Juan Barreto/AFPEstudantes protestam em Caracas contra o fechamento da RCTV; o canal a cabo se negou a transmitir os intermináveis discursos do presidente
27 de Maio de 2012
Recessão, apagão e censura dividem a Venezuela e promovem debandada do governo
A mulher de Carrizáles, Yubirí Ortega, ministra do Ambiente, também renunciou. Ambos alegaram motivos pessoais, mas rumores de atritos entre Chávez e Carrizáles já corriam antes da renúncia. No dia seguinte foi a vez do titular do Banco da Venezuela, Eugenio Vázquez Orellana, se demitir.
Para deixar a situação de Chávez ainda mais sombria, a Venezuela enfrenta uma grave crise energética, com apagões diários e a redução das horas de trabalho em algumas empresas. Chávez chegou a pedir que os venezuelanos evitassem longos banhos.
No plano econômico, a queda nos preços do petróleo e a crise global forçaram o governo a tomar medidas amargas, mas pouco efetivas, como a desvalorização da moeda local diante do dólar, que levou à inflação.
Nas ruas de Caracas, confrontos entre manifestantes a favor e contra Chávez deixaram dois estudantes mortos na semana passada. Os protestos ocorreram após o fechamento da rede de televisão RCVT e de outros canais a cabo. Nas última semanas, Chávez também decretou o fechamento de oito bancos e de mais de 600 lojas, acusadas de "especulação".
Mau momento reflete ineficácia do governo
Para Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unesp, o mau momento de Chávez reflete a ineficácia do governo em atacar problemas crônicos do país, como a dependência econômica do petróleo:
- A crise econômica e a repressão contra os meios de comunicação levam a uma clara polarização entre aqueles que são a favor e os que são contra Chávez.Para a professora, é pouco provável que a tensão atual leve a um golpe de Estado, já que "a Venezuela tem um sistema eleitoral democrático". Cristina diz que isso pode fortalecer a oposição para as eleições parlamentares deste ano ou para a escolha presidencial de 2011. Ela diz, no entanto, que mesmo os partidos de oposição estão perdidos dentro da crise:
- A oposição venezuelana ficou com uma postura altamente negativa e crítica, mas sem apresentar uma agenda de propostas, de soluções. Ela também não tem, por enquanto, uma figura central que possa fazer frente a Chávez.
Regime pode ficar mais autoritário
Em sua atual edição, a respeitada revista The Economist traz um artigo dizendo que Chávez reage aos problemas adotando uma postura cada vez autoritária, "preocupando-se cada vez menos em manter [o regime com] uma aparência de democracia".
O pacote de más notícias para Chávez inclui a queda de sua popularidade, que já foi quase incontestável. No fim de 2009, uma pesquisa do instituto Datanálisis mostrou que 53,8% dos venezuelanos desaprovavam o governo do presidente.
Segundo a revista, "a determinação do presidente para se agarrar ao poder e a intolerância em relação aos dissidentes tem solapado sua popularidade e, se ele for mal nas próximas eleições, deve enfraquecer seu governo".
A Economist cita o artigo de um antigo aliado de Chávez, o jornalista Vladimir Villegas, agora na oposição. Ele diz que o presidente "caiu na armadilha do sistema autoritário que ele criou", dizendo que Chávez já não é muito diferente dos governos anteriores que ele tanto criticava.

(Foto: Miguel Gutierrez/AFP - Partidários de Chávez se reúnem para dar apoio ao presidente venezuelano)
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