Cariocas se mobilizam em defesa de sírio vítima de xenofobia no Rio

Estrangeiro vítima de xenofobia teve uma chuva de clientes neste sábado (12) para apoiá-lo

Filas se formaram hoje para comprar as guloseimas de Mohammed Ali
Filas se formaram hoje para comprar as guloseimas de Mohammed Ali ANDRE MELO/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Centenas de pessoas demonstraram neste sábado (12) seu apoio ao refugiado sírio Mohamed Ali, vítima de xenofobia recentemente no Rio de Janeiro. O imigrante, que vende salgados árabes numa calçada em Copacabana, na zona sul da cidade, foi agredido verbalmente por um vendedor ambulante, que exigia que ele saísse do país.

A agressão foi filmada e as imagens divulgadas nas redes sociais e na imprensa. No vídeo, é possível ver um homem com um pedaço de pau ameaçando Mohamed, gritando ofensas xenófobas. Em determinado momento, o agressor o chama de “homem-bomba”.

Hoje, num ato de solidariedade e apoio a Mohamed, várias pessoas se reuniram para comprar os produtos vendidos por ele. Logo uma imensa fila se fez em frente da barraca de Mohamed, que teve que contar com a ajuda de quatro compatriotas, para poder atender a tanta gente.

Segundo a Agência Brasil, por cerca de uma hora a fila para comprar esfirras e quibes era formada por um número de 20 a 30 pessoas. Mohamed ficou o tempo todo ocupado, ora atendendo os pedidos, ora no caixa. Ele só parava por poucos segundos para atender a pedidos de fotos dos clientes.

Mohamed sequer conseguiu tempo para conversar com a reportagem. Disse apenas que estava feliz com todas aquelas pessoas. “Veja quanta gente”, falou, enquanto já se preparava para atender a outro cliente.

Um dos clientes, o policial militar Roberto de Souza saiu de sua casa em Bangu, na zona oeste da cidade, até Copacabana, só para prestigiar o imigrante sírio.

— Eu assisti o vídeo com a situação constrangedora que o Mohamed passou e vim prestar meu apoio — disse o policial, que voltou para casa com uma bolsa abarrotada de esfirras e quibes.

Guilherme Benedictis, um dos idealizadores da mobilização em defesa de Mohamed, promove feiras de comida de rua, os chamados “food trucks”.

— Eu conheci Mohamed há uma semana, depois que vi o vídeo. Me apaixonei por ele e sua família. São pessoas ótimas. Tivemos a ideia de fazer esse "esfirraço" e eu fiquei sabendo que o sonho dele era ter um food truck — disse.

Segundo Benedictis, já foi iniciada uma campanha de arrecadação de fundos para que Mohamed tenha seu próprio food truck e possa participar dos eventos promovidos por ele.

— A meta é chegar a R$ 20 mil e já conseguimos 20% disso, desde o dia 9. Acho que em menos de um mês, conseguiremos juntar todo o dinheiro — ressaltou.

Guilherme Curi, pesquisador em imigração sírio-libanesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que parte da população brasileira é descendente de sírios e libaneses, mas desde o ataque às torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, os árabes têm sido vistos como “terroristas”.

— Os árabes sempre conseguiram se socializar e pertencer à sociedade brasileira. A sociedade brasileira é mais árabe do que se imagina. A partir do 11 de setembro, ele passa de um ser exótico a ser visto como um terrorista potencial — disse.

Segundo ele, em momentos de crise econômica e incertezas, é comum o estrangeiro ser visto como um inimigo.

— Esse discurso de estereotipar o estrangeiro é um discurso produzido e reproduzido por um discurso que só leva à violência e à não-integração.