Viagem aos EUA adiada marca descontentamento, mas não compromete relação entre os países

Para especialistas, Dilma acertou ao demonstrar insatisfação com apuração de espionagem

Dilma ficou insatisfeita com as explicações do governo norte-americano sobre a espionagem de que foi alvo
Dilma ficou insatisfeita com as explicações do governo norte-americano sobre a espionagem de que foi alvo 06.09.13/AFP PHOTO / KIRILL KUDRYAVTSEV

Ao adiar a visita oficial aos Estados Unidos para deixar clara a insatisfação com as explicações sobre a espionagem de que foi alvo, a presidente Dilma Rousseff não comprometeu a histórica relação entre os dois países, avaliam especialistas consultados pelo R7. Para Geraldo Zahran, professor de relações internacionais da PUC-SP e coordenador do Opeu (Observatório Político dos Estados Unidos), a decisão foi sensata.

— Esse é um claro posicionamento de que o assunto “espionagem” é mais importante para o Brasil do que para os Estados Unidos, mas não significa uma retaliação.

Para o especialista, o adiamento da visita, que ocorreria no dia 23 de outubro, é uma sinalização de que as explicações sobre a espionagem foram insatisfatórias e esse assunto precisa ser resolvido para a relação bilateral avançar.

— Os dois presidentes julgaram necessário adiar a reunião e Obama não foi pego desprevenido. A ideia é que a visita da chefe de Estado a Washington não fique refém da questão “espionagem” quando há outros assuntos a serem discutidos.

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O professor de Relações Internacionais da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Williams Gonçalves afirma que a atitude de Dilma foi correta e diz não acreditar que o adiamento vá colocar “por terra” todo o histórico que foi construído entre os países.

— A relação não vai se deteriorar nem vai ser subvertida pelo fato de a presidente não se reunir com Obama, como estava marcado. Vai entrar para os anais das relações entre os dois países como manifestação do desagrado, do inconformismo contra essa ação arbitrária dos Estados Unidos, que viola a relação fraterna entre os estados.

Entenda o caso

As relações entre Brasil e EUA se estremeceram após documentos vazados pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden revelarem que a agência monitorou telefonemas e e-mails entre a presidente Dilma e seus principais interlocutores, como assessores e ministros, em junho de 2012.

Os documentos foram repassados por Snowden ao jornalista americano Glenn Greenwald, colunista do diário britânico The Guardian que mora no Rio de Janeiro, e revelados pelo programa Fantástico.

Os documentos da NSA mostravam ainda que o presidente do México, Henrique Peña Nieto, também fora espionado no ano passado, quando ainda era candidato à Presidência.

Após a denúncia, o Brasil pediu explicações formais e por escrito. Naquela mesma semana, Dilma e Obama se encontraram em São Petersburgo (Rússia), durante encontro do G20. Obama disse pessoalmente a Dilma que iria explicar as ações da NSA.

Poucos dias depois, no entanto, novos documentos vazados por Snowden revelaram que a Petrobras também fora alvo de espionagem da agência americana.

O nome da Petrobras aparece em um documento usado em um treinamento de agentes da NSA. Os oficiais americanos teriam acessado rede privadas de instituições variadas como Petrobras, o Ministério das Relações Exteriores da França, o Google e a rede Swift, que reúne vários bancos.

Segundo Greenwald, que revelando esse escândalo mundial desde maio, “ninguém tem dúvidas que os Estados Unidos têm direito de fazer espionagem para proteger a segurança nacional”. Ele critica, no entanto, a espionagem de indivíduos e empresas que “não têm nada com terrorismo”.

Em nota, na semana passada, Dilma disse que, se for comprovada a espionagem contra a Petrobras, as denúncias confirmarão que “o motivo das tentativas de violação e de espionagem não é a segurança ou o combate ao terrorismo, mas interesses econômicos e estratégicos”.

A novela continuou na última quarta-feira (11), quando o chanceler brasileiro foi a Washington para se encontrar com a assessora-chefe de Segurança Nacional da Casa Branca, Susan Rice, para ouvir as explicações do governo Obama.

Os esclarecimentos foram apresentados por Figueiredo ontem a Dilma. Nesta terça-feira (17), em mais um capítulo do imbróglio diplomático, Dilma anuncia se vai ou não a Washington para a visita de Estado.

O último presidente brasileiro a receber esse convite foi Fernando Henrique Cardos (1995-2002), em 1995.

Mesmo com o adiamento da visita oficial, Dilma deve se encontrar com Obama na abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), na próxima terça-feira (24), em Nova York, quando a presidente fará o discurso de abertura do evento.