No 1º dia com todos os alunos, boa parte do medo e do pavor se transforma em alívio
Eduardo Marini, colunista do R7, e Felipe de Oliveira, do R7 | 19/04/2011 às 20h26Entre mortos e feridos, entre o medo e a necessidade que a vida impõe de seguir, os alunos da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, passaram com louvor no teste do retorno. No último dia 7 de abril, uma quinta-feira, a escola foi palco de uma ação em que Wellington Oliveira matou 12 alunos a tiros e deixou outros 12 feridos.
Veja as fotos da volta às aulas
Na última segunda-feira (18), 74 alunos de duas turmas do 9º ano (antiga 8ª série) voltaram à escola pela primeira vez após o massacre, para realizar trabalhos de terapia com arte durante uma hora e meia.
Mas, a verdadeira situação de pais e alunos pôde ser sentida de verdade nesta terça-feira (18), quando a maioria dos 999 alunos (400 deles matriculados de manhã, turno em que ocorreu o ataque) retornou à escola do subúrbio carioca em três períodos para atividades terapêuticas, artísticas e culturais: das 8h às 11h, das 14h às 17h e das 18h às 20h.
Estavam lá porque a vida precisa seguir. E também para sentir na pele, no ombro, no coração e na mente o peso e o calibre verdadeiros de um trauma que dividiu em duas partes a vida de todas essas pessoas.
Ainda falta um longo trabalho nas próximas semanas, mas a bravura dos alunos e pais, aliada à ação aparentemente eficiente de diretores, professores, psicólogos, assistentes sociais e Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, produz desde já bons resultados.
De volta à rotina
A marca simbólica desta terça-feira na Tasso da Silveira foi uma combinação comovente de drama e beleza. Pais e mães chegavam altivos e decididos com seus filhos. Na entrada, reafirmavam de maneira quase unânime a necessidade de recuperar a vida e a rotina na escola.
Na saída de cada turno, depois das ações terapêuticas e educativas bem-sucedidas, era bonito ver a expressão de alívio da maior parte dos pais diante de crianças que voltavam a sorrir com alguma leveza. E pareciam ter deixado em algum ponto da escola boa parte da carga que carregavam desde o último dia 7.
Um dos momentos mais emblemáticos do dia foi a chegada de Carlos Maurício Pinto, pai de Rafael Pereira Silva, de 14 anos, uma das vítimas do atirador Wellington Oliveira. Ele trouxe a filha Ana Beatriz Pereira da Silva, que, apesar da tragédia familiar, continuará a estudar na escola.
Na camisa, os dizeres: “filho, meu amor eterno. Rafael, te amo”. Ele resume seu ponto de vista:
- Foi uma fatalidade, ação de um louco. A Ana Beatriz estava muito abalada no início. Não queria voltar. Mas conversamos muito com ela, com a ajuda do psicólogo, e conseguimos convencê-la.
Coincidência x mistério divino
Em momentos como esse até mesmo a dúvida entre coincidência e suposto mistério divino serve de força.
Ao lado da filha Júlia Barbosa, de 13 anos, estudante de uma das turmas do 9º ano (8ª série) matutino da Tasso da Silveira, a mãe Maria Valéria Barbosa se penitenciava. Na quarta-feira (6), véspera do ataque, ela e Júlia brigaram porque Maria Valéria, por algum motivo, achou melhor que a filha não fosse à igreja naquele dia.
Na manhã seguinte, Júlia, ainda chateada, retaliou informando que não iria à aula. Maria Valéria diz não saber explicar por que, mas, ao contrário do que costuma fazer, não insistiu muito para que a filha tomasse o rumo da Tasso da Silveira naquele dia.
Era a manhã do massacre. Deu no que deu. O atirador castigou feio a turma de Júlia. Milena e Karine, suas melhores amigas, estão entre as 12 vítimas do alucinado.
A última coisa que alguém desejaria testemunhar é um ato absurdo como o ocorrido naquela quinta-feira. Por isso, não deixa de ser uma ironia desconcertante o fato de que a segurança das 1.064 escolas municipais cariocas vá passar por uma pequena revolução, ainda este ano, após a perda dessas 12 vidas provocadas pela ação do insano.
Após entregar aos alunos um origami (arte tradicional japonesa de montar objetos com papel dobrado) com mil pássaros, cada um deles com uma mensagem escrita no interior, um presente de alunos de uma escola do Mato Grosso do Sul, a secretária municipal de Educação do Rio de Janeiro, Cláudia Costin, anunciou um pesado pacote de medidas para aumentar a proteção na rede de escolas da cidade. As principais medidas são:
* Todos os alunos das 1.064 escolas municipais usarão crachás.
* Contratação de 1.844 inspetores de alunos, responsáveis pela fiscalização das áreas internas das escolas fora das salas, para se unirem aos 600 agentes atuais. A ideia é que cada andar de cada escola passe a ter ao menos um inspetor.
* Contratação de 1.500 porteiros por meio de uma empresa de prestação de serviços.
* Todas as escolas terão câmeras com capacidade de gravação nos andares e em pontos estratégicos da área externa e dos portões. Atualmente, apenas 200 delas possuem equipamentos do tipo, muitos deles apenas para monitoramento, sem capacidade de gravação de imagens.
A saída do turno da manhã foi feita logo após o anúncio de Costin. Uma sensação de alívio tomava conta de todos.
Tipoia e brincadeiras
Em mais um dia de sol impiedoso no Rio, a alegria e as brincadeiras de Ian Bruno Oliveira, de 13 anos, e Jonathan Oliveira dos Santos, 14, no meio do asfalto significavam, para conforto geral, muito mais do que a saudável leveza típica dos adolescentes. Amigos de turma do 8º ano (7ª série), os dois foram baleados pelo atirador. Estavam com tipoia nos braços, que tiveram os ossos quebrados pelos tiros.
O equilíbrio demonstrado pela dupla nesse primeiro dia surpreendeu. Jonathan, que ajudou a chamar o policial que acertou o atirador, foi até capaz de brincar com a situação.
- O pessoal fez muito trabalho manual, pintou e montou algumas coisas de artesanato. Mas eu fiquei apenas conversando, no papo, batendo boca. Vocês entendem, né?
Na ida, os dois foram levados por um assistente social. Na saída, recusaram ajuda. Voltaram para casa sozinhos, um rindo do outro.
Um pouco mais à frente, Maycon Henrique de Souza, de 13 anos, aluno do 7º ano (6ªsérie) começava a achar graça da quantidade de pessoas que se aproximava perguntando se o gesso que tinha em um dos braços era motivado por algo ocorrido no dia da tragédia.
- Não, não. Eu levei um tombo bem longe daqui e tive que engessar. Quando a pessoa vai chegando, eu já levanto a mão e digo: nada a ver, nada a ver...
A reportagem do R7 sugere ao simpático Maycon que ele arrume divertimento e paquera na escola a partir de agora. Ele responde:
- Claro. Eu inclusive estava fazendo tudo isso. Estava paquerando, quase ganhando...
Estava?
- Sim, estava.
Quem?
- A Larissa...
Larissa dos Santos Atanázio, linda menina de 13 anos, é uma das 12 vítimas do insano Wellington Oliveira.
Vida que segue, Maycon. Vida que segue, Tasso da Silveira.
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