Homem foi apresentado como gerente na venda de drogas no complexo
Monique Cardone, do R7 | 30/11/2010 às 05h59O balconista Cristiano Cassimiro Ferreira, de 18 anos, entrou com um processo contra o Estado do Rio de Janeiro, na segunda-feira (29), por danos morais após ser confundido e apresentado pelas forças de segurança à imprensa como um traficante de drogas. O episódio aconteceu no domingo (28), quando o Complexo do Alemão foi ocupado pela polícia e Forças Armadas.
Mesclando revolta e temor - a todo tempo Cristiano estava atento à aproximação de policiais -, o rapaz relembrou no segundo dia de ocupação como foi acusado de ser o "gerente do pó de dez" - cocaína vendida a R$ 10. Ele disse que os policiais invadiram a casa dele, quebraram a janela e o prenderam por ter o mesmo nome de um traficante procurado.
- Eles não podem me prender, quebrar minha casa e ainda expor minha imagem na televisão sem ter provas. Se você olhar os jornais, eu apareço como um bandido, coisa que nunca fui. Nunca toquei em uma arma! É um absurdo.
A reportagem do R7 viu o momento em que Cristiano foi apresentado algemado no domingo e, no dia seguinte, reconheceu o rapaz em um dos acessos do Alemão. Ele disse que os policiais não tinham um mandado de busca e apreensão.
- Eles não mostraram papel nenhum. Trabalho como balconista, ajudo minha família em casa e, só porque moro na favela e tenho o mesmo nome que um traficante, fui obrigado a passar por essa vergonha. Quero limpar minha imagem e quero justiça.
Ele contou que mostrou a identidade, o contra-cheque da empresa em que trabalha e o CPF, mas, mesmo assim, os policiais o detiveram. Após ser levado para a delegacia, foi constatado que ele não era o traficante procurado e Cristiano foi liberado.
- Eles queriam era contabilizar. Eu era mais um para colocar nas contas deles. Eles tinham que mostrar alguma coisa para vocês [imprensa] e eu, como tantos outros moradores, fomos injustiçados.
De acordo com Cristiano, seu advogado disse que o processo é demorado, mas que a causa é ganha.
Buscas e revistas
Moradores também reclamam das vistorias das polícias em casas do Complexo do Alemão. Há queixas de agressão, violência e depredação de objetos nas moradias.
A Polícia Civil informou, por meio de sua assessoria de imprensa, não ter recebido até as 19h de segunda-feira, nenhuma denúncia referente à violência policial durante buscas e revistas no Alemão. A polícia diz ter recebido nesta segunda-feira mais de 30 e-mails de agradecimento.
A Secretaria de Segurança disse que acionou a Corregedoria Geral Unificada, que tem equipes checando denúncias na região. Além disso, a Ouvidoria de Polícia está se mobilizando para criar um núcleo de atendimento à população no Alemão. Casos mais graves que sejam confirmados serão tratados pelo secretário José Mariano Beltrame junto ao comandante-geral e ao chefe de Polícia Civil.
Uma resposta do Estado
A operação no Complexo do Alemão faz parte da reação da polícia à onda de violência que tomou conta do Rio de Janeiro na última semana, quando dezenas de carros foram incendiadas em vários pontos do Rio de Janeiro e houve ataques a policiais.
A ação dos criminosos foi vista pelo governo estadual como uma resposta às UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) instaladas nos dois últimos anos em comunidades antes dominadas pelo tráfico.
Para conter os ataques, a polícia, com apoio das Forças Armadas, realizou uma grande ofensiva na última quinta-feira (25) na Vila Cruzeiro, forçando a fuga de centenas de traficantes para o vizinho Complexo do Alemão, onde foram cercados nos dois dias seguintes.
Confira a galeria de fotos da operação no Complexo do Alemão
Veja a cobertura completa da guerra no Rio contra o tráfico

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