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2 de Abril de 2015

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Internadas em abrigo do Rio, crianças
usuárias de crack pedem para estudar

Entidade ainda não prevê atividades escolares durante internação

Mariana Costa, do R7 | 16/07/2011 às 15h55
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Foi por meio de um simples caderno e um estojo de lápis coloridos que crianças usuárias de crack recolhidas pela Prefeitura do Rio descobriram uma oportunidade para reescrever as próprias histórias, perdidas nos anos de vício e na dura vida nas ruas.

O material escolar enviado pela Secretaria Municipal de Educação para as oficinas da Casa Viva, abrigo considerado modelo criado após a adoção da internação obrigatória de menores na capital, despertou nos 11 meninos e meninas que vivem no sobrado de Laranjeiras (zona sul) a vontade de voltar para a sala de aula.

Embora a maioria das crianças e adolescentes em tratamento para desintoxicação já tenha frequentado a escola, o vício e a vida nas ruas fizeram com que muitas delas perdessem os vínculos com a família e com a vida escolar, referências fundamentais para um indivíduo em formação.

A vontade de estudar manifestada pelas crianças levou a Secretaria Municipal de Assistência Social, que coordena o projeto, a considerar a possibilidade de oferecer oficinas ou aulas especiais de português e matemática na Casa Viva. O abrigo, que não permite que as crianças saiam para ir à escola, não previa atividades escolares. O período de internação compulsória varia de 45 dias a oito meses, conforme a relação de dependência verificada.

Coordenadora de sete abrigos municipais, a assistente social Cláudia de Castro diz que os menores relatam sentir saudades da escola. Segundo ela, a secretaria avalia se vai contratar professores ou buscar parceiros para ministrar as aulas. Uma das dificuldades é que as crianças e adolescentes – com idades entre dez e 15 anos – têm níveis diferentes de aprendizado e a maioria sequer sabe até que série cursou.

– Mudamos o plano de ação, porque percebemos um grande interesse. Hoje temos atividades de teatro, judô, boxe e mágica. Mas, com o passar do tempo, eles manifestaram a vontade de estudar. Como não podem frequentar a escola, pensamos em oferecer oficinas.

Cláudia explica que nos demais abrigos para menores viciados em que há permissão para sair, alguns internos frequentam a escola, mas “leva tempo para inseri-los”. Para estimular os estudos, a Prefeitura do Rio oferece estágios para os que estão abrigados há mais tempo e frequentam a escola.

Resgate da infância

Além da vontade de estudar, os internos em tratamento também expressaram desejos como comer chocolate e praticar esportes. Diretor da Casa Viva, o psiquiatra Ademir Treichel conta que tem comprado “umas 30 barras de chocolate por semana” depois que descobriu o prazer que as crianças sentiam em comer o doce à vontade.

– O que buscamos aqui é resgatar a infância perdida. Deixamos que comam à vontade e se lambuzem. Além desse resgate, há a própria sensação de prazer que o chocolate proporciona.

As crianças também vão a passeios organizados pela secretaria, que já promoveu idas ao circo e uma partida futebol entre os meninos da Casa Viva e os que vivem em um outro abrigo da zona oeste do Rio.

Consultor voluntário da Prefeitura do Rio para a reabilitação de dependentes químicos, o psiquiatra Jorge Jaber afirma que o mais importante é preparar a saída dessas crianças após o tratamento contra o vício, um desafio grande para aqueles que muitas vezes não tiveram os seus direitos fundamentais respeitados desde os primeiros anos de vida.

– O mais importante é conseguir preparar a saída, com estudo profissionalizante ou cultural que permita a ele ser um sujeito com conteúdo, com esperança de fazer algo. Fazer com que desejem ser alguém.

A maioria das crianças chega aos abrigos com o que os especialistas chamam de “doenças oportunistas”, como tuberculose e doenças sexualmente transmissíveis, já que mesmo com a pouca idade, muitas já têm vida sexual ativa. Com tratamento médico e alimentação regrada, em pouco tempo elas ganham peso e adquirem aparência mais saudável em comparação com a degradação física causada pelo crack, considerado 40 vezes mais nocivo que a cocaína.

Por trás da aparência brutalizada, as crianças revelam histórias ingênuas e com final feliz nas oficinas de teatro. A atriz Larissa Sarmento, que trabalha voluntariamente ao lado do também ator Ricardo Lacerda, criou uma brincadeira em que as crianças são estimuladas a dar continuidade a uma história. Ela esperava relatos de violência, mas acabou se surpreendendo com a ingenuidade dos desfechos criados pelos internos.

- Achei que iam contar histórias violentas, mas o que surgiram foram histórias super pueris, infantis mesmo.

* Colaborou Gabriela Pacheco, do R7


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