Temperaturas negativas, superlotação e saúde precária: em livro, brasileiro relata drama em campo de refugiados na Grécia

Especialista em relações internacionais morou no vilarejo de Idomeni por oito meses

No auge da crise, vilarejo na Grécia com infraestrutura para atender 150 pessoas passou a abrigar 14 mil refugiados
No auge da crise, vilarejo na Grécia com infraestrutura para atender 150 pessoas passou a abrigar 14 mil refugiados Gabriel Bonis/Arquivo pessoal

Em outubro de 2015, o especialista em relações internacionais Gabriel Bonis mudou-se para a Grécia com o objetivo de estudar movimentos regionais que ajudavam refugiados. No país, Bonis esteve em contato diário com migrantes e grupos de voluntários que passavam por Idomeni, um vilarejo na fronteira com a Macedônia. Os episódios dramáticos testemunhados pelo brasileiro estão reunidos no livro Refugiados de Idomeni — O Retrato de um Mundo em Conflito, que chega às livrarias nesta quinta-feira (9). Em entrevista exclusiva ao R7, o autor relata parte das experiências que viveu durante os oito meses que passou no local. 

— Quando me mudei pra lá, Idomeni era o centro de transição com o maior movimento de refugiados na Europa. A maioria eram sírios, iraquianos e afegãos. Em outubro de 2015, aproximadamente 6 mil pessoas cruzavam o local por dia. Havia ali um centro de transição, e a Grécia era o ponto de partida para uma rota que passava pela Macedônia, depois ia para a Sérvia, de lá para a Hungria, e depois para a Áustria. O destino final geralmente era a Alemanha ou a Suécia.

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No livro, o autor detalha as principais dificuldades enfrentadas pelos refugiados neste processo de deslocamento — que, segundo Bonis, pioraram significativamente a partir do início de 2016, quando as autoridades europeias fecharam o cerco para migrantes que não fossem da Síria, do Iraque e do Afeganistão.

— Entre outubro e dezembro de 2015, a Grécia era só um país de transição. Nesse contexto, o mais difícil geralmente era encontrar dinheiro para pagar comida, as passagens de ônibus ou um traficante de pessoas, encarar uma jornada muito cansativa, etc. É claro que algumas pessoas eram submetidas a situações de violência e até prostituição. Mas após esse período, houve um aumento no fluxo de refugiados que não eram desses três países. Sem a liberação da fronteira com a Macedônia, essas pessoas passaram a morar em Idomeni em condições péssimas.

Superpopulação de refugiados

No auge da crise, conforme explica o autor, 14 mil refugiados passaram a residir em Idomeni — que, por ser um pequeno vilarejo, só tinha infraestrutura para atender a população local, de não mais que 150 pessoas. Todos os refugiados viviam em uma área de aproximadamente 11 campos de futebol cercada por arames farpados, enfrentando temperaturas congelantes e ventos intensos sem ter para onde ir. Para se manterem aquecidos, eles queimavam papelão, caixas de plástico e até roupas.

Refugiados queimavam madeira, caixas de plástico e até as próprias roupas para se manterem aquecidos em dias de frio
Refugiados queimavam madeira, caixas de plástico e até as próprias roupas para se manterem aquecidos em dias de frio Gabriel Bonis/Arquivo pessoal

— Um dos episódios mais marcantes foi quando eu organizava um grupo que seria levado até uma tenda com sistema de aquecimento. A temperatura era de -5 °C, e um homem insistiu que seus três filhos — entre os quais, um bebê — não aguentavam mais tremer de frio para serem levados a um local protegido. Eu os guiei pelo caminho e, sem conseguir carregar toda a bagagem e organizar as crianças, o pai colocou o neném chorando no meu colo. Parece sutil, mas me levou a refletir o nível de desespero a que chega uma pessoa para entregar seu próprio filho nas mãos de um estranho.

Dificuldades para quem ajuda

O livro escrito por Gabriel Bonis ainda aborda os percalços enfrentados por aqueles que só pretendiam ajudar os refugiados. Muitas vezes, os grupos voluntários acabavam impedidos de prestar auxílio por conta da própria situação econômica delicada que vive a Grécia.

— Os recursos para a saúde, por exemplo, são muito limitados no país. Os hospitais públicos da região, às vezes, eram sobrecarregados, então as organizações médicas que atendiam refugiados faziam doações de remédios e mantimentos para as instituições como forma de ajudar no atendimento. Ouvi relatos de que três quartos desses migrantes sofriam com doenças crônicas. Quando era necessário fazer exame de sangue e de urina, algumas das ONGs tiravam do dinheiro próprio bolso para viabilizar avaliações em clínicas particulares. 

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Atendimentos em hospitais públicos eram precários: "Há relatos de que três quartos dos refugiados sofriam de doenças crônicas", diz Bonis
Atendimentos em hospitais públicos eram precários: "Há relatos de que três quartos dos refugiados sofriam de doenças crônicas", diz Bonis Gabriel Bonis/Arquivo pessoal

Em outras ocasiões, os voluntários enfrentavam críticas de grupos de extrema-direita da Grécia — que afirmavam que a ajuda humanitária deveria se direcionar para a população carente do próprio país, e não para migrantes. É justamente para desmistificar este tipo de campanha, aliás, que Bonis acredita ser importante falar cada vez mais sobre a situação dos refugiados. 

— Poucos dias atrás, um sírio foi hostilizado publicamente no Rio de Janeiro. Há quem pense que o refugiado vai 'roubar' empregos dos brasileiros, que vivem uma crise econômica. Esse tipo de comportamento, de quem ataca e hostiliza, precisa ser combatido, e a gente só consegue combater isso conscientizando a população de que o refugiado não é alguém que muda de país porque quer. Ele muda porque não tem opção, muda porque tem que sair para se proteger.

O especialista reforça que é preciso, sobretudo, entender que os refugiados não são simplesmente migrantes econômicos. "O migrante econômico é aquele indivíduo que está saindo de seu país de origem em busca de um emprego, de uma vida melhor e mais estável; o refugiado é alguém que foge de seu país por causa de perseguições políticas, religiosas, guerras, etc. Ele não tem escolha. Quanto mais as pessoas souberem disso, mais tolarantes elas serão", conclui Bonis. 

Serviço:
Refugiados de Idomeni — O Retrato de um Mundo em Conflito
Editora Hedra
Autor: Gabriel Bonis
Gênero: Jornalismo
Preço: R$ 39,90
Páginas: 139