Juan Karita/ 17.11.2006/APCocaleira boliviana Antonia Paillo segura neta enquanto observa soldados desmatar sua plantação; repressão era maior antes da posse de Evo Morales
27 de Maio de 2012
ONU aponta grande aumento na área plantada do país governado por Evo Morales
O crescimento das plantações de coca na Bolívia, apontado por um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas) divulgado nesta semana, expôs ainda mais o dilema vivido no país presidido por Evo Morales. Ali, o consumo diário da folha de coca, enraizado na cultura da população de maioria indígena, se confunde com o utilizado pelo tráfico de drogas internacional.
O Relatório Mundial sobre Drogas 2010, lançado na última terça-feira (22) pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNOCR, na sigla em inglês), confirma o crescimento da área plantada desde o começo do século 21. De 2001 para 2009, a área plantada de coca aumentou 44%, atingindo aproximadamente 30,9 mil hectares de acordo com o relatório. Trata-se de uma porção muito maior do que a permitida pela própria lei boliviana, que é de 12 mil hectares.
Recentemente, a Bolívia foi alvo de críticas ácidas do candidato do PSDB à Presidência, José Serra. Ele disse que o governo de Morales, um indígena que cresceu politicamente representando os plantadores de coca, "é conivente com a exportação de drogas para o Brasil", o que "acaba com a vida de nossos jovens".
Morales também se envolveu em uma polêmica com os Estados Unidos em 2008, quando resolveu expulsar do país a agência americana antidrogas (DEA), acusando-a de trabalhar contra o seu governo.
Mas duas realidades - a do consumo local e a do tráfico de drogas - devem ser separadas para se entender o significado da coca no terceiro maior fornecedor de cocaína do mundo (atrás Colômbia e Peru), com quase 20% de todo o cultivo na região dos Andes.
Lei que legaliza plantações está defasada
A lei que determina cotas para plantações legais de coca, de 1988, foi baseada em um estudo já defasado feito pelo órgão americano DEA, definindo que 10% da produção na Bolívia eram destinadas para o consumo tradicional.
Quem explica esse contexto é a boliviana e professora da Escola de Gestão e Políticas Públicas da USP (Universidade de São Paulo), Vivian Urquidi.
- Assim, os produtores da folha têm um argumento legítimo [fundamentado em dados desatualizados] para sustentar a produção, mesmo sabendo que boa parte dela vai para o circuito do narcotráfico.
Em entrevista ao R7, o representante do escritório da UNOCR na Bolívia, Cesar Guedes, disse que a ONU (Organização das Nações Unidas) e a comunidade internacional esperam agora os resultados de um novo estudo realizado pelo governo boliviano. Ele deve determinar a quantidade exata necessária para o consumo legal.
Esse uso histórico e cultural, foco dos novos estudos, acontece de duas formas no país, segundo Vivian: de maneira individual, pela mastigação ou o consumo da folha com água quente - o famoso mate de coca -, e comunitária, em rituais indígenas.
- Mais recentemente a folha também ganhou status de símbolo de resistência e soberania, motivo pelo qual se dissemina, por exemplo, em algumas camadas das classes médias.
Combate da cocaína também está em leis de mercado
Apesar dos esforços do governo e de comunidades indígenas para preservar a “cultura da coca”, a verdade é que seu subproduto mais importante continua sendo a cocaína, imbatível no alto valor agregado no mercado se comparado com outros cultivos.
Embora sem estimativas exatas sobre a lucratividade do tráfico de drogas, as plantações de coca correspondem a 2% do PIB (Produto Interno Bruto) da Bolívia (R$ 22,1 bilhões), e 19% do PIB do setor agrícola (R$ 3,2 bilhões) segundo o relatório da UNOCR.
Essa é a principal justificativa para o crescimento sem parar das plantações de acordo com Argemiro Procópio Filho, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).
- A coca na ilegalidade rende muito mais do que qualquer outro produto na Bolívia. É preciso um governo muito corajoso para interromper esta lucratividade.
Na mesma linha, Guedes acredita que a franca expansão está relacionada com os níveis de pobreza dos agricultores bolivianos.
- É muito difícil substituir o cultivo da folha de coca por outros alternativos, principalmente por razões de mercado.
O professor da UnB sugere que o governo, atualmente liderado pelo presidente Evo Morales, deveria fixar preços justos para produtos como feijão, arroz e soja.
Aliado ao controle de mercado, o representante da ONU, Cesar Guedes, acredita que o governo também deve melhorar os níveis de apreensões da coca que flui através do país sem autorização.
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