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24 de Abril de 2014

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Rocinha: 1 ano após ocupação, homicídios, estupros e roubo a casas sobem até 100%

Guerra do tráfico deixou ao menos 11 mortos na comunidade neste ano

Bruno Rousso, do R7 | 13/11/2012 às 02h00
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Em 13 de novembro de 2011, a polícia tirava a favela da Rocinha, na zona sul do Rio, das mãos do comando do tráfico de drogas. Dias antes, Antônio Bonfim Lopes, o Nem, chefe da facção local, era preso em fuga dentro do porta-malas de um carro, na Lagoa, a poucos quilômetros do seu antigo "reino". Um ano se passou e a realidade da comunidade, longe dos fuzis dos criminosos, melhorou. Segundo moradores, é possível curtir “uma sensação de paz”. No entanto, estatísticas do governo do Estado indicam que ainda há muita coisa a ser feita por ali e nos arredores da maior e mais populosa favela do Rio — com cerca de 70 mil habitantes.

Dados do ISP (Instituto de Segurança Pública) mostram que índices de criminalidade, como homicídio, estupro e roubo a residências, aumentaram de forma considerável neste ano na área que se estende do início de São Conrado, bairro onde a comunidade se estabeleceu, ao Jardim Botânico.

Prováveis reflexos da guerra entre criminosos que acometeu a Rocinha entre março e abril passados, os homicídios dolosos, quando há intenção de matar, cresceram 50% na comparação entre janeiro a setembro de 2011 e o mesmo período deste ano. Segundo o ISP, ao longo dos primeiros nove meses deste ano pós-ocupação, 18 pessoas foram mortas na região — seis a mais que o ano anterior. Ao menos 11 casos foram registrados dentro da Rocinha. Duas vítimas eram policiais.

De acordo com o major Edson Santos, comandante da UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, inaugurada em setembro passado, os criminosos aproveitaram o período em que o Bope (Batalhão de Operações Especiais) migrou para o Complexo do Alemão, na zona norte, para tentar plantar novamente a cultura do terror na favela.

— Tivemos 11 ou 12 casos só naquele período de briga entre facções aqui, quando os criminosos tentaram recuperar alguma força. E foi justamente quando o Bope foi para o Alemão, onde faria a varredura para a instalação da UPP. Ou seja, a grande maioria das mortes na região foi em confrontos, seja com policiais ou entre os próprios criminosos.

O índice de roubo a residências também chama a atenção. Em 2011, o ISP levantou 15 ocorrências. Neste ano, registrou o dobro de casos. A diferença é resultado da onda de assaltos que fizeram parte da rotina das áreas mais nobres da zona sul nos primeiros meses de 2012. Até um caso envolvendo o vice-governador Luiz Fernando Pezão entrou para a estatística. Em abril passado, seu apartamento no Leblon foi invadido e revirado. De acordo com o major Edson, duas quadrilhas responsáveis por esse tipo de crime foram presas até julho. Ao menos um dos grupos era formado por bandidos da favela.

— Da metade do ano para cá, esses assaltos a casas diminuíram muito, praticamente zeraram. E isso porque prendemos uma das quadrilhas em operação conjunta com a Delegacia da Gávea (15ª DP). E depois, eles (policiais da 15ª DP) prenderam uma outra quadrilha. Inclusive, um dos caras que prendemos estava com um colar de pérolas que tinha roubado de uma casa no Leblon.

Episódios de estupro também marcaram os últimos meses na zona vigiada pelo 23º Batalhão de Polícia Militar. Em 2012, foram 40 casos até setembro, 17 a mais do que o notificado ano passado. O aumento de 74%, segundo o major Edson, conta com pouca participação da Rocinha. Entretanto, ele não descarta que a pacificação possa, sim, ter refletido diretamente nesse e em outros índices de criminalidade.

— Acho que isso não é na Rocinha. Uma questão que tivemos de estupro, prendemos o estuprador. Se tivemos dois casos, foi muito. Mas é claro que se determinados tipos de crime aumentaram justamente após a ocupação, pode ter alguma relação. Dizem que tem gente que saiu da Rocinha e foi para o asfalto praticar crimes, por exemplo. Mas é difícil dizer. O que sei é que temos muita coisa para fazer ainda. E vamos fazer.

Ignácio Cano, especialista em segurança pública e um dos fundadores do LAV (Laboratório de Análise da Violência) da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), não se surpreende com o aumento da incidência de estupros e roubos a residências, mas estranhou o crescimento no número de homicídios.

— É comum em áreas que ganham UPP aumentar os estupros, de roubos. Isso acaba sendo uma consequência, que depois vai se corrigindo com o tempo. Mas as mortes me surpreendem. Não é comum. Mesmo assim, os números ainda não são muito grandes. Então, é melhor esperar um pouco para ver exatamente o que significam.

Sensação de paz

O aposentado Alonso Oliveira, de 74 anos, chegou à Rocinha há mais de 50 anos. Durante boa parte de sua vida na comunidade, ele conviveu com as leis do tráfico e barulhos que invadiam a madrugada. Com a retomada do território, ele diz que a vida melhorou na vizinhança.

— Para nós que dormimos cedo, melhorou, porque não fazem mais barulho até altas horas. Acabou aquela bagunça. Isso, é claro, sem falar que não temos mais pessoas andando com armas na rua. Aquilo era muito ruim. Era uma agressão para a gente. Ninguém gosta de viver no meio de um monte de criminosos que se protegem com um monte de armas perigosas.

O vendedor João Damasceno, de 40 anos, é vizinho do Seu Alonso. Ele também comemora as noites de sono tranquilo e a ausência de fuzis desfilando pelas vielas.

— Não tem comparação. A gente saía para trabalhar e dava de cara com um pessoal esquisito. Agora vivemos em paz. Às vezes acontecem alguns problemas, mas no geral vivemos bem melhor. Esse ano foi 1.000% melhor que os últimos que passei aqui.

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A realidade da gigantesca Rocinha se mistura a bairros nobres, como São Conrado, Jardim Botânico e Leblon


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