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publicado em 31/01/2010 às 08h33:

Hugo Chávez bate cabeça no labirinto que criou

Historiador venezuelano diz que estilo centralizador é armadilha para o próprio presidente

Lucas Bessel e Maurício Moraes, do R7

Para o venezuelano Fernando Coronil, o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, se debate no meio de um grande labirinto que ele mesmo criou.

Chávez, que liderou um golpe fracassado em 1992, chegou ao poder há 11 anos, prometendo refundar a Venezuela. Mudou o nome do país em homenagem ao libertador Simón Bolívar, concentrou quase todos os poderes, silenciou a oposição fechando TVs e rádios. Com o cofre cheio com dinheiro de petróleo, implantou generosos programas sociais, ganhando o apoio dos venezuelanos mais pobres, no que chamou de "socialismo do século 21".

Passado o pior da crise mundial, a Venezuela patina. O país está em recessão e sofre um sério apagão. A moeda foi desvalorizada, e a inflação segue galopante. Enquanto isso, Chávez fala em planos de invasão americana, fecha mais TVs e vê colaboradores próximos saírem em disparada: na última semana, o vice-presidente, uma ministra e o presidente de um banco estatal pediram demissão.

Para Coronil, professor emérito da Universidade de Michigan, PhD em Antropologia, ex-aluno de Stanford, já dá para pensar no pós-Chávez. O líder "se enfraquece mas sabe reagir", diz. Mas, para Coronil, as mudanças virão pela democracia. Ao R7, ele diz que a oposição aprendeu que os golpes não são a solução. Veja trechos da entrevista:

R7- O escritor Gabriel Garcia Márquez relata no livro "O General em Seu Labirinto" os últimos e tristes dias do herói da independência Simón Bolívar, o guru de Hugo Chávez. Pode-se dizer que o atual presidente venezuelano também vive seu labirinto?

Fernando Coronil - Certamente. Chávez diz lutar pela "segunda independência" da América Latina, mas este projeto é um labirinto em que muitos entraram e poucos saíram. Diferente de Bolívar, exilado e doente [no livro] após uma vida cheia de triunfos, Chávez está vivo e com plenos poderes, só que com mais promessas que triunfos para contar. Chávez só vai encontrar caminhos abertos quando sua promessa de promover uma democracia participativa se tornar realidade. Enquanto todas as decisões estiverem em suas mãos, Chávez continuará sendo o arquiteto de seu próprio labirinto.

R7- A renúncia do vice-presidente, a desvalorização da moeda, a inflação e o apagão significam que o tal "socialismo do século 21" de Chávez começa a desmoronar?

Coronil - Uma mesa precisa de quatro pernas para se manter em pé. Tem mesa que se aguenta com três pernas, se todas estiverem balanceadas. A saída de muita gente competente, a divisão do país entre bons e maus, a criminalidade, a incompetência e a corrupção estão enfraquecendo a Venezuela. Quando falta comida e luz elétrica, esta mesa não aguenta nem com quatro pernas. Melhor usá-las como lenha. Para a maioria dos venezuelanos, o "socialismo do século 21" era uma promessa de uma sociedade de bem-estar, com a diferença que Chávez também oferecia inclusão política. Mas seu governo não atende nem as necessidades básicas. Creio que a queda de sua popularidade vai aparecer no resultado das eleições parlamentares de setembro.

R7- O que mais enfraqueceu o governo Chávez? A queda nos preços do petróleo?

Coronil - Os preços caíram mas continuam altos, cerca de US$ 70 (R$ 132) o barril [foi US$ 148 no auge e caiu para US$ 30 após o estouro da crise]. O governo não tem sofrido tanto pela falta dos petrodólares, mas por seu mau uso. Uma vez mais, o que eu chamo de "doença neocolonial" afetou perversamente a Venezuela: mais de US$ 900 bilhões (cerca de R$ 1,7 trilhão) entraram no país arruinando a produção [industrial], alimentando apetites personalistas e semeando ineficiência. Na Venezuela, o sonho do petróleo continua sendo um pesadelo.

R7- Chávez aguenta quanto tempo? É possível que o derrubem com um golpe?

Coronil - Ele se enfraquece, mas sabe reagir. Pode recuperar a popularidade e ganhar as próximas eleições. É difícil saber o que acontece nas Forças Armadas, mas não acho que haverá golpe. Acho que a oposição aprendeu que os golpes não são a solução. Por outro lado, acho que Chávez exerce um bom controle sobre o Exército. No entanto, se cresce a violência nas ruas e se aumentam as dificuldades econômicas, algo inesperado pode ocorrer. Os apagões podem detonar conflitos, já que afetam desde a segurança do dia a dia até a produção industrial.

R7- Independentemente de como Chávez deixe o governo, o que vai acontecer na Venezuela pós-Chávez? A oposição está preparada para governar?

Coronil - Na Venezuela há um clima de mudança. As riquezas materiais, espirituais e profissionais do país fazem possível que tanto o governo quanto a oposição consigam governar, mas com uma condição: que não lutem entre si e esmaguem a outra parte. Como há uma divisão na Venezuela, temo que o poder, de onde quer que venha, seja exercido de maneira extrema. Aconteça o que acontecer, o processo atual leva a uma luta por maior inclusão e pluralidade [política]. A oposição e o chavismo começam a se dar conta disso. Há um desgaste social que faz necessária a busca de harmonia. E o próprio chavismo, com suas virtudes e defeitos, ensinou que não existe harmonia social em uma sociedade com profundas desigualdades.

venezuela protesto g

(Foto: Miguel Gutierrez - 28.01.2010/AFP - Estudantes protestam em Caracas contra o segundo fechamento da RCTV)

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