27 de Maio de 2012
Quase um ano após terremoto, Médicos Sem Fronteiras não veem melhoras no país
Às vésperas do primeiro aniversário do terremoto no Haiti, a resposta à pior tragédia natural dos últimos 200 anos ainda está reduzida a soluções de curto prazo, sem um plano consistente de reconstrução nem o comprometimento do governo local. A análise é da organização humanitária Médico Sem Fronteiras (MSF), que anunciou nesta segunda-feira (10) a continuidade da maior mobilização da história da ONG por mais um ano – sem previsão de saída.
Em uma teleconferência com jornalistas, o coordenador das atividades do MSF no Haiti, o italiano Stefano Zannini, disse que a situação global no país não melhorou, apesar da ajuda humanitária e financeira sem precedentes.
- Um ano depois do terremoto, era hora das agências humanitárias saírem de cena, ficar em segundo plano e partirem para outros desastres. Mas a realidade é que os haitianos ainda estão fortemente dependentes dos serviços médicos do MSF.
Para exemplificar a carência e falta de liderança no país, Zannini lembrou que, em um ano, nenhum hospital foi construído pelo governo. Enquanto isso, só o MSF abriu cinco novos hospitais e financiou a reforma de outras duas estruturas do Ministério da Saúde, que já existiam em Porto Príncipe.
Do dia do terremoto, em 12 de janeiro de 2010, ao final de outubro do mesmo ano, a organização tratou mais de 358 mil pacientes.
- É incrível perceber a quantidade de pacientes ainda estamos atendendo. Gostaria de ver os haitianos na linha de frente na reconstrução, e nós em segundo plano para ajudá-los. Infelizmente, isso ainda não acontece.
Dinheiro não é problema
Para o médico indiano Unni Karunakara, presidente internacional do MSF, cuja sede fica em Genebra, a situação ainda caótica do Haiti não pode ser justificada pela falta de dinheiro. Segundo ele, a falha está em projetos para gastar os milhões doados para a reconstrução e comprometimento da administração local.
- Pouco tempo depois do terremoto já percebemos que os planos de reconstrução não eram muito claros. Isso foi uma preocupação, mas nossa prioridade é salvar vidas.
Karunakara deixa claro que a atuação das organizações humanitárias é voltada a ações paliativas, no máximo de médio prazo. Para isso, o MSF conseguiu levantar o maior orçamento da sua história: foram R$ 233 milhões (US$138 milhões), dos quais 60 % haviam sido gastos até outubro.
- Metade do orçamento do Haiti hoje vem de fora. Verba existe, faltam regras sobre como aplicar esse dinheiro e maior responsabilidade do governo haitiano.
Sobre o assunto, Zannini complementou dizendo que em apenas quatro oportunidades as comissões haitianas consultaram o MSF.
- É suficiente? Não é.
Assista ao vídeo mostrando a atuação do MSF na epidemia de cólera no país, em outubro de 2010.
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