Thomas Coex/AFPLeogane foi a cidade haitiana mais atingida pelo terremoto, com 90% de suas construções destruídas
8 de Fevereiro de 2012

País pode voltar em cerca de cinco anos a ser o que era
O urbanista e professor da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), João Sette Whitaker Ferreira, que já esteve no Haiti, aposta em uma recuperação cara e difícil de um país que já tinha estruturas muito precárias antes de ser devastado por um terremoto de sete graus na escala Richter na última terça-feira (12) que pode ter deixado 140 mil mortos.
Em entrevista ao R7, Whitaker Ferreira ainda afirmou que os trabalhos de reconstrução devem começar em cerca de dois ou três meses. Leia a entrevista completa:
R7 - Os R$ 971 milhões (US$ 550 milhões) que a ONU quer arrecadar para o Haiti são suficientes?
João Sette Whitaker Ferreira - Sim, esses recursos serão absorvidos pelos problemas mais urgentes do país. É preciso remover escombros, resgatar vítimas, cuidar dos desabrigados e outras coisas. O que estamos vendo de ajuda humanitária é basicamente a atuação de emergência. Os termos da reconstrução ainda estão muito tímidos.
R7 - E quando o senhor prevê que começa a reconstrução do país?
Whitaker Ferreira - Só a atuação emergencial vai levar dois ou três meses. Depois disso é que vai iniciar a reconstrução. É provável que o Haiti saia da pauta da imprensa e dos grandes Estados do mundo depois desse tempo. Resta saber se o mundo vai se dispor a reconstruir um país que esteve durante décadas abandonado. Se houverem recursos para reerguer o Haiti, não vai haver reconstrução, vai haver construção das estruturas do Haiti que nunca existiram, como moradia adequada, rede de esgoto etc. Eu acho isso pouco provável.
R7 - Em cinco anos é possível que o Haiti volte a ter a infraestrutura que tinha antes do terremoto?
Whitaker Ferreira - É possível voltar ao nível pré-terremoto em cinco anos. Mas era um nível de favela, com muita pobreza. Não é muito difícil. Barracos e casebres vão voltar a serem vistos, mas isso também não é suficiente. Voltar a um nível pré-terremoto é tão pouco ou quase nada. O Haiti precisa de ter a infraestrutura que nunca teve. Depende do dinheiro que vai ser investido. Reconstruir mesmo o país vai ser caríssimo.
R7 - O senhor acha que a tragédia do Haiti foi pior que o tsunami da Indonésia e o terremoto da China?
Whitaker Ferreira - Eu acho que sim, porque a China tem muito dinheiro e um Estado forte para trabalhar na reconstrução do país. Proporcionalmente, o Estado da China tem como destinar dinheiro para reerguer o país. Proporcionalmente também a população da China é muito maior, então as perdas não se comparam. No caso da Indonésia, a situação é diferente porque existem muitos resorts e investimentos de hotéis e turismo, o que permite uma reconstrução mais rápida.
Ali [na Indonésia] existem interesses econômicos do turismo em jogo. Interessa a muita gente. A quem interessa o Haiti? O país não é um mercado, não tem um atrativo econômico como a Indonésia para as nações ricas. Isso diferencia completamente a situação no Haiti e faz a tragédia ser pior nesse país, que está abandonado há tantos anos.
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