‘Pensamos em toda América Latina’, afirma representante das Farc

Oliverio Medina diz que grupo fará sua parte no processo de paz

Oliverio Medina é representante das Farc no Brasil
Oliverio Medina é representante das Farc no Brasil Reprodução

Integrante das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) há 27 anos e representante da guerrilha no Brasil desde 1995, Francisco Antonio Cadena Collazos, conhecido por Oliverio Medina, 70 anos, afirmou, em entrevista exclusiva ao R7, que o grupo não quebrará o acordo de paz mesmo que o governo não cumpra sua parte. "Ninguém vai nos parar", disse.

O representane destacou ainda o papel da organização no continente, "queremos unir esforços entre os povos dos nossos países para construir uma nova América Latina".

Em vigor desde dezembro do ano passado, o acordo teve um de seus ápices com a entrega das armas da guerrilha à ONU, em junho deste ano. O processo ainda causa debate na sociedade colombiana, sobretudo pela ajuda financeira que os guerrilheiros desmobilizados devem receber do governo e pela anistia parcial aos combatentes. Nesta terça-feira (12), o Bogotá anunciou ainda a expropriação de imóveis e contas de Mauricio Parra Rodríguez, conhecido como "El Quesero", testa de ferro do grupo. 

Durante a entrevista, Medina — que obteve em 2006 o status de refugiado político no Brasil — ainda afirmou que, mesmo se transformando em partido político, o grupo não está preocupado com conquistar cargos e negou ligação dos guerrilheiros com o tráfico de drogas.

Leia a entrevista:

R7 — Qual a sua avaliação sobre o acordo de paz entre as Farc e o governo colombiano?

Oliverio Medina — Nós deixamos as armas para poder desarmar a classe dominante e o imperialismo norte-americano, que fizeram a guerra contra o povo, contra nós. Entregamos à ONU todas as armas. Então não tem como o governo nos bombardear. Nós não temos mais armas e estamos em um partido político. A guerra foi paralisada, digamos assim.

R7 — Na sua avaliação, o acordo tem sido cumprido?

Medina — Não. O governo [Juan Manuel Santos] tem deixado muito a desejar, mas nós não nos preocupamos com isso. O que o governo deixa de fazer, é responsabilidade do governo. Nós seguimos em frente, queremos continuar em frente, ninguém vai nos parar. Ninguém. Então, nós estamos à frente do governo.

R7 — Existe a possibilidade de uma quebra de acordo por parte das Farc?

Medina — Não. Enquanto a guerrilha tem o apoio popular e o povo faça do acordo de paz um instrumento para lutar, nunca fecharemos o acordo de paz. Seremos fiel.

R7 — Quais as perspectivas para as Farc a partir do acordo de paz?

Medina — Vamos preparar a consciência política do povo para alcançar aquelas coisas que o povo necessita: terra, casa, educação, saúde, transporte, etc.

R7 — O que as Farc pretendem ao se transformar em partido político?

Medina — Nosso partido está convocando o povo para que as realizações que estão consignadas no acordo de paz sejam cumpridas pelo governo. Nós não temos pressa para a disputar as eleições, nós temos pressa para a organização do povo colombiano. Nós temos pressa para conquistar a consciência e o coração do povo colombiano para que eles se organizem e vençam.

R7 — Os integrantes das Farc estão se sentindo seguros após a entrega das armas?

Medina — Não é fácil. Mas consta do acordo que o governo fica responsável pela nossa segurança. E a guerrilha tem sua própria segurança também. São pessoas preparadas para fazer a segurança dos quadros mais importantes, dos comandantes mais importantes, para que não sejam mortos.

R7 — Os responsáveis pela segurança também entregaram suas armas?

Medina — Sim, hoje não temos mais armas. Deixamos as armas em mãos da ONU.

R7 — Você se enquadra na anistia que consta do acordo?

Medina — Sim. Mas é um processo. Nós estamos lutando para que todos guerrilheiros que estão presos sejam libertados, e os que estão presos em outros países, como nos Estados Unidos, possam voltar para a Colômbia. No meu caso pessoal, eu tenho que cumprir certas normas para poder ser anistiado. Preciso tirar meu passaporte e voltar à Colômbia dizendo quem sou. Está simples.

R7 — Desde quando está fora da Colômbia?

Medina — Eu saí do país para fazer trabalho diplomático em 1996, vindo ao Brasil. Aqui, faço o que estou fazendo agora: falando, organizando, ajudando a entender como está a América Latina, e como está todo nosso povo. Como está a nossa pátria grande, com 600 milhões de pessoas. Nós não pensamos só na Colômbia, pensamos em toda a América Latina e Caribe. Queremos unir esforços entre os povos dos nossos países para construir uma nova América Latina. 

R7 — Quem são as pessoas que a guerrilha busca proximidade?

Medina — Mais do campo, muito mais do campo. Noventa por cento da guerrilha é camponesa.

R7 — As Farc comandam o plantio de coca e produção de cocaína no campo?

Medina — Nós, como revolucionários, não temos nada a ver com o plantio de coca, nem com o processamento da coca, nem com a cocaína, nada. Nós não somos polícia. Nós, revolucionários, somos seres humanos que buscamos a transformação da sociedade. As grandes mídias internacionais sempre nos tratam como narcotraficantes. Mas não somos, não mexemos com isso. Nossa missão é trabalhar para que o povo entenda que pode lutar por uma pátria nova, por uma América Latina nova, livre, independente, soberana. Isso é o que fazemos.

*Kaique Dalapola, estagiário do R7

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