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22 de Setembro de 2014

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Teresópolis tem “mar de lama” e mais de 3.000 casas interditadas seis meses após tragédia das chuvas

Falta verba para acelerar ritmo da reconstrução, diz procuradora-geral do município

Sérgio Vieira, do R7, em Teresópolis | 10/07/2011 às 10h15 | Atualizado em: 10/07/2011 às 13h20

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As marcas da tragédia na região serrana ainda estão por toda parte da cidade de Teresópolis.  O desastre, que matou mais de 900 pessoas e deixou cerca de 600 desaparecidas em sete municípios da serra fluminense, completa seis meses nesta segunda-feira (11). 

Mas os moradores de Teresópolis ainda convivem com grande quantidade de escombros, lama, lixo e poeira em grande parte das 79 localidades, incluindo as zonas rural e urbana, devastadas pela catástrofe. (Veja abaixo o antes e o depois de Teresópolis)

A equipe do R7 esteve nos bairros da Posse, Caleme, Cruzeiro, Santa Rita, Cascata do Imbuí, Campo Grande, Arrieiro, Vieira, Holliday, Espanhol e Jardim Salaco e pôde conferir que muito material se acumula ao lado de casas, nas calçadas e até em avenidas. 

Veja imagens inéditas da tragédia na região Serrana

As vias principais das localidades foram reabertas, no entanto, centenas de casas continuam cobertas com camada de até 3 m de barro em vários pontos das localidades acima citadas.

O barro está no entorno das vias, por exemplo, nos bairros da Posse, Caleme, Jardim Salaco, Santa Rita, Cascata do Imbuí e Campo Grande. Uma grande quantidade de lixo se concentra nas calçadas do bairro Espanhol, nos arredores de Arrieiro e no Jardim Salaco. Os escombros das casas, por sua vez, praticamente não foram retirados em nenhuma localidade.

O problema, de acordo com a prefeitura de Teresópolis, é encontrar locais disponíveis para descartar todo o entulho e a terra retirada. Nos seis meses, o município recolheu mais de 3.000 toneladas de lixo.

O dilema, no entanto, não é novidade. No dia 17 de janeiro, homens do Corpo de Bombeiros afirmaram ao R7 que tiveram que interromper as buscas do corpo de uma criança de três anos, no bairro Espanhol, porque não havia lugar para jogar fora o lixo e a lama. 

A procuradora-geral do município, Ana Cristina da Costa, confirma que o dinheiro recebido pela cidade – cerca de R$ 7 milhões – foi usado para obras emergenciais e diz que o município não tem recursos para acelerar a reconstrução das áreas atingidas.

- O Estado está atuando no município. A Emop [Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro] e outras secretarias estão fazendo os serviços e, de alguma forma, esses órgãos recebem verba direta do governo, mas o município só teve acesso aos R$ 7 milhões iniciais, que foi utilizado com salvamentos e retirada de escombros e barreira. O valor repassado até agora não é suficiente.

De acordo com o Ministério da Integração Nacional, os R$ 70 milhões que faltam ser liberados para o Estado, já estão disponíveis, mas só serão repassados após prestação de contas das obras que já foram realizadas nas cidades atingidas

Segundo Ana Cristina, as autoridades de Teresópolis têm feito o melhor para atender à demanda de serviços.

- A gente vem atendendo os moradores na medida possível, óbvio é que nunca vai ser satisfatório. Dentro da situação vivida, do tamanho da tragédia, a gente está fazendo o nosso melhor. Hoje a gente já sabe quais são as demandas, a gente tem procurado atender todo mundo. 

A situação de abandono em algumas áreas é evidente. No bairro da Posse, por exemplo, cercas improvisadas, terra ao longo da avenida principal, dezenas de casas ainda soterradas, enormes pedras e troncos de árvores retorcidos contribuem para que a população do bairro não consiga voltar à realidade, efetivamente, já que diariamente são obrigados a conviver com o cenário de destruição.

Este material está aumentando a poluição do rio Paquequer, onde pode ser encontrada toda a sorte de objetos, de bonecas a aparelhos eletrônicos (além de móveis), tudo contribuindo para que o rio fique ainda mais poluído.

O entulho no entorno das vias prejudica a passagem dos pedestres, que são obrigados, a fazer malabarismos para conseguir percorrer certos trechos e chegar até ao ponto de ônibus (também improvisado) já que o local onde ficava o ponto fora destruído na tragédia, e permanece sem reparos.

Além disso, já no caminho de Campo Grande, canalizações também não receberam nenhum tipo de conserto, jorrando água a céu aberto e aumentando a possibilidade de contato dos moradores com água contaminada.

Moradores não conseguem esquecer a tragédia

Conviver diariamente com os escombros da tragédia não é fácil, apontam os moradores da cidade. De acordo com Sandra Gomes, que vive no Jardim Salaco, as condições em que os bairros atingidos ficaram evidencia o descaso com os moradores da cidade além de tornar viva a lembrança da tragédia todos os dias. 

- Apenas esta semana começaram as obras de contenção aqui no Jardim Salaco. O que foi feito de emergência foi feito, depois parou. Só agora que começaram a aparecer aqui. A gente se entristece diariamente.

Já para Louis Capelle, morador do bairro da Posse, a falta de infraestrutura se seguiu por muitos meses após a tragédia.

- Nós ficamos praticamente três meses sem telefone, a tragédia foi tão “braba” que arrancou postes, cercas e tudo custou a voltar. Ficamos muito tempo sem luz mas como a gente tem nascente, a gente doava água para os vizinhos.

Segundo a prefeitura de Teresópolis, todo o material que é retirado das localidades atingidas é levado por empresas contratadas pelo governo do Estado para terrenos no interior do município, no entanto, a areia é reaproveitada em obras realizadas pela cidade. Além disso, a prefeitura nega que os bairros tenham ficado muito tempo sem os serviços básicos, com exceção dos imóveis que estão interditados.

De acordo com a Secretaria Municipal de Defesa Civil, foram registradas 392 mortes na cidade de Teresópolis. Cerca de 6.730 pessoas ficaram desalojadas, 9.110 desabrigadas e 322 pessoas desaparecidas por conta das chuvas do dia 11 de janeiro. Na região serrana o número de pessoas atingidas chega a 31 mil desabrigados e desalojados.

Muitos desabrigados conseguiram lugar na casa de parentes e amigos. Atualmente, a prefeitura mantém três abrigos – um na Barra do Imbuí, num espaço cedido pela Igreja Batista. Nele, estão 33 pessoas, instaladas em barracas shelter box. Na Várzea, um abrigo funciona na Igreja Brasil para Cristo e tem 12 pessoas. O Ginásio Pedrão abriga sete homens solteiros. No total, das 700 pessoas que passaram pelos abrigos, atualmente estão apenas 52 pessoas.

Desde abril, a Defesa Civil realizou 5.110 atendimentos aos moradores de áreas afetadas. 896 imóveis foram interditados definitivamente e demarcados pela Emop (Empresas de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro). Já as interdições provisórias chegam a 3.681 e aguardam para serem reavaliadas. Foram desinterditadas 222 casas, e emitidas 526 declarações de perda total. Apenas 12 imóveis foram demolidos. 

Por conta das interdições, o comerciante João Paulo de Moraes, do Jardim Salaco, está sem nenhuma forma de renda, já que sua loja está sob interdição preventiva. O imóvel fica diante de um morro que deslizou e que já está condenado pela Defesa Civil. 

- Estou cedendo o lugar para a equipe das obras. Desde a chegada da Defesa Civil, estou sem trabalho. Já não bastava ter ficado seis meses convivendo com esgoto na rua, frequente falta de energia e este cenário de guerra, agora não posso nem trabalhar. 

Projeto do Estado a que o R7 teve acesso

A reportagem do R7 teve acesso com exclusividade a um projeto conceitual da Secretaria de Obras do Estado do Rio de Janeiro, com as diretrizes para a construção das unidades habitacionais nas áreas desapropriadas, a Fazenda Ermitage e a Fazenda Santa Cruz. Ao todo, serão construídas 1.818 unidades nas duas localidades. 

Na Fazenda Ermitage, com 190 hectares - que foi desapropriada uma semana após a tragédia para atender às famílias que ficaram desabrigadas – um novo bairro será erguido, com a construção de 1.685 imóveis habitacionais e 40 comerciais.

Por estar rodeado de uma área de preservação ambiental, o projeto inclui uma área livre onde será construído um parque municipal, com um lago. No local, também serão erguidos uma escola municipal, creche e uma escola técnica ambiental.

Na Fazenda Santa Cruz, o Estado vai construir uma agrovila. O projeto indica que serão levantadas 168 unidades habitacionais e 20 comerciais e todas as casas terão áreas destinadas ao plantio.

A intenção é criar um núcleo produtivo para os moradores da área rural que perderam tudo com as enchentes e deslizamentos, inclusive com a criação de uma cooperativa e um galpão coletivo de beneficiamento.


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