Notícias
Publicado em 14/12/2012 às 12h14 (Atualizado em 17/12/2012 às 11h54)
Guerrilheiros ou ativistas? Hackers mostram poder de fogo e tumultuam internet brasileira em 2012
Gabriela Araújo, do R7
Ataques a bancos, celebridades, sites do Governo e atividades que pendem entre crimes e protestos marcaram a internet em 2012. Mas até que ponto um ato hacker pode ser diferenciado de atitude ilegal para manifestação motivada por ideias sócio-políticos?
Já em janeiro, a revista Time incluiu o Anonymous na sua lista de 100 pessoas mais influentes do mundo. Necessariamente, o Anonymous não é apenas uma pessoa — ou apenas hackers. Nem mesmo se consideram um grupo.
“Anonymous é uma ideia de mudança, um desejo de renovação. Somos uma ideia de um mundo onde a corrupção não exista, onde a liberdade de expressão não seja apenas uma promessa e onde as pessoas não tenham que morrer lutando por seus direitos. Não somos um grupo”, afirma o manifesto.
É o maior entre os que se chamam de hacktivistas — uma fusão de hackers e ativistas sociais. Surgiu em 2003 e se espalhou pelo mundo nos últimos dois anos. Muitos outros estão por aí, esquizofrenicamente segregados e unidos. E, sob esta bandeira, atacam e derrubam sites de todos os tipos.
Simbolizado pela máscara do personagem britânico Guy Fawkes — que também inspirou o filme V de Vingança — os membros do Anonymous estão espalhados por vários países e frequentemente aparecem nos noticiários em protestos de rua.
No Brasil, cerca de 15 hackers participam do movimento. Dois membros, que se auto intitulam Chronos e Bile Day, falaram com exclusividade ao R7 sobre a ideologia que tentam manter por trás dos ataques e sobre suas intenções.
“Acho que os brasileiros acreditam em uma revolução ou, no mínimo, em uma mudança na política. Todos querem ver o País onde vivem mudar e encontraram no Anonymous uma forma de lutar por isso. Todos que nos procuram querendo fazer parte [do Anonymous] têm em si um sentimento de revolta por conta da situação atual de nosso País”, afirma Bile Day, que é um “anônimo” há dois anos.
No começo do ano, o grupo promoveu uma série de ataques que batizou de #OpWeeksPayment (Operação Semana de Pagamento), em que derrubou sites de bancos, instituições financeiras e serviços do Governo. A operação teve uma segunda edição, também nacional, em outubro — e foi coordenada por cinco pessoas, entre eles Chronos e Bile Day.
Segundo alguns dos membros, a data foi pensada estrategicamente para “incomodar” a população e fazê-la se interessar mais por seus direitos. Os ataques ao serviço de internet banking, entretanto, fizeram com uma parte da população se sentisse. Mas os hackers justificam o ato com o argumento de que esta é a única alternativa para despertar a reflexão dos brasileiros.
“A realidade é que os bancos nunca perdem. Quando um diminui os juros, por exemplo, todos fazem o mesmo, o que nos leva concluir que é possível ajudar o cidadão cobrando taxas menos abusivas, o que não é feito. Então, infelizmente algumas pessoas podem se sentir prejudicadas quando atacamos o serviço, mas isso serve para repensar se simplesmente aceitar o que as instituições oferecem vale a pena”, disse Chronos, que antes de aderir ao Anonymous, foi membro do LulzSec brasileiro, outro grande aglomerado de hackers.
Essas investidas dos hackers dividem opiniões: há quem considere crime enquanto outros, liberdade de expressão. Já especialistas em direito digital e segurança da informação afirmam que as ações também revelam a vulnerabilidade dos sistemas de defesa brasileiros e a “falsa segurança” que os internautas sentem ao acessar estes sites.
“Temos Copa e Olimpíada chegando no País. Imagine se serviços de compra de ingresso saiam do ar, por exemplo. Como ficará a imagem do Brasil diante disso? Se o Governo está desenvolvendo alguma tecnologia, isso não está sendo divulgado. Julgo que, por esses ataques, não há investimento” explicou Luiz Pena, professor de Redes e Infraestrutura do Senac Consolação, em São Paulo.
Para os hackers Chronos e Bile Day, o País não tem infraestrutura cibernética para receber tais eventos, nem mesmo profissionais qualificados para lidarem com possíveis ataques a serviços de cartão de crédito, aeroportos, energia e telefonia.
Em meados de novembro, foi aprovado no Senado o projeto de lei que altera o Código Penal para tipificar como crime uma série de delitos frequentes na internet, batizado de “Lei Carolina Dieckmann” — em referência ao caso da atriz, que teve fotos íntimas publicadas na web após hackers terem invadido seu computador.
A Lei tornará crime ações como invasões a computadores, roubos de senhas e de conteúdo de e-mails, além da comercialização do material obtido de forma ilegal.
Chronos e Bile Day acham “válida qualquer lei que regulamente essas questões”, mas ao mesmo tempo sabem que “isso será um passo para o conhecimento se tornar crime” — levando em conta o apoio do grupo a divulgação de informações de interesse público. Ou seja, divulgar dados sobre corrupção, por exemplo. Esse vazamento não poderia ser considerado crime da mesma forma que o de informações íntimas de celebridades.
O Anonymous, depois de uma longa parceria, decidiu se desvincular do famoso e polêmico WikiLeaks, site fundado por Julian Assange, conhecido por publicar informações sigilosas sobre governos e grandes companhias.











