Internacional

19/12/2012 às 10h19 (Atualizado em 19/12/2012 às 10h19)

Substituto de Chávez pode atenuar
polarização na Venezuela

Vice-presidente Nicolás Maduro não desperta sentimentos extremos, como é o caso de Hugo Chávez

BBC Brasil

Ao apontar seu substituto, Chávez se antecipou a qualquer movimento que pudesse levar a uma ruptura entre as diferentes correntes do chavismo na disputa pelo poder REUTERS/Miraflores Palace/Handout

 

Possível sucessor do presidente Hugo Chávez na Venezuela, o chanceler e vice-presidente do país, Nicolás Maduro, pode atenuar a polarização política no país por não despertar sentimentos extremos na população, como era o caso de seu chefe, segundo eleitores e analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Chávez surpreendeu a todos ao reconhecer que a gravidade do câncer contra o qual luta há 18 meses pode tirá-lo da vida política. Antes de viajar a Cuba para se submeter a sua quarta cirurgia, o presidente anunciou que caso ocorresse algo para "inabilitá-lo de alguma maneira" e não pudesse assumir o novo mandato presidencial, Maduro deveria ser o candidato chavista numa eventual eleição antecipada.

Ministro de Relações Exteriores durante seis anos, Maduro é visto pelos chavistas como um político moderado, porém "leal" ao presidente, razão pela qual, para muitos, é um elemento de "garantia" de continuidade à revolução bolivariana.

Chávez está em repouso absoluto após infecção respiratória, diz governo

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"O amor que temos pelo nosso presidente é intransferível, mas ser for necessário votaremos por Nicolás [Maduro]. Ele é um homem leal à Chávez", afirmou à BBC Brasil a dona de casa Miriam Bolívar, enquanto aguardava tensa, diante do televisor instalado na famigerada esquina caliente (esquina quente) da Praça Bolívar, em Caracas, o comunicado oficial sobre o estado de saúde do presidente. "E nós estaremos vigilantes para que a revolução não perca o caminho", acrescentou.

A transição política impulsionada em consequência da deterioração do estado de saúde do presidente e a aparente consolidação forçada do "chavismo sem Chávez" gera em boa parte dos simpatizantes do presidente a sensação de que terão de trocar o "líder" pelo "administrador" da revolução.

"Se ele não puder governar, Maduro será a imagem e os ideais de Chávez. Ele nunca vai deixar de ser nossa referência", afirmou à BBC Brasil a educadora Nairobi Reyes, de 22 anos, enquanto esperava numa gigantesca fila para receber uma camiseta estampada com um desenho dos olhos de Chávez, acompanhado da frase: "agora mais que nunca com Chávez".

Ruptura

Ao apontar seu substituto, Chávez se antecipou a qualquer movimento que pudesse levar a uma ruptura entre as diferentes correntes do chavismo na disputa pelo poder. De acordo com uma fonte governamental, "enquanto Chávez estiver vivo, nenhum dirigente ousará desafiar sua decisão".

Até mesmo os setores que antes se opunham a Maduro tendem a apoiá-lo, em nome da unidade, convertida em novo mantra entre os revolucionários. "Chávez empoderou um homem chave para manter a revolução ao longo do tempo", afirmou à BBC Brasil o analista político Luis Vicente León, da consultoria Datanalisis.

De acordo com estudo realizado pela consultoria Hinterlaces, 47% dos venezuelanos apoiariam um outro candidato da "revolução", caso Chávez tivesse que deixar o poder.

Outro elemento apontado como positivo entre os analistas foi a decisão de Chávez de indicar um civil em meio ao importante poder militar no interior do governo; nas eleições regionais do domingo, dos 20 governadores eleitos, 11 são militares reformados.

"Isso mostra que os militares que acompanharam Chávez no processo inicial do chavismo já não desempenham o mesmo papel que antes", afirmou o historiador Miguel Tinker Salas, professor de História Latino-americana da Pomona College, da Califórnia.

"Sombra" de Chávez

Entre os opositores ouvidos pela BBC Brasil, Maduro é visto como a "sombra" de Chávez ou como o "cônsul de Cuba". Assim como ocorre com Chávez, muitos observam com desprezo o passado de Maduro.

"Maduro não é um político hábil. Ele tem pouca formação, é um motorista de ônibus, o que se pode esperar de um cara assim?", afirmou o físico Claudio Mendonza, enquanto comprava jornais em um bairro antichavista no leste da capital.

"Agora, pior do que o Chávez, não tem", acrescentou. Mendonza não esconde seu desejo em ver o presidente morto. "Bom, que morra de uma vez. Ele sabia que estava doente e mesmo assim se candidatou [a presidente]", disse.

"A unidade da oposição se baseia na rejeição a Chávez. Ela corre o risco de desaparecer."

Alguns dirigentes da oposição veem na ascensão de Maduro uma via de diálogo "diplomático" entre os dois projetos em disputa; elemento que para parte deste setor pode levar a uma moderação no plano de governo chavista.

A ausência temporária ou definitiva de Chávez não é somente uma prova de resistência para o chavismo. Sem seu "alvo de ataques", a unidade da oposição, que ficou desmantelada depois da ampla vitória do chavismo nas eleições regionais, corre o risco de desaparecer. "Sua unidade se baseia na rejeição a Chávez. Com a ausência do presidente, é possível que novamente a oposição se divida e cada partido ou líder procure impor sua própria posição, como faziam antes", afirmou o analista político Miguel Tinker Salas.

Posse

A recuperação de Chávez não tem sido fácil. Após enfrentar uma hemorragia, uma infecção respiratória voltou a abalar a saúde do presidente. De acordo com um boletim médico anunciado pelo governo, Chávez "deve guardar repouso absoluto nos próximos dias" e receber o tratamento médico rigorosamente "para manter a estabilidade de suas funções vitais".

Diante desse cenário, a principal incógnita no país é se ele terá condições de assumir seu novo mandato em 10 de janeiro. Se isso não ocorrer, e novas eleições presidenciais tiverem que ser convocadas, o presidente da Assembleia Nacional — cargo ocupado por Diosdado Cabello, antigo aliado de Chávez — deverá assumir a Presidência interinamente e convocar novas eleições em 30 dias.

Em meio à incerteza, o governo envia cada vez mais sinais de que dificilmente Chávez poderá voltar à Venezuela para a posse. "Com relação a 10 de janeiro, nós não trabalhamos com hipóteses [...] na verdade, nossa preocupação é que o presidente esteja totalmente saudável e se Deus quiser, será assim", afirmou Cabello, em entrevista coletiva nesta segunda-feira.

Se novas eleições forem convocadas, a disputa deve ser entre Nicolás Maduro e o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, que foi reeleito no domingo ao governo do poderoso Estado de Miranda.

Nessa disputa, Maduro tende a levar vantagem, de acordo com Luis Vicente León. "Esse evento pode ocorrer num momento de máxima comoção. O chavista que está se despedindo [politicamente] do presidente não votará pelo candidato e sim pela simbologia de Chávez", afirma.

 

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