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30 de Setembro de 2014

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Rio: 50 anos depois, sobreviventes relembram incêndio que matou mais de 500 pessoas em circo de Niterói

Espetáculo em Niterói reuniu mais de 3.000 espectadores, a maioria crianças

Carlyle Jr., do R7 | 17/12/2011 às 05h31

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A poucos dias do Natal de 1961, mais de 3.000 espectadores, a maioria crianças, esperavam pelo salto final dos trapezistas do Gran Circo Norte-Americano, que fazia uma série de apresentações em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro. A matinê daquele domingo ensolarado teria sido perfeita, não fosse o que sinalizava o grito da trapezista Nena: “Fogo!” Em menos de dez minutos, a magia circense se transformou em um espetáculo de horror. O incêndio deixou mais de 500 mortos e condenou centenas de pessoas a uma vida marcada pela tragédia.

Fotos: relembre em imagens o incêndio do circo em Niterói

Os sobreviventes do incêndio, que completa 50 anos neste sábado (17), guardam na memória as cenas de terror. Em chamas, a lona, que era feita de material altamente inflamável, caía em gotas de fogo sobre a plateia, que tentava escapar em vão. Salva por um soldado do Corpo de Bombeiros, a aposentada Lenir Ferreira, hoje com 75 anos, perdeu o marido, os dois filhos, de dois e três anos, e o bebê que esperava.

- Lembro que o soldado gritou: 'Quem está com vida aí, levanta a mão'. Com muita dificuldade, eu consegui levantar o braço. Eu não consigo esquecer. Parecia que um guarda-chuva se abriu espalhando gotas de fogo sobre a gente.

A aposentada traz no corpo as marcas da tragédia. Ela ficou nove meses internada para se recuperar das queimaduras mais graves, que causaram a perda de um dedo e de parte do couro cabeludo. Até hoje, Lenir usa uma peruca e convive com cicatrizes por todo corpo.

- Minha vida ficou totalmente diferente. É como se eu tivesse nascido de novo. Eu queria viver e consegui. Apesar da tragédia, posso dizer que sou uma pessoa feliz.

A elefanta Semba

Para fugir do inferno sob a lona, grande parte do público tentou sair pela estreita entrada principal, que, mais tarde, ganhou o apelido de “corredor da morte”. A porta dos fundos foi a salvação para os artistas do circo, que escaparam ilesos do incêndio.

Assustada com a correria, a elefanta Semba disparou em direção à multidão, esmagando crianças e adultos. No entanto, centenas de pessoas conseguiram deixar o circo por meio do rombo que o animal fez na lona incandescente

O ex-comandante-geral da Polícia Militar do Rio coronel Mário Sérgio Duarte era uma das milhares de crianças que estavam encantadas com a magia do circo. Aos quatro anos, ele avistou o fogo a tempo de avisar o pai e a irmã de cinco anos. Graças a um buraco cavado no chão, os três conseguiram escapar.

- O meu pai ficou agarrado entre a estrutura de metal e o chão, porque o buraco era muito pequeno para ele passar. Mas nós conseguimos tirar ele de lá. Lembro quando a lona caiu sobre todo mundo. Meu pai não deixou que eu e a minha irmã olhássemos para trás. Quando chegamos em casa, minha mãe reclamou que estávamos os três sujos de fuligem.

Um ex-funcionário do circo assumiu a autoria do espetáculo de horror. Adilson Marcelino Alves, o Dequinha, de 22 anos, era um dos 50 trabalhadores contratados para a montagem da lona. Depois de brigar com o dono do circo, Dino Stevanovich, Dequinha teria prometido vingança. Ele e mais dois cúmplices foram condenados a 16 anos de prisão.

Também havia suspeitas de que as precárias instalações elétricas do circo teriam causado um curto-circuito. Nenhuma vítima do incêndio foi indenizada até hoje.

Médicos heróis

Para lembrar os 50 anos da tragédia, o jornalista Mauro Ventura escreveu o livro O espetáculo mais triste da terra (Companhia das Letras). A publicação resgata o drama dos sobreviventes e as histórias de solidariedade e heroísmo. Mauro conta que, após o incêndio, médicos de Niterói e até da Argentina montaram um mutirão para tratar os feridos.

- Os médicos tiveram que lidar com um grande número de queimados e trabalhar em condições precárias, e com o principal hospital da região, o [Hospital Universitário] Antonio Pedro, fechado inicialmente. Os médicos, alguns recém-formados, aprenderam ali, naquele momento, a tratar queimaduras gravíssimas.

O cirurgião plástico Ivo Pitanguy, de 85 anos, que liderou o time de médicos, destaca que o episódio ajudou a desenvolver a especialidade no país.

- Os brasileiros aprenderam a respeitar a cirurgia plástica como um ramo importante da medicina. Antes, existia aquela ideia ligada só a estética. Nós recebemos pele da Marinha dos Estados Unidos para fazer o enxerto dos queimados mais graves. Isso era algo novo para a cirurgia plástica brasileira. Fizemos um bom trabalho, viramos referência.

PROFETA_GENTILEZA

Após incêndio, empresário teve "revelação" e se tornou o profeta Gentileza (Foto: Leonardo Guelman/ONG Rio com Gentileza)

Incêndio gera “gentileza”


Enquanto os médicos tratavam os feridos e voluntários enterravam os mortos em um cemitério construído às pressas por causa da tragédia, um homem esquálido e de fala mansa foi morar no terreno do Gran Circo em meio aos destroços e aos sapatos de crianças que ficaram para trás. Ali, José Datrino se despia da figura de pequeno empresário para dar vida ao profeta Gentileza.

Após o incêndio, Datrino teve uma “revelação divina” e decidiu mudar-se para Niterói. O jornalista Mauro Ventura conta que Gentileza, que morava em Guadalupe, na zona oeste do Rio, abandonou a mulher e os quatros filhos para consolar os parentes das vítimas.

- No terreno do Gran Circo, Gentileza constrói o seu 'paraíso', com horta e poço. Durante quatro anos, ele recebe os parentes das vítimas, que iam até o terreno para se matar, por exemplo. Lá, ele começou a esboçar os seus primeiros escritos de gentileza que, mais tarde, chegaram às pilastras do viaduto do Gasômetro, no centro do Rio.

Assista ao vídeo:

 


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