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publicado em 11/09/2011 às 05h30:

Lembranças do 11 de Setembro ainda castigam
familiares das vítimas brasileiras da tragédia

Por dez anos, a data permanece sendo um dia de dor para quem ficou no Brasil e nos EUA

Paula Resende, do R7


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Há exatamente dez anos, um grupo de radicais islâmicos derrubou o complexo de edifícios do World Trade Center, em Nova York, e atingiu o coração militar dos Estados Unidos, o Pentágono, em Washington. Passado uma década do terror, as lembranças do 11 de Setembro ainda castigam os familiares das vítimas brasileiras da tragédia.

Naquele 11 de setembro de 2001, o jovem Rogério Hamam foi trabalhar em uma empresa de eventos em São Paulo e lá recebeu a notícia. Mesmo sem entender o que acontecia, pegou o telefone e começou a fazer ligações. Gloria Williams, nova-iorquina do Bronx, interrompeu a preparação do café da manhã para acordar o marido, quase que à força. Já o médico Ivan F. Barbosa atendia em sua clínica, no bairro paulistano da Bela Vista, quando sua secretária interrompeu a consulta e ligou a televisão.

Mande o seu recado para os familiares das vítimas do 11/9

A história de vida desses três indivíduos tão diferentes tem em comum a mesma tragédia: a perda de pessoas queridas nos atentados terroristas de 11 de Setembro. Mesmo após dez anos, o 11/09 marcado no calendário permanece como um dia de luto para quem ficou.

Ivan é o pai de Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa, um dos três brasileiros que estavam no World Trade Center (WTC) e tiveram a morte oficialmente confirmada. É quase o único que topou a dolorosa tarefa de receber, um a um, os jornalistas interessados em sua história no mesmo consultório onde ainda fica a televisão antiga pela qual teve acesso às informações sobre aquele inexplicável 11 de Setembro.

- Falar é algo que mexe diretamente na ferida. É pesado. Mas lembrar o meu filho é resgatar 30 anos de vida boa, com acontecimentos engraçados, leves, gostosos. Os, quem sabe, 15 dias de vida difíceis se tornam poucos.

Rogério Hamam ajuda o médico na tarefa de relembrar Ivan. A vontade de homenagear o amigo de infância fez com que ele tomasse a iniciativa de instalar, na avenida 9 de Julho, em São Paulo, um monumento em homenagem às vítimas brasileiras do 11 de Setembro, que incluem também Anne Marie Sallerin Ferreira, de São Paulo, Sandra Fajardo Smith, de Belo Horizonte (MG).

- Naturalmente, homenageando Ivan iria fazer o mesmo pelas outras vítimas.

Anne Marie e Ivan trabalhavam juntos na corretora Cantor Fitzgerald, no World Trade Center. Eles se conheceram pela comunidade de brasileiros de Nova York que trabalhavam no mercado financeiro. Segundo o doutor Ivan, os dois estavam em um progresso profissional "brutal" antes dos ataques. Já Sandra era contadora e trabalhava sete andares abaixo para corretora Marsh & McLennan. 

Procurados, os familiares de Anne Marie e Sandra não toparam a dura tarefa de falar sobre o assunto. O mineiro Antônio Fajardo Filho, pai de Sandra, pediu educadamente, com a voz embargada, que não fosse mais procurado para conversar sobre a perda dela.

A mesma dificuldade também atinge as famílias das vítimas americanas, que viveram o trauma ainda mais de perto. Gloria Williams teve que falar pelo marido, que perdeu o irmão, o bombeiro Randon Cherry, durante o resgate nas Torres Gêmeas.

- Meu marido passou por dias difíceis. Por ser homem, naturalmente tem dificuldade para externar seus sentimentos. Agora, perto do aniversário de dez anos, sinto que ele tenta segurar a tristeza.

Morte, enterro e aceitação

Ao apontar o souvenir entre as fotos que ficam em sua mesa de trabalho (o mesmo da foto acima), o Ivan Barbosa contou sobre o dia em que ficou sabendo que o filho iria trabalhar no WTC.

- Ninguém sabia até ele ter sido contratado. Quando foi chamado, trouxe esse cinzeiro para mim, das Torres Gêmeas, e disse: “Pai, é aqui onde eu vou trabalhar”.

O jovem, que tinha 30 anos, tinha uma carreira promissora no mercado financeiro Tanto o pai quanto o amigo confessaram ter dificuldades até hoje para aceitar a perda dele. Rogério diz que o episódio para ele foi assustador.

- Eu já tinha perdido parentes, mas não foi a mesma coisa quando perdi o Ivan. Não sei se foi pela forma, por na época ele estar tão feliz. Foi muita tristeza, fiquei abatido. Passados dez anos, o sentimento ainda é muito forte.

Além de perder o filho, Ivan Barbosa e grande parte dos familiares das vítimas dos ataques tiveram que passar pelo trauma do “enterro sem corpo”. Isso porque a maioria dos restos mortais dos mais de 2.700 mortos nas Torres Gêmeas nunca foram encontrados.

A família de Gloria passou por três funerais. O primeiro foi simbólico, da corporação dos bombeiros que morreram nos resgates. Outro foi uma cerimônia particular, em uma igreja,  de novo sem corpo. Por fim, na primavera de 2002 (outono no Brasil) foram achados os restos mortais de Cherry e ele foi finalmente enterrado.

- Mesmo assim, não foi mais fácil de aceitar. Na verdade você aceita em sua consciência, pela razão, mas não no coração. Você simplesmente não quer.

Ivan Kyrillos Fairbanks Barbosa

Foto de arquivo mostra Ivan K. F. Barbosa já em Nova York, onde trabalhou no World Trade Center (Arquivo pessoal)

Medo, paranoia e estereótipos

A tragédia do 11 de Setembro não deixou sua marca só pelos números de mortos ou pelo poder de destruição. Ficaram também o medo, a paranoia e os estereótipos reforçados após os atentados.

Andar pelas ruas da chamada Lower Manhattan, extremo sul da ilha nova-iorquina, onde ficavam as Torres Gêmeas, faz com que seja difícil controlar as lembranças. Para Gloria, a experiência mudou profundamente o seu relacionamento com a cidade.

- Nunca mais foi a mesma coisa ir passar por Lower Manhattan. A gente vive com receio de que o pesadelo volte, de que ocorram outros ataques. Nova York está constantemente em alerta.

O medo também transforma o relacionamento com certos grupos sociais – neste caso, com os árabes muçulmanos e até com os americanos. O médico brasileiro faz questão de afirmar que não se transformou anti-islâmico, ou antiamericano, porém confessa que inconscientemente vive com medo.

- É impossível você entrar num avião, ver um cara de turbante xadrez e não pensar que pode ser algum terrorista. É algo que dividiu o mundo, acabamos rotulando um povo por três ou quatro pessoas. Você se retrai sem querer, mesmo sabendo que é besteira.

Ele se entristece ao comentar os acontecimentos posteriores, como os atentados terroristas de Londres e Madrid, as Guerras do Iraque, Afeganistão e as ações da Al Qaeda, o grupo liderado por Osama bin Laden causador da tragédia do 11 de Setembro.

- Eu tinha como consolo que o 11 de Setembro era uma desgraça tão grande que teríamos atingido o fundo do poço. Mas o que aconteceu é que o mundo continuou com grandes desgraças. Hoje são manchetes digeridas com muita facilidade.

Vítimas brasileiras - WTC 11 de Setembro

Brasileiros “não-oficiais”

Ivan, Anne Marie e Sandra são os nomes oficiais que consta na lista do governo brasileiro de vítimas do 11 de Setembro. Existem, ainda, outros três brasileiros que, segundo a prefeitura de Nova York, também teriam morrido nos ataques às Torres Gêmeas.

De acordo com o Ministério das Relações Exteriores do Brasil (Itamaraty), a lista enviada pela prefeitura na época incluía os nomes de Garnte Bailey, Maria Gabriella da Silva e Nilton Albuquerque Fernão Cunha. Os dois primeiros nunca tiveram o desaparecimento informado por amigos e familiares ao governo brasileiro.

Já o sumiço do capixaba Nilton Cunha foi alertado ao Consulado pelo seu sócio, de acordo com o Itamaraty. O governo chegou a mandar formulários para a família, a fim de emitir o atestado de óbito, mas a resposta nunca veio.

Reportagens na ocasião informaram que Cunha era engenheiro e estava no 108º andar da Torre Norte para tratar de negócios com uma empresa japonesa. O brasileiro seria despachante de importações e sempre viajava para os EUA a trabalho. Até hoje, é considerado “desaparecido”.

 


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