Pesquisa revela impactos da violência no aprendizado de crianças e adolescentes no Rio

Em um ano, Rio registrou quase 4 mil tiroteios, média superior a 10 por dia

Na Maré, violência suspendeu as aulas por 18 dias durante o primeiro semestre deste ano
Na Maré, violência suspendeu as aulas por 18 dias durante o primeiro semestre deste ano Reprodução/Maré Vive/Arquivo

Entre julho de 2016 e julho de 2017, a cidade do Rio registrou 3.829 tiroteios, uma média superior a dez confrontos por dia. O dado é da pesquisa "Educação em Alvo – Os Efeitos da Violência Armada nas Salas de Aula", desenvolvido pelo aplicativo Fogo Cruzado, em parceria com a DAPP/FGV (Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas).

Os números demonstram como a violência tem se aproximado e afetado a população em idade escolar. Apenas este ano, confrontos interromperam as aulas em 99 dos 107 dias letivos. Isto é, apenas em oito dias do primeiro semestre de 2017, todas as escolas e creches da rede municipal de Educação funcionaram.

Segundo o estudo, os bairros de Costa Barros, Acari (zona norte) e Cidade de Deus (zona oeste) são os que concentram o maior número de escolas municipais, estaduais e creches expostas à violência armada. Apenas em Acari, foram 72 registros de tiroteios ou disparos de arma de fogo, seguido por Costa Barros, com 54 ocorrências. Somado a esse contexto, foram contabilizadas 188 mortes violentas nesta região, no período de um ano.

Segundo os pesquisadores, esses números, quando confrontados ao grande quantitativo de instituições de ensino ao redor, potencializa o impacto da violência no cotidiano dos alunos. Dentro de casa ou na escola, o sentimento de medo altera a rotina e, ainda pior, pode trazer prejuízos a saúde psicológica das crianças. Além das aulas perdidas, os confrontos na favela de Acari fizeram com que o neto de Néia Ramos da Silva precisasse iniciar acompanhamento com uma psicóloga.

— Foi indicação da escola porque o comportamento dele mudou e eu notei em casa também. Ele ficou com medo de tudo, de ficar sozinho e, até da chuva, porque teve chuva de granizo aí ele ficou apavorado. Até hoje ele não fica mais sozinho em casa — explicou a avó.

Durante operação, tiros atingiram casa de Néia na favela de Acari
Durante operação, tiros atingiram casa de Néia na favela de Acari Arquivo Pessoal

Em Acari, a violência chegou ao local que eles deveriam se sentir mais seguros: dentro da própria casa. Nas paredes e na TV estão as marcas dos tiros que atingiram a residência onde Neia mora com a família.

— Estava eu, meu filho mais velho e o bebê, aí soltaram fogos e logo em seguida começaram os tiros, foi quando escutei os tiros pegando aqui. Gritei igual uma louca pro meu filho sair do quarto, pois ele estava dormindo e a bala passou raspando na cabeça dele — lembrou a moradora. 

A rotina de confrontos impõe um "manual de sobrevivência" a quem passa e, sobretudo, para aqueles que vivem nessas áreas. Segundo a pesquisa "Educação em Alvo", a zona norte da cidade é o local com maior incidência de troca de tiros, com destaque para as áreas dos Complexos do Alemão (218 registros) e da Maré (119 registros). No Alemão, segundo os últimos dados disponíveis do ISP (Instituto de Segurança Pública), 21 pessoas foram mortas entre julho de 2016 e maio de 2017. Na Maré, por sua vez, 122 pessoas perderam a vida de maneira violenta no mesmo período.

Nascida e criada no Complexo da Maré, Ana Beatriz Santos de Souza, de 18 anos, sempre estudou dentro da comunidade. Ela lembra vários episódios de terror dentro fora da escola, momentos de correria na saída ou no corredor, local para onde os alunos são levados para se proteger dos tiros. Ainda hoje os confrontos interrompem e assustam as aulas de Ana Beatriz no projeto Orquestra Maré do Amanhã e as aulas de violino que ela ministra.

— Quando essas coisas acontecem e você é criança, você só obedece o que seus pais mandam fazer. Conforme vamos crescendo, vamos aprendendo o que fazer caso aconteça algo e estejamos sozinhos, como questão de sobrevivência mesmo, de se adequar a nossa realidade lá dentro. Quando acontece e você está na escola, todos vão para o corredor e ficam sentados. Quando acontece na rua, você tem que se abaixar, se esconder atrás de algum lugar, entrar em um beco para poder sair do foco, que são as principais vias, mas quando a polícia está lá, nada disso funciona, porque eles também ficam nos becos. É esperar acalmar, ter certeza, ver que tem gente na rua e rezar até chegar em casa — explicou a jovem.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, no primeiro semestre deste ano, as escolas da Maré precisaram interromper as atividades 18 vezes. Também de acordo com a secretaria, a região mais prejudicada do Rio é a favela de Acari, com 30 dias de suspensão no funcionamento das instituições devido a insegurança.

A aproximação da violência de escolas e creches do Rio já produziu cenas de desespero e tristeza este ano. Foi na favela de Acari, que em março deste ano, a menina Maria Eduarda, de apenas 13 anos, foi baleada e morta no pátio da Escola Municipal Daniel Piza. Meses depois, o inquérito apontou que o tiro que matou a estudante partiu da arma da polícia.

Foi na mesma comunidade onde Ana Beatriz vive, que a foto de uma criança chorando por não poder ir a escola foi tirada. Em mais um dia de operação na Maré, as aulas foram suspensas e a imagem da criança uniformizada chorando no portão emocionou muitas pessoas.

— Tem alunos que desanimam, outros que lutam para mudar a realidade de vida deles. Crescemos aprendendo a temer o lugar onde moramos e vivemos — desabafou Ana Beatriz.

*Colaborou Jaqueline Suarez, estagiária do R7 Rio