Internacional

14/2/2013 às 07h08 (Atualizado em 14/2/2013 às 07h57)

Veja os desafios que aguardam o novo papa

Casos de abuso sexual e estagnação no número de católicos são problemas que terão que ser enfrentados

BBC Brasil

A Igreja Católica enfrenta a estagnação no número de católicos, bem como a queda no número de padres FILIPPO MONTEFORTE FILIPPO MONTEFORTE / AFP

A renúncia de Bento 16 ocorre num momento difícil para a Igreja Católica. No Ocidente, a instituição enfrenta a estagnação no número de católicos, bem como a queda no número de padres.

Enquanto isso, o avanço das igrejas evangélicas, sobretudo na América Latina e na África, limita o crescimento de congregações católicas, as quais também sofrem ameaças em regiões onde a intolerância religiosa é comum.

Bento 16 rejeitou pedidos por um debate a respeito do celibato de clérigos católicos e confirmou o veto à comunhão de católicos divorciados que voltam a se casar.

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Leis liberais sendo votadas em diversos países ocidentais também desafiam a igreja. Bento 16 disse que as rígidas posições da Igreja Católica em temas como aborto, eutanásia e homossexualidade "não são negociáveis" — ortodoxia que alienou muitos católicos de orientação mais liberal.

Além disso, o próximo papa terá, entre as suas tarefas, a de reconstruir a confiança sobre uma instituição que tem sido, nos últimos anos, alvo de centenas de denúncias de abusos sexuais perpetrados por padres contra menores.

O próximo papa terá, enfim, de lidar com vários temas. Confira abaixo alguns dos principais desafios que ele deve enfrentar:

Gerenciar o Vaticano

O recente vazamento de documentos do Vaticano, pelo mordomo do papa, revelou que a Cúria — o governo central da igreja — é uma instituição com graves problemas.

Para o analista de Vaticano Clifford Longley, a instituição parece repleta de disputas entre "fações rivais". "E há acusações de corrupção em altas esferas", diz ele.

— A reforma do Vaticano, que só começou nas beiradas, ainda tem um longo caminho a percorrer. A descentralização é imperativa. Seu sucessor tem uma tarefa enorme e pouco invejável.

Serão necessários sistemas de supervisão para garantir que casos de corrupção sejam detectados e punidos e para dar transparência às transações financeiras do Vaticano.

Leis igualitárias

"A questão que se sobrepõe às demais é a crescente pressão sobre católicos por conta de leis de igualdade sendo debatidas no Ocidente", diz o analista de catolicismo Austen Ivereigh.

Leis de casamento homossexual estão em pauta na França e no Reino Unido; agências católicas de adoção foram fechadas no Reino Unido; nos EUA, estão em curso batalhas legais entre instituições católicas e Estados, por conta de igualdade sexual. Tudo isso afeta profundamente a igreja no Ocidente, diz Ivereigh.

— Leis de igualdade, como as que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo, tornam cristãos e organizações religiosas vulneráveis a processos judiciais e acusações de preconceito.

Para o analista, essas leis podem ter o efeito de marginalizar católicos e a presença da igreja na vida pública.

Casos de abuso sexual

Bento 16 chegou a comentar sobre a vergonha da igreja por conta dos "crimes inenarráveis" cometidos por sacerdotes pedófilos e pediu desculpas às vítimas que conheceu durante suas viagens.

Mas muitos críticos opinam que o Vaticano foi (e ainda é) muito lento, muito relutante e muito tímido na admissão e na investigação das acusações de abusos sexuais.

O novo papa terá como tarefa dar sequência à punição dos criminosos e garantir que as mudanças introduzidas por Bento 16 sejam implementadas — em especial as orientações de proteção à infância, que devem ser cumpridas pelos bispos católicos.

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"O próximo papa terá que fazer mais no que diz respeito à proteção das crianças", opina à BBC David Clohessy, diretor-executivo da Rede de Sobreviventes de Abusados por Padres.

— Ele deve parar de pedir desculpas e, em vez disso, rebaixar bispos que continuam a encobrir crimes horrendos. E ele deve insistir em que sacerdotes atuem em conjunto com autoridades seculares para elaborar e aprovar leis mais fortes contra o abuso de crianças pelo mundo.

O papel das mulheres

Bento 16 admitiu a lentidão da igreja em promover mulheres dentro da instituição, sobretudo em cargos administrativos.

Em 2007, ele declarou que, enquanto Jesus escolheu 12 homens como apóstolos, "entre os discípulos muitas mulheres também foram escolhidas. Elas tiveram um papel proativo no contexto da missão de Jesus".

Apesar disso, porém, ele rejeitou a ordenação de mulheres e fez, no ano passado, um duro discurso criticando a "desobediência" de reformistas.

Ainda que algumas mulheres tenham ascendido na hierarquia do Vaticano, outras consideradas "difíceis" foram expulsas da instituição, diz Gemma Simmonds, diretora do instituto britânico Religious Life.

Também causou polêmica o cerco, em 2012, a um grupo de freiras americanas que, na interpretação do Vaticano, desafiou a doutrina da igreja em temas como homossexualismo e celibato. Para o padre jesuíta Drew Christiansen, acadêmico visitante no Boston College, essa foi uma das falhas do pontificado.

— O contraste entre o tratamento [dado às freiras] e dado a padres pedófilos causa escândalo.

É amplamente aceita a ideia de que é necessária uma mudança cultural dentro do Vaticano, e espera-se que o novo papa promova mulheres em cargos gerenciais altos na Cúria.

Tensões interreligiosas

A proteção a cristãos perseguidos ao redor do mundo, em especial em áreas conturbadas do Oriente Médio, da Ásia e da África, deve ser um grande tema de preocupação para o novo papa.

O atual êxodo de cristãos da Terra Santa vão dar mais relevância à abordagem do próximo papa em suas relações com judeus e muçulmanos.

Bento 16 foi apenas o segundo papa a entrar em um local sagrado islâmico, quando visitou a Mesquita Azul de Istambul, em 2006, e rezou com muçulmanos.

Essa tentativa de aproximação não foi bem vista em alguns círculos muçulmanos, especialmente por ter ocorrido pouco tempo depois de o papa ter citado um imperador bizantino do século 14 que chamara o profeta Maomé de "diabólico e desumano".

O sucessor de Bento 16 terá o desafio de dialogar com o islã, que avança na Ásia e na África, em locais onde o catolicismo tem uma grande base de fiéis.

Bento 16 irritou os judeus ao dar andamento ao processo de canonização do papa Pio 12, apesar de críticas de que este teria feito vista grossa diante do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial.

O atual papa também causou ira em alguns representantes da Igreja Anglicana, por ter estimulado os insatisfeitos com o anglicanismo a se converter ao catolicismo.

Em geral, as relações com anglicanos e judeus parecem estar apaziguadas. Mas o novo papa terá que ter cuidado ao estender a mão ao mundo muçulmano, sob o perigo de alienar judeus e parecer condescendente com o extremismo islâmico.

Congregações menores e menos padres

Há 1,2 bilhão de católicos no mundo, uma grande parcela deles (42%) na América Latina. A Europa, coração histórico do catolicismo, é atualmente casa de apenas um quarto dos católicos.

Entretanto, Bento 16 pareceu não se incomodar com o declínio numérico, mirando uma igreja menor, porém mais fiel.

Para seu sucessor, será essencial consolidar essa mudança de posição da igreja dentro da sociedade. À medida que a igreja se afasta das instituições oficiais, ela terá que dar apoio aos seus seguidores e lideranças, diz Austen Ivereigh.

Ao mesmo tempo, a igreja deve continuar a garantir que tirará proveito das tecnologias modernas para espalhar sua mensagem.

A nomeação de Greg Burke, correspondente em Roma da Fox News, para o cargo de conselheiro, em 2012, sinalizou a adoção de uma estratégia de comunicação mais moderna no Vaticano. Além disso, o papa abriu uma conta no Twitter.

É esperada de seu sucessor uma abordagem igualmente entusiasmada à tecnologia.

 

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