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publicado em 05/09/2011 às 07h42:

Guerra ao terror após o 11 de Setembro jogou
EUA na pior crise econômica desde 1929

País já gastou mais de R$ 2,1 trilhões com batalhas e agora luta para sair do buraco

Marcel Gugoni, do R7


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“É muito mais importante concentrar os esforços na economia do que continuar a fazer aventuras militares no exterior”. É isso o que o historiador Eric Hobsbawm defende ao falar das ações militares dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Crise abriu espaço para Brasil e China

Apesar de parecer um conselho dado neste ano, quando qualquer boato sobre uma nova recessão nos EUA é capaz de derrubar as Bolsas de Valores em todo o mundo, a frase do pesquisador britânico faz parte de uma conferência apresentada em 2007, quando ninguém imaginava que o país viveria sua pior recessão desde o crash de 1929.

Dez anos após os ataques com aviões ao World Trade Center e ao Pentágono, que deixaram cerca de 3.000 mortos, é impossível dizer que a atual situação da economia americana não tem relação com os desdobramentos da guerra ao terror.

Pelo contrário: o enorme endividamento do país tem muito a ver com as decisões do ex-presidente George W. Bush (2001-2009) sobre as prioridades de gastos do governo americano.

O Serviço de Pesquisa do Congresso estima que as duas frentes de batalha, no Iraque e no Afeganistão, já custaram R$ 2,1 trilhões (US$ 1,3 trilhão) até agora – e o número não para de subir. Em 2001, antes dos ataques do 11/9, o dinheiro destinado à defesa pelos EUA era de R$ 495 bilhões (US$ 304 bilhões). Em 2008, no último ano do governo Bush, esse montante havia mais do que dobrado, passando a mais de R$ 1 trilhão (US$ 616 bilhões).

Os valores foram convertidos do dólar para o real pela reportagem do R7 a partir do preço da moeda americana na sexta-feira (R$ 1,63).

A fatia da dívida americana em relação a todas as riquezas geradas no país passou de 56,5%, dez anos atrás, para 92,2%. O número é tão preocupante que o governo de Barack Obama precisou lutar no Congresso para elevar o teto da dívida a fim de que o país não desse um calote, no começo de agosto. Isso nada mais foi do que a herança de gastos militares excessivos deixada ao atual presidente pelo antecessor.

O historiador Melvyn P. Leffler, da Universidade da Virginia, afirmou em um artigo publicado na edição mais recente da revista americana Foreign Affairs que o endividamento com as guerras minou a economia americana como um todo.

- Parece claro hoje que muitas das iniciativas da política externa [do governo Bush], somadas às medidas de cortes de impostos e à inabilidade de realizar sacrifícios domésticos, minaram a maior parte das medidas que visavam a alcançar. A liderança dos EUA foi erodida pelas dívidas crescentes, resultado da diminuição de taxas [para os ricos] e do aumento dos gastos domésticos.

O britânico Eric Hobsbawm afirma que, em algum momento, a população iria pagar a conta pelas decisões de Bush. No livro Globalização, democracia e terrorismo (Companhia das Letras, 2007, R$ 40,50), ele diz que o governo do político republicano nunca teve uma “política econômica adequada para os Estados Unidos”.

- Não é provável que os Estados Unidos consigam prosseguir com seus ambiciosos projetos internacionais e lidar, ao mesmo tempo, com sérios problemas internos. A fragilidade da economia americana é tal que em algum momento tanto o governo quanto os eleitores americanos chegarão à conclusão de que é muito mais importante concentrar os esforços na economia do que continuar a fazer aventuras militares no exterior. Ainda mais porque essas intervenções terão de ser pagas, sobretudo pelos contribuintes.

Arrecadação diminui

Uma das propostas da campanha de Bush para a Presidência, em 2000, era diminuir os impostos dos mais ricos. A medida, que pesou a favor dele na eleição e lhe ajudou a garantir a vaga na Casa Branca, foi cumprida e diminuiu a arrecadação federal ao longo do tempo em que ele foi presidente.

Leffler, da Universidade da Virginia, diz que o orçamento americano foi de um superávit de R$ 208 bilhões (US$ 128 bilhões), em 2001, para um déficit de R$ 746 (US$ 458 bilhões) em 2008. E esse número ainda não considera sequer os efeitos da quebra do banco Lehman Brothers, o marco do início da crise mundial de 2008 (a pior desde 1929), sobre a grana do país.

O economista Paul Singer, secretario nacional da economia solidária do governo Dilma Rousseff e professor da FEA (Faculdade de Economia e Administração), da USP (Universidade de São Paulo), disse ao R7 que os EUA passaram a ter déficits bem maiores na administração Bush do que na época de Bill Clinton (1993-2001), que tinha praticamente eliminado a dívida pública e elevado a arrecadação com crescimento econômico.

- O Bush fez leis que reduziram a tributação aos mais ricos, na vã esperança de que eles gerariam empregos, investiriam esse dinheiro que deixariam de pagar como impostos. Mas isso não se verificou.

Singer explica que houve, sim, crescimento da economia americana no período, baseada na ampliação do crédito ao consumidor. O consumo interno é o que move o país - sozinhos, os gastos das famílias respondem por cerca de 70% do PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas produzidas por lá).

gráficoOs bancos elevaram sem parar a grana disponível ao setor imobiliário, ao mesmo tempo em que diminuíam as exigências de histórico de bom pagamento dos consumidores. Chegou-se a conceder aos compradores um empréstimo equivalente a 120% do valor do imóvel para as hipotecas. Aqui no Brasil, por exemplo, o máximo que os bancos financiam não passa de 70%.

A ideia era uma só: fazer o consumo rodar para manter as contas do governo o mais próximo possível do sustentável, já que as operações no exterior estavam saindo bastante caras. Mas arrecadação menor leva a mais dívidas, invariavelmente.

Ocorreu que, em algum momento, a conta iria aparecer. É como o caso do trabalhador que gasta mais do que ganha e tem de sobreviver à custa do limite do cartão e de empréstimos para manter as contas em dia.

Renato Colistete, professor de história econômica da FEA-USP, afirma que a dívida contraída pelos EUA para combater os insurgentes extremistas no Oriente Médio e na Ásia custou mais do que o governo Bush previa ao decidir declarar guerra. E hoje paga-se por ter entrado nessa briga sob o apoio total da opinião pública.

- O efeito de curto prazo dos ataques foi bastante relativo. O mercado ficou paralisado por uma semana, houve queda nas negociações da Bolsa e prejuízo em ações de empresas aéreas, por exemplo. Mas o principal é que houve uma elevação muito grande da dívida pública. Ao iniciar uma guerra, o governo teve apoio dentro do Congresso e da maior parte da opinião pública para aprovar os aumentos com gastos militares.

Ele defende que a economia americana passa, hoje, por uma crise de confiança parecida com a vista no começo dos anos 1970.
- Na Guerra do Vietnã [1959-75] houve uma crise fiscal parecida, que elevou a dívida pública a níveis altíssimos. Os padrões da época eram bem menores, mas o conflito acabou levando a uma perda de credibilidade da economia americana. Houve então a queda do padrão dólar, em 1971, e, depois, a crise do petróleo, em 1973. As duas causaram no mundo uma enorme desconfiança na economia americana.

China cresce

A desaceleração dos EUA foi o que moldou o mundo após o 11 de Setembro, do ponto de vista econômico. Hobsbawm escreve que a guerra abriu espaço ainda maior para a dominação do comércio mundial pela China, que hoje já é a segunda maior economia do mundo. Em 2001, antes do ataque, o país ainda não havia superado as riquezas da Alemanha nem as do Japão.

- Os EUA já não são um grande exportador de bens e capitais e pagam pela alta demanda de bens que já não podem produzir, contraindo dívidas com os novos centros da indústria mundial. É o único caso de um grande império que também é um grande devedor. O fenômeno global é que sua economia sempre esteve em débito. A supremacia dos Estados Unidos não pode deixar de ser agudamente vulnerável ao seu declínio relativo e à transferência do poderio industrial, do capital e da alta tecnologia para a Ásia.
Leffler aponta que os títulos da dívida americana na mão de investidores estrangeiros saltaram de 13%, no final da Guerra Fria (1945-91), para mais de 30% no fim da Era Bush.

- Em vez de evitar que competidores de ponta crescessem, as intervenções dos EUA no exterior e as preocupações orçamentárias e econômicas internas colocaram Washington em uma crescente desvantagem frente aos seus rivais, sobretudo Pequim.

Colistete afirma que, da forma como a economia chinesa vem caminhando desde o final dos anos 1990, seria difícil que ela não se aproximasse dos EUA. A questão seria a forma como ela faria essa aproximação.

- A China ocuparia a posição da mesma forma. Ela ganhou destaque com seu avanço acelerado, irreversível, porque crescem a taxas de mais de 10% há vários anos. [O terrorismo] não estimulou a China. Bush deixou o esqueleto no armário porque se endividou em uma época de bonança, quando o ideal seria ter tido superávit para reinvestir e elevar a receita. No governo Obama, esse aumento da dívida é justificável por causa da economia para enfrentar a crise, mas com Bush essa política militarista agravou o desequilíbrio fiscal nos EUA que acabou estourando lá na frente. E isso deu mais espaço aos emergentes.


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