Lama de barragem deixa 800 mil sem água em Minas e no ES

Nove cidades que dependem do rio Doce estão impossibilitadas de captar o recurso

Felipe Rezende, do R7, em Belo Horizonte

Água do rio Doce, em Valadares, tomada pela lama Ibio/Divulgação

Pelo menos quatro pessoas mortas, 21 desaparecidas e 631 desabrigadas. Um vilarejo completamente destruído e danos ambientais ainda incalculáveis. Todo esse prejuízo causado pelo rompimento de duas represas da mineradora Samarco em Mariana, na região central de Minas, se soma ao transtorno sentido em outras nove cidades, distantes do local da tragédia.

A lama que arrasou o distrito de Bento Rodrigues e percorreu mais de 300 km pelo rio Doce deixa 800 mil pessoas sem água tratada em Minas e no Espírito Santo. Segundo Ricardo Valory, diretor-geral do IBIO-AGB Doce (Instituto Bioatlântica), os municípios dependem completamente da bacia para a captação do recurso.

— O percurso do rio Doce até o oceano Atlântico é muito longo e isso vai deixando a lama ao longo do caminho, prejudicando a qualidade da água. Até que se tenha segurança, o consumo não é recomendado.

Leia mais notícias de Minas Gerais no Portal R7

Experimente grátis: todos os programas da Record na íntegra no R7 Play

Em Minas, Alpercata, Belo Oriente, Galileia, Governador Valadares, Itueta, Resplendor e Tumiritinga estão sem abastecimento de água. Outras duas cidades do Estado capixaba se encontram na mesma situação. Conforme Valory, não é possível prever quanto tempo os moradores ficarão sem o recurso.

— A grande pergunta é quanto tempo isso vai durar. No primeiro momento, passou um volume de água grande que trouxe parte da lama que estava diluída e não tinha afetado o abastecimento. Agora, estamos com água baixa e concentração de lama alta.

Valadares, cidade com 300 mil habitantes, decretou estado de calamidade pública em função do desabastecimento. A prefeitura já exigiu que a Samarco consiga caminhões-pipa para suprir a necessidade da população. A empresa se comprometeu e ceder os veículos. A captação de água no município foi interrompida no domingo (8). O recurso dos reservatórios se esgotou na tarde de terça-feira (10).

De acordo com o município, 21 caminhões buscam água em localidades vizinhas. A princípio, eles irão abastecer hospitais, escolas e abrigos. A recomendação da prefeitura é de que os moradores economizem o máximo que puderem. O diretor do SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), Omir Quintino, também explicou que ainda não é possível fazer uma previsão de quanto tempo Governador Valadares ficará sem captação de água.

— Nós estamos fazendo cálculos dado à velocidade. Não tem nenhuma cidade daqui até Mariana que o rio voltou a ter seu aspecto normal. Pode durar semanas e pode durar meses.

Metais na água

Análise do Serviço de Água e Esgoto de Valadares motrou que a lama que atingiu o rio Doce tem concentração de metais até 1 milhão de vezes acima do normal. A turbidez, que mede a transparência, chegou a 80 mil uT na cidade. O máximo que uma estação consegue tratar é 1.000 uT.

A preocupação, conforme Ricardo Valory, é se há elementos tóxicos na lama que era guardada na represa que se rompeu.

— A dúvida é sobre a composição real da lama, se tem metal pesado. A Samarco afirma que não, mas de qualquer maneira temos que aguardar os laudos oficiais.

A sobrevivência do rio Doce, que atravessa 879 km banhando 228 municípios entre Minas e Espírito Santo e já sofria com a seca dos últimos dois anos, também é motivo de consternação para o diretor do instituto responsável pela Agência de Águas do rio Doce.

— A bacia já tinha um quadro de degradação significativo. Com esse evento, complicou ainda mais. São danos que podem durar muitos anos.

  • Espalhe por aí:
X
Enviar por e-mail
(todos os campos marcados com * são obrigatórios)
Preencha os campos corretamente.
Mensagem enviada com sucesso!