Internacional

24/2/2013 às 21h10 (Atualizado em 24/2/2013 às 21h42)

Reeleito, Raúl Castro confirma transição política em Cuba

País começa a se preparar para a saída de cena dos irmãos Castro

BBC Brasil

Raúl Castro, que foi reeleito neste domingo (24), ao lado do irmão Fidel Castro na Assembleia Nacional em Havana AFP

Reeleito neste domingo (24) por mais cinco anos como presidente de Cuba, Raúl Castro confirmou o processo de transição política em Cuba ao declararar, diante da Assembleia Nacional, que deve deixar o poder ao término do segundo mandato. O anúncio traz à tona o momento de mudanças no país e reforça a busca da 'velha guarda' cubana por sucessores que garantam a sobrevivência do regime no futuro.

Eleito em 2008 para substituir o irmão Fidel Castro como presidente após quatro décadas, Raúl defende a limitação do mandato das autoridades cubanas a dois termos - uma das medidas mais importantes do seu pacote de reformas políticas e econômicas que vem sendo implementado gradualmente na ilha.

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A eleição também foi marcada pela presença de Fidel no Congresso. Aos 86 anos, o líder é raramente visto em público e não fazia uma aparição diante dos parlamentares desde 2006, quando passou o poder ao irmão de forma temporária.

Quanto ao potencial sucessor dos irmãos Castro, a escolha do vice-presidente, Miguel Díaz-Canel, de 53 anos, um membro do Politburo que cada vez mais aparece ao lado de Raúl em eventos oficiais, pode ser uma pista.

Segundo na linha de comando, o vice-presidente costumava até então ser outro líder octogenário. Mas com um perfil mais jovem, Miguel já havia sido cotado como um nome potencial para ocupar o cargo a partir deste ano.

'Muita pressão'

O resultado mais óbvio das reformas tem sido a explosão de pequenos negócios, de manicures a jardinagem por hora. Tais atividades foram legalizadas na tentativa do governo de diminuir o peso da folha de pagamento estatal.

'Eu ganhava 400 pesos por mês (R$ 32). Agora consigo ganhar o tanto quando meu trabalho render', diz Eduardo García, que tem uma oficina de consertos de TVs e rádios.

Uma das TVs de tela plana que espera conserto na oficina vale cerca de R$ 4.000, um bom indicativo das mudanças em curso na ilha.

Assim como outros meio milhão de trabalhadores autônomos, García não tem só o que comemorar.

'É como se tivessem desatado nossas mãos, mas não os nossos pés. Estamos trabalhando sob muita pressão', diz. Ele reclama que o monopólio estatal sobre produtos importados e a falta de um mercado de peças dificulta muito seu trabalho.

'Mas por 54 anos ninguém pensou que isso pudesse vir a ser possível', diz. 'É como uma máquina, lenta no início. Mas espero que as coisas melhorem', diz.

Como lidar com as grandes estatais que ainda dominam a economia cubana é o próximo desafio do novo governo a ser formado a partir deste domingo.

O mais novo experimento do governo Castro será dar maior autonomia às empresas, para impulsionar a eficiência. Outra medida deve limitar o número de cooperativas, com exceção da agricultura.

Uma citação de Raúl Castro que circula por Havana dá o tom das mudanças.

'A batalha da economia é hoje, mais do que nunca, nossa principal tarefa'.

Tarefa árdua

'Trata-se de uma batalha e o futuro de Cuba depende dos resultados', afirma o economista Jan Triana, ao dizer que cinco décadas após a revolução Cuba está 'reinventado o socialismo'.

'Ganhamos a principal batalha em 1990, quando a União Soviética desapareceu e Cuba ficou sozinha no mundo. Foi difícil, mas estamos vivos', diz.

Mas à medida que os novos deputados tomem seus assentos no Parlamento e os novos líderes de Cuba sejam indicados, a preocupação será a árdua tarefa que ainda existe pela frente.

Sob a Presidência de Hugo Chávez, a Venezuela se tornou o principal aliado de Cuba, fornecendo quase todo o combustível que a ilha precisa a preços subsidiados.

Chávez voltou a Caracas esta semana, depois de meses tratando de um câncer em Havana. Mas ele continua doente e não se sabe como será a relação entre os dois países caso Chávez saia de cena.

'Venezuela é uma peça importante no tabuleiro', diz Paul Hare, ex-embaixador britânico em Havana.

'O que acontecer em Caracas vai determinar o quão rápido pode ser a abertura da economia em Cuba, se haverá a adoção de uma solução ao estilo chinês, caso a Venezuela corte os subsídios aos combustíveis. Daí a urgência das reformas', diz.

Ainda assim, o passo continua lento. 'Sem pausa, mas sem precipitação', já disse Raúl Castro.

'Ganho importante'

O objetido do sistema é ajustar-se sem ruir. Mas a relação entre o Estado e os cidadãos já está mudando.

'Todas essas medidas que fazem os cidadãos economicamente independentes do Estado estão criando um sentimento de liberdade nas pessoas', diz o escritor e ensaista Leonardo Padura.

'É um ganho importante para a sociedade cubana', diz.

A introdução de um imposto de renda é um claro sinal dessas mudanças, à medida que o governo mais e mais depende do imposto recolhido entre os cubanos. Para analistas, no entanto, as mudanças econômicas não têm sido acompanhadas de reformas políticas.

'Eles (autônomos) são o elemento dinâmico da sociedade cubana. Creio que a abertura em Cuba não virá pelas organizações políticas, para pela quebra das barreiras levada a cabo pelos trabalhadores autônomos', diz o ex-embaixador britânico, Paul Hare.

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