financeiros, e em assuntos como o aquecimento global. Isso ficou evidente da Conferência do Clima em Copenhague. O Brasil era um dos últimos países a ficar na mesa, junto com a China, a índia e os EUA. E não apenas os EUA, mas os outros países também percebem isso.

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