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publicado em 08/01/2011 às 06h00:

Sal usado para derreter a neve
pode contaminar a água em Nova York

A cada nevasca, cidade espalha toneladas do produto nas ruas e calçadas

Osmar Freitas Jr., do R7 em Nova York


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A situação em Nova York está ficando cada vez mais salgada. A cada nevasca enfrentada pela cidade, toneladas de sal grosso são espalhadas pelos mais de 9.000 km de asfalto e quase 10 mil km de calçadas da metrópole.

Nesta sexta-feira (7) nevou novamente na cidade, que ainda se recupera de uma tempestade de neve que a levou ao caos nos últimos dias de 2010.

A prefeitura tem 44 depósitos gigantes, com capacidade para estoque de 235 toneladas do produto. Da última vez que isso aconteceu, na tempestade pós-natal, nada menos do que 180 toneladas foram usadas em quatro dias.

O sal tem o poder de baixar o ponto de congelamento da água. Evita-se assim, principalmente, que o asfalto e as calçadas virem verdadeiras pistas de patinação, quando a água derretida novamente regela e forma uma película perigosamente escorregadia.

Quando aplicado corretamente, o sal penetra nos vãos e poros de blocos de gelo - formados pela neve acumulada e resfriada ainda mais pelo vento - e quebram a massa dura. Isso facilita a limpeza de verdadeiros icebergs espalhados na cidade.

Mas toda essa tonelagem de sal cria outros problemas devastadores para a cidade. Os destinos finais de grande parte dessa substância são os lençóis freáticos, os rios, os reservatórios públicos e os lagos.

A consequência é a salinização das águas. Algo bom para quem gosta de tomar banho de sal grosso, mas horrível para quem deseja apenas beber um copo d’água.

Das torneiras, a cada ano, saem quantidades cada vez maiores de cloreto de sódio, a substância química que compõe o sal. É dose para baleia.

Mistura também pode desencapar cabos elétricos

O cloreto de sódio  misturado aos galões de cálcio clorídrico (os sais do cloreto) compõe uma solução que ajuda no degelo. O coquetel, em volumes tão altos, é mortal para a fauna e a flora. Somente os filtros poderosos, mas cada vez menos adequados, nos reservatórios que fornecem água potável conseguem garantir o suprimento para consumo humano.

Os efeitos colaterais do sal não param nisso. Misturado à água, ele penetra também nos subterrâneos que conduzem cabos, fiações, encanamentos e outros dutos vitais para o funcionamento da metrópole.

Uma consequência perigosa está relacionada aos fios de eletricidade, que podem acabar desencapados pela corrosão.

Em fevereiro de 2008, por exemplo, uma mulher de 30 anos foi eletrocutada ao pisar em uma tampa de metal de um bueiro na parte leste da baixa Manhattan. Naquela mesma região, dois cães tiveram o mesmo fim trágico, duas semanas depois do incidente humano.

Em 17 de julho de 2007, em plena hora do rush, às 18 h, uma enorme explosão abriu uma cratera medindo meio quarteirão de área, por oito metros de profundidade, no cruzamento da rua 41 com a avenida Lexington, no coração de Manhattan.

Um duto de vapor - usado para aquecimento de edifícios da região - não aguentou a pressão e detonou. O cano havia sido corroído de modo irreparável depois de "marinar" por anos em água salgada.

Trinta e três pessoas foram feridas. Uma delas era o motorista de uma perua que caiu inteira dentro do buraco. O jato de vapor que saia do encanamento "cozinhou" o homem, que sobreviveu mas nunca mais recuperará mobilidade ou forma vagamente humana.

Produto usado em Nova York sai do solo chileno

E o processo de salgamento da chamada Big Apple continua. Parte do solo chileno é transferida ano a ano para a superfície de Nova York. O sal que cobre a cidade americana vem das minas de Taparacá, a 60 km de Iquique, no sul do Chile. O produto viaja 7.400 km rumo ao norte para os depósitos nova-iorquinos.

Quando passa o inverno, o sol volta a esquentar e a enxugar as ruas, a camada de sal que sobrou no pavimento levanta voo com o vento. Passa a entrar em outras "tubulações", entre elas as narinas e bocas dos habitantes.

O gosto amargo na língua e a sede resultante faz com que os nova-iorquinos sintam-se como beduínos, o povo nômade do deserto do Saara. Não é à toa que uma garrafinha de água na cidade custa R$ 3 reais.

Veja Relacionados:  nova york, neve, sal, nevasca, contaminação, lençol freático
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